Viver na Baixa é uma aventura com muitas escadas para os mais velhos

por • 24 Junho, 2013 • ReportagemComentários fechados em Viver na Baixa é uma aventura com muitas escadas para os mais velhos830

 

Deviam receber um prémio, pelo record que batem cada dia a subir escadas, em prédios antigos da Baixa, sem elevador. Mas não são de grandes lamentos. Há quem viva em edifícios ainda sem casa de banho. E proprietários que propõem a inquilinos com 80 anos mudarem-se para um sexto andar. É a vida pura e dura dos velhos moradores da Baixa.

 

Texto: Fernanda Ribeiro    Fotografias: Carla Rosado

 
Às segundas e sextas, a algazarra instala-se no salão da junta de freguesia de S. Nicolau. Perto de 30 mulheres, cujas idades oscilam entre os 60 e os 80 e muitos anos, saem das suas casas e vão para o convívio promovido pela junta. Ali passam a tarde. Às vezes pintam, outras desenham. E falam, falam, falam.

 
Alda Costa tem 78 anos e vive na Baixa, num quarto andar da Rua da Vitória, desde os seus 21. Ali nasceram os filhos, que entretanto já casaram. Numa casa com dois quartos, cozinha e …sem casa de banho. “Não temos casa de banho. Lavamo-nos em alguidares e não morremos. Não é por isso que vamos andar sujos”, diz Alda, que agora está a ser corrida da casa onde vive. Um quarto andar que já lhe custa subir, num edifício que vai ser transformado num hotel.

 
Os proprietários querem que saia dentro de dois meses. E a alternativa que lhe é apresentada pelos donos do imóvel, um grupo imobiliário associado à seguradora Tranquilidade, não lhe dá tranquilidade nenhuma: “Propuseram-me uma casa na Rua dos Correeiros, que tem casa de banho mas é um sexto andar, sem elevador”.

 
Alda acha que não pode aceitar. O marido tem 80 anos, está reformado e ainda que se mantenha activo – “ainda faz uma escrita”, diz Alda -, ir morar para um sexto andar sem elevador é pedir o impossível. Por isso, recorreu a um advogado. Mas os proprietários ainda não lhe apresentaram qualquer outra alternativa. “Na rua é que não podemos ficar”.

 

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São muitos os anos de vida, são muitos os anos de estórias.

 
É muitas vezes nos últimos andares dos prédios da Baixa que vivem os mais velhos moradores do centro histórico. Albertina Baptista tem 86 anos e mora há 64 anos no sótão de um prédio da Rua dos Douradores, o equivalente a um sexto andar. E subir aquilo tudo, custa-lhe. É bisavó e ao longo de 64 anos muita escada tem subido na vida.

 
“O meu filho, que faz 60 anos, diz que não vai lá porque não pode subir tanta escada. Os mais novos já não querem prédios sem elevador”, diz Albertina, que descobriu recentemente ter anemia, o que lhe provoca um cansaço acrescido. “Na rua, ando com uma bengala, para não cair. Porque já uma vez dei uma grande queda”, conta. É uma inquilina que não tem razões de queixa do senhorio. “Ele tem muitos prédios mas é muito cuidadoso com eles. Até tem um mestre-de-obras”, sublinha.

 
Agora, o que lhe faz falta na zona onde mora é um talho. “Agora aqui não temos padaria, nem talho. O médico mandou-me comer fígado de vaca, para a anemia. E onde vou arranjá-lo? Fechou tudo”, lamenta Albertina, referindo-se às mudanças no comércio da Baixa que fizeram desaparecer lojas tradicionais de abastecimento comum. O filho convidou-a a ir morar com ele, mas Albertina recusou, por aparentes desavenças com a nora. “Ela está melhor sozinha na casa dela, e eu na minha”, sustenta.

 
Fernanda, 77 anos, mora há 52 anos na Rua da Vitória, também num quarto andar. Recorda-se de quando ainda havia trânsito na Rua Augusta e das lojas famosas na década de 60. “Lembram-se da Vapedrone, a loja de discos? E da Rádio Vitória?”. Mal coloca a pergunta, algumas desatam a cantar o anúncio radiofónico da Rádio Vitória. “Candeeiros bem bonitos, modernos, originais/ candeeiros bem bonitos, modernos, originais/ compre-os na Rádio Vitória/ não se preocupe mais”… “Nessa altura, a vida era melhor porque se podia andar à vontade na rua, não havia os problemas de segurança que há agora”, diz com alguma nostalgia Fernanda.

 

Alzira Paixão tem 68 anos e mora há 35 na Rua Augusta, num quarto andar que, diz, tem condições razoáveis. “O prédio foi arranjado e até não tem más condições, mas um quarto andar já custa a subir sem elevador”, diz Alzira, que é mãe de dois filhos e avó de quatro.

 
Quem a veja, toda bem arranjada e penteada, não diria a vida dura que já teve: “Trabalhei muitos anos num ferro velho ao pé da Casa dos Bicos. Era um trabalho duro, que obrigava a pegar em muitos pesos”, explica. Entretanto reformou-se e um dos seus entretenimentos é ir aos convívios na Junta, onde é servido um lanche.  “Aqui dão-nos dois pães, um bolo de arroz, um sumo e uma peça de fruta”, detalha Alzira, sublinhando que “não é pelo lanche” que lá vai. “É pelo convívio e para sair de casa. Se não, só saía para ir à missa”.

 

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Mais do que o lanche, é o convívio que chama as idosas ao Centro de Dia de São Nicolau.

 
Além do convívio, a junta de S. Nicolau também organiza passeios: um dos mais recentes foi a Seia, ao Museu do Pão. “Uma maravilha, com um almoço muito bem servido, como se fosse um casamento”.

 
Nos restantes dias da semana, Alzira frequenta o Centro de Dia da Paróquia de S. Nicolau, onde de terça a quinta-feira, também há actividades, lanche e passeios. Lá “aparecem também alguns homens” que não se vêem porém no convívio da junta, onde à segunda-feira há um serviço extra que ali é prestado. Pelas quatro da tarde, duas assistentes entram na sala e começam a chamar as freguesas uma a uma para lhes medir a tensão.

 
“Aqui na Baixa temos boa assistência médica, não nos podemos queixar de falta dela. Seja através da junta, seja no centro de dia da igreja onde também temos uma assistente social”, diz Alzira. O que falta sobretudo à maioria é saúde e dinheiro para os medicamentos. É do que se queixa Albertina: “A falta de saúde é o meu principal problema. Tenho gasto tanto dinheiro com medicamentos”.

 
Maria Alexandrina Rodrigues, 78 anos, continua a frequentar aquele convívio na junta de S. Nicolau, onde fez amigas, apesar de já não morar na freguesia. Era apanhadora de malhas, profissão há muito extinta, depois trabalhou na Casa Pia e foi durante muito tempo uma moradora da Baixa, onde habitou durante 46 anos.

 
Vivia no último andar de um prédio na Rua da Prata, junto à Igreja de S. Nicolau. “Como o prédio tem sobreloja é o equivalente a um sexto andar”. Quando o marido adoeceu, com Alzheimer, tornou-se-lhe impossível viver ali. “Era impossível o meu marido subir e descer tanta escada. Pedi ajuda à Santa Casa da Misericórdia e eles conseguiram realojar-me. Foram muito simpáticos comigo. Às vezes tiram as pessoas do sítio onde moram e realojam em lugares maus. Mas não foi o meu caso. Esta foi uma história com final feliz. Estou lá muito bem, numa casinha nova”, diz sorrindo. Agora, com 78 aos anos, vive num primeiro andar da Avenida Almirante Reis, uma “casinha nova” de que gosta.

 
Alheada da algazarra reinante no salão da Junta de freguesia, Maria Clotilde, sentada a meio da sala, está concentrada e de olhos poisados num desenho que vai fazendo em papel quadriculado, para reproduzir um naperon em crochet, que quer fazer numa escala reduzida.

 

Desenhar e fazer crochet…nada de anormal nesta forma de preencher tempos livres. Mas espantoso, quando a própria Maria Clotilde nos diz que tem 87 anos. E que, antes de ir à junta nesse dia, já fez umas caminhadas boas entre a Estação de Sul e Sueste e os Restauradores e subiu duas vezes ao terceiro andar do prédio onde habita, na Rua dos Fanqueiros.

 
E num relato estonteante, explica: “Ainda subo bem três andares. Hoje já o fiz duas vezes. Vim de casa da minha filha que mora em Brejos de Azeitão, saí do barco que vem do Barreiro, fui a casa e depois saí para ir almoçar à cantina dos serviços sociais da função pública, ali ao pé do elevador da Glória. Daí é que vim aqui para a junta”.

 
Para ela, como para muitos outros moradores, viver na Baixa ainda é uma aventura, apesar das rotinas e das dificuldades que é preciso enfrentar para se chegar vivo a casa.

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