Pátios & Vilas-01

Muitas já desapareceram e outras estão em vias de ser demolidas, mas Lisboa chegou a ter 350 pátios e vilas, habitações que salvo raras excepções foram construídas em finais do século XIX, inícios de XX, para as classes mais pobres. O Corvo propõe uma visita pelas vilas que ainda existem, como é o caso da Villa Luz Pereira, na Mouraria.

 

Texto: Fernanda Ribeiro   Fotografias: Carla Rosado

 

 

É o desenho cuidado das suas fachadas e a elegância das varandas de ferro que a distinguem de muitas outras vilas alfacinhas. Fica na Mouraria, no 18 da Travessa do Jordão, e quem passe pelo portão pode até pensar que ali existe um condomínio. Mas não. São casas alugadas, de uma vila do início do século XX que se manteve de pé e começa agora a renovar-se, quer nas pessoas que a habitam, quer no interior de algumas casas.
Há oito carros estacionados no pátio da Villa Luz Pereira, o que dá logo a ideia de ser uma vila onde mora gente menos desfavorecida do que a que se encontra noutras vilas de Lisboa. O seu nome escreve-se com duplo L, villa, à italiana, o que lhe dá também alguma pompa, embora nos 34 apartamentos em que se desdobra morem pessoas de diversas classes sociais e faixas etárias. Do dono da mercearia ao designer, do estudante-trabalhador, à reformada.
Nela se cruzam jovens casais que recentemente se instalaram na Mouraria e velhos moradores.  Cruzam-se, mas pouco convivem, ao que contaram vários. A vila pertence, por herança, a dois irmãos, Armando Miranda e Rui Miranda, os senhorios, que dividem a propriedade em duas. Cada um ocupa-se de metade.

 

Catarina Chemetova, uma portuguesa nascida em Kiev, na Ucrânia, é uma das mais recentes moradoras da vila. Com 23 anos, Catarina está a acabar a dissertação de mestrado em Engenharia do Ambiente, curso que frequentou na Universidade Nova de Lisboa, no Monte da Caparica, onde trabalha como nadadora-salvadora, nas piscinas. O namorado tem 22 anos e está agora a fazer um estágio profissional num hostel de Lisboa.

 

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Foi através da Internet que encontraram a casa onde vivem há apenas dois meses, um primeiro andar da Villa Luz Pereira. Recém-remodelado, o apartamento, um T1+1, com um grande pé direito, tem ainda as paredes alvas. “Ainda não pusemos quadros, nem fotografias”, o que virá com o tempo, diz Catarina.
A decoração é moderna e aproveita recantos e detalhes da construção antiga. Na cozinha, a chaminé tem lajes e colunas em pedra, algo que Catarina aprecia. Tal como as vistas que tem das janelas da casa: a da cozinha, sobre a Mouraria, e a do quarto, virada ao Castelo de São Jorge.
Na sala, há uma bicicleta desdobrável, a recente conquista de Catarina, que fez um Erasmus em Leiden, no sul da Holanda, onde ficou adepta deste meio de transporte. “Desde que vim da Holanda, não consigo largá-la. É a minha bebé”, diz, ternurenta.
Vê-se que tem amor à casa, pela qual paga 400 euros de renda a meias com o namorado. É uma verba elevada para quem está em início de vida, por isso candidataram-se agora ao Porta 65, um programa de incentivo ao arrendamento jovem.
Irene Sá, designer, 39 anos, é outra moradora recente da Villa Luz Pereira, onde se instalou com o companheiro há um ano – tempo suficiente para rechear de objectos  o T1+1 que habita. Da varanda de casa, no segundo andar, tem uma vista magnífica para o Castelo de São Jorge e essa é uma das mais-valias do apartamento, pelo qual também paga 400 euros de renda. Mas o espaço interior torna-se já diminuto, tendo em conta que Irene trabalha como free-lancer, grande parte do tempo em casa.
“O quarto é bom, amplo e com vista directa para o Castelo, mas precisava de ter um escritório maior”, diz.  O seu local de trabalho é a sala, onde já não lhe cabe quase mais nada, além da mesa e das cadeiras, do sofá e das estantes onde tem os livros. Só a falta de espaço a fez já pensar em procurar outra casa.

 

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E também alguma desilusão relativamente ao que imaginava que poderia ser a vida na vila. “Quando eu e o meu companheiro viemos para cá morar, era com vontade de nos integrarmos. Porque ninguém escolhe viver numa vila se não deseja uma vida comunitária”, diz. Mas isso é coisa que já não existe ali. Porquê? Além de existir alguma desconfiança dos mais velhos relativamente aos novos moradores, olhados como corpos estranhos, há também os usos que actualmente se fazem do espaço comum.
“Isto podia ser melhor, se o pátio não fosse ocupado pelo estacionamento, que gera conflitos, quando alguém deixa o carro a tapar o de outro. Se não estivessem ali os carros, haveria mais espaço livre para o convívio e para as crianças brincarem…No Beco do Alegrete, aqui perto, vê-se que há mais convívio”, sublinha Irene.  “Nós temos ambos carro, mas já não estacionamos cá dentro da vila”, salienta a designer.
Não se queixa da vizinhança, mas são poucos os vizinhos com quem convive. “Dou-me lindamente com os vizinhos de baixo, que penso que são muçulmanos chineses. Ela e o marido são muito simpáticos. De vez em quando, ela traz-me coisas que cozinha, outro dia eram aqueles raviólis chineses… E ainda dizem que os chineses não têm vontade de se integrar”, comenta Irene.
Outra moradora recente da vila é Maria Aparecida, uma brasileira de 49 anos, que vive em Portugal há 22, o que já lhe permitiu obter nacionalidade portuguesa. “Isto aqui é muito sossegado, até demais para o meu gosto”, diz, sorrindo.
Está na Villa Luz Pereira há um ano, mas já antes vivia por perto, na Rua Marquês Ponte de Lima. Trabalha na Rua da Vitória, numa clínica dentária, mas, para morar, gosta é do bairro. “Eu não quero sair da Mouraria”, salienta.
Aparecida tem dois filhos, um com 27 anos e outro já nascido em Portugal, com 18, mas nenhum vive com ela. “Só vêm aqui quando precisam da mãe”, explica. Ainda tem família no Brasil e foi lá em visita há quatro anos. “Mas fica estranho, porque quando estou lá já não me sinto em casa, já não me sinto brasileira”.

 

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Na vila, Aparecida parece dar-se bem com a vizinha do rés-do-chão, Maria Júlia Martins, com quem trava conversa, à chegada do trabalho. Júlia, com 74 anos, é das mais antigas moradoras da Villa Luz Pereira, onde está há 43 anos. Vive no rés-do-chão, numa casa com quarto, sala, cozinha e casa de banho. Tendo em conta a sua idade e o facto de morar na vila há muito tempo, paga 82 euros por mês, mas teme que lhe aumentem a renda. Na sala, vêem-se rachas nas paredes e Júlia diz que lhe entra água em casa, quando chove. Queixa-se do senhorio, que “não manda arranjar, nem manda limpar nada”.
Queixosa, mas pelo motivo inverso, mostra-se Adelaide Amaral, outra moradora. Ao longo do tempo, contou ao Corvo, ela e o marido, que já tem 60 anos e sempre lá viveu, fizeram várias obras em casa, um rés-do-chão. ”Fizemos casa-de-banho, que não havia, fizemos uma marquise, arranjamos a casa toda. Gastámos aqui dois mil contos. Mais tarde, o senhorio resolveu fazer obras, com um projecto do  Recria, que foi só uma lavagem de cara aos prédios e, por dentro, obrigaram-nos a deitar abaixo o que fizemos. Estragaram-me a casa toda”, queixou-se Adelaide.
Mas, quer ela, quer Júlia Martins – que nasceu em Oliveira de Frades e veio para Lisboa trabalhar aos 12 anos, como empregada de servir – recordam tempos mais felizes na Villa Luz Pereira. “Quando vim para cá, a vida era diferente na vila, morava cá muita gente antiga. Havia mais convívio”, recorda Júlia Martins. “Agora é tudo gente nova, muitos estrangeiros, mas não têm dado problema”, refere.

 

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Acácio Pedro, dono de uma mercearia situada na esquina da Travessa do Jordão, é também dos mais antigos. Mora na vila há 50 anos e lembra-se de quando aquilo “era tudo uma família. Fazíamos aqui os nossos arraiais e os nossos bailes. Era tudo comum. Agora é só malta nova, há indianos, chineses e já só cá vivem três ou quatro pessoas dos tempos antigos”.
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