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Quando se entra na Vila Marques de Baixo, um conjunto habitacional envelhecido que se abre a partir da Rua Barão de Sabrosa, parece haver ali dois mundos distintos. De um lado, alegre, com plantas e cores  vivas, do outro lado triste, num vazio de decoração em que apenas se destaca a estrutura das paredes, de uma cor já desbotada.

 

Maria Alice Faria, 90 anos, vive no lado mais colorido da Vila Marques. Há 50 anos. Está sentada à porta de casa, a descansar, depois do almoço. De lá de dentro vem o som da televisão, que é a sua grande companheira desde que enviuvou. “Tenho-a sempre ligada. É a minha companhia”, sublinha.

 

Está reformada e a casa onde habita pertence-lhe. “Comprei-a ao senhorio”, diz com satisfação, até porque suou as estopinhas até poder finalmente estar tranquila. Trabalhou até aos 80 anos como mulher-a-dias e só com essa idade se reformou.

 

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Tem uma filha e netos, que vivem no Porto, mas pouco vai vê-los. “É muito longe”, afirma. Desde que há oito anos partiu um pé, anda menos. “Mas saio. Gosto de andar na rua”, diz sorrindo. Agora as saídas são por perto, até porque tem de andar de canadianas. Mesmo assim, todos os dias vai ao centro paroquial de S. João Evangelista, que fica umas centenas de metros mais abaixo, na Rua Barão de Sabrosa, 21. “Vou lá almoçar. Mas pago, 50 euros por mês”, diz.

 

O convívio com a vizinhança já foi maior. As pessoas agora dão-se “mais ou menos”, diz. “Isto é tudo velho e cada um faz a sua vida”. Muitos “partiram”. Uns foram morar para outras bandas, outros morreram, como se vê aliás pelo número de casas fechadas.

 

Mário é um dos moradores do lado mais triste da vila, onde a maioria das casas está desabitada, mas já morou também do outro lado. Nasceu no número 17 onde a mãe era hóspede, depois mudou para o 15, em frente e regressou ao 17 como inquilino, quando casou.

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Antigo torneiro mecânico na Lisgráfica e depois nas Páginas Amarelas, de onde se reformou, Mário, que faz 80 anos no dia 16 de Agosto, é nascido e criado na Vila Marques.

 

“Quem viu isto e quem vê agora. Andávamos sempre em casa uns dos outros. Agora está tudo velho, tudo a cair e tudo vazio. As casas estão todas a abater e ninguém faz obras”, diz com tristeza. Na vila, há casas que foram vendidas e é aos novos proprietários que compete fazer as obras. Do outro lado, as pessoas que ali habitam não têm meios para as fazer.

 

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“Isto está entregue à Associação Lisbonense de Proprietários, porque o senhorio morreu e os herdeiros não estão cá”, explica. E nesta circunstância, ninguém mete mãos à obra.

 

Subitamente, pelo pátio irrompe um grupo de jovens que o cumprimentam num rápido “bom dia Sr. Mário” e a passo lesto seguem viagem até ao andar de cima. “Moram no número 9. Isto é aqui um corrupio…”, confidencia a mulher de Mário, aparentando desagrado.

 

“Isto já foi bom, mas agora nem sequer é seguro. Até o fecho da porta me arrancaram”, acrescenta a mulher. Com mais agrado encara uma outra moradora da nova geração. “Quem comprou aqui uma casa foi a Marta Cardoso, do Big Brother e que é agora apresentadora de um programa na televisão. Ela antes vinha cá, mas agora não tem aparecido. Isto já foi bom, mas agora…”.

 

Texto: Fernanda Ribeiro * Fotografias: Carla Rosado

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