Os olhares de espanto e as expressões boquiabertas de quem via passar o eléctrico junto ao Miradouro de São Pedro de Alcântara eram mais que justificados. Afinal, a última vez que tal sucedera fora já há duas décadas, quando a Carris desactivou, com carácter provisório, e devido a uma obra, a linha 24 – que assegurava a ligação entre o Cais do Sodré e Campolide. O temporário foi assumindo características perenes e os carris deixaram de ser usados desde essa altura.

 

Agora, a troco de seis euros, e com um bilhete que pode ser usado durante 24 horas, é possível fazer o circuito Chiado Tram Tour, que liga em sistema de carrossel o Largo Camões ao Príncipe Real. O mesmo género de serviço que, há cerca de um ano, faz o Castle Tram Tour, a partir da Praça da Figueira, o qual ganhou agora paragens no Martim Moniz e no Largo da Graça. Com o início da nova operação comercial hoje aberta pela Carristur, passam a estar cobertos pelo serviço eléctrico pontos tão emblemático como a Igreja da Misericórdia, o Jardim do Príncipe Real, o Largo de São Roque e o Miradouro de São Pedro de Alcântara.

 

A inauguração da ligação, explorada pela empresa do grupo Carris vocacionada para o serviço turístico, ocorreu na manhã desta quinta-feira (28 de Maio) e serviu também para os jornalistas ficarem a saber que o renascimento do eléctrico 24 – há muito reclamado, tanto por entusiatas deste meio de transporte como por diversos grupos de activistas urbanos – não estará para tão cedo nos planos da transportadora pública. A não ser que seja para exploração turística. Logo, com outro nome e com preços não compatíveis com o serviço público.

 

Isso mesmo foi assumido por Rui Loureiro, presidente do conselho de administração da Carris. Ou dá lucro ou então esqueçam essa ideia, deu a entender. “Se houver procura, poderemos pensar em retomar a utilização dessas linhas”, disse, quando questionado sobre a possibilidade de se voltar a ver eléctricos a passarem pelas ruas do Alecrim e da Escola Politécnica, Largo do Rato, Amoreiras e Campolide. A forma como essa procura deverá ser aferida esteve, porém, longe de ser clarificada pelo dirigente da empresa pública.

 

Pressionado pela comunicação social, o administrador da transportadora admitiu que “há uma tendência, que não é de agora, de passar os eléctricos todos para o serviço turístico”. “O turismo baseado nos eléctricos é algo que veio para ficar”, sustentou, antes de relevar a necessidade de fazer com que a exploração comercial da empresa seja rentável. “Não é mais possível criar mais carreiras que não tenham viabilidade económica”, disse, sublinhando o facto de a taxa de ocupação média da frota ser de apenas 28%.

 

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As palavras do presidente da Carris surgiram após António Proença, presidente da Carristur, ter assumido que a empresa “gostaria muito” de estender este género de ligações a locais como o Largo do Rato, Campolide e Amoreiras. Ou seja, existe a ambição de ali levar os turistas. O que deverá acontecer, dentro de algum tempo, no Largo do Carmo, assumiu o administrador – “lá iremos” -, sem precisar quando.

 

A pensar nisso, as recentes obras de reabilitação do espaço público no Largo da Trindade realizadas pela Câmara Municpal de Lisboa tiveram o cuidado de manter as linhas do eléctrico. No caso do novo Chiado Tram Tour, a Carris teve de proceder a trabalhos de reabilitação de alguns troços e de correcção da catenária, adiantou o presidente da companhia.

 

O Chiado Tram Tour funciona todos os dias, entre as 11h e as 16h, com saídas a cada vinte minutos, precisamente o tempo que dura cada viagem. É possível apanhá-lo ou dele sair em qualquer uma das suas cinco paragens: Largo Camões, Rua da Misericórdia, Largo de São Roque, São Pedro de Alcântara e Príncipe Real. Na ligação entre estes pontos, foi possível observar na viagem inaugural, os automóveis mal estacionados continuam a revelar-se importantes obstáculos à livre circulação dos eléctricos, tal como sucede noutras linhas.

 

Na quarta-feira, e depois de se saber do início da operação do Chiado Tram Tour, foi lançado um comunicado pela Plataforma Eléctrico 24 – de que fazem parte mais de uma dezena de entidades, entre as quais a Quercus, o Fórum Cidadania LX ou a Liga dos Amigos do Jardim Botânico – intitulado “E o resto do E-24?”. Nele se desejava que o início da carreira turística “seja o primeiro passo para a reactivação da Linha 24 em toda sua extensão (Cais do Sodré-Carmo-Campolide)”.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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