Pátios & Vilas-01

Situada nas traseiras da Igreja da Penha de França, está há muito numa situação de “insalubridade inaceitável”. Mas poucos parecem dar atenção ao que ali se passa. Em autogestão, é habitada por mais de 20 pessoas, que há décadas não pagam renda, pois nem sabem quem é o proprietário. A 5ª esquadra da PSP fica mesmo por trás das suas precárias habitações.

 

Texto: Fernanda Ribeiro                 Fotografias: Carla Rosado

 

Parece uma ilha a pairar, perdida no tempo e no espaço, embora se situe nas traseiras da Igreja de Nossa Senhora da Penha de França e das instalações da 5ª esquadra da PSP. Cravada na encosta, dela se vê o Tejo e, consoante o ângulo, a ponte Vasco da Gama ou a ponte 25 de Abril.

É a Vila Janira, ou Jandira, como alguns preferem chamar-lhe, e terá sido construída para servir de alojamento temporário dos feirantes que, noutros tempos, vinham a Lisboa vender gado. Era ali que ficavam e guardavam os animais.

As suas construções são precárias e já estiveram à beira de ruir. Para evitar a derrocada, a câmara mandou colocar umas barras de aço, sustentando as paredes de uma série de habitações. Mas por resolver está ainda a própria existência da vila. E, por arrasto, a dos seus moradores, pessoas sem meios ou a quem a vida “descambou”, que a foram sucessivamente ocupando, desde que morreu a antiga senhoria, há mais de 20 anos.

É hora de almoço e no pátio há vida. Um morador estende roupa cá fora, ao sol do meio-dia, enquanto outro lixa com tenacidade o tampo de uma mesa de madeira, que está a recuperar. Outro ainda vem espreitar cá fora, numa pausa, enquanto pinta o interior da casa, na tentativa de “lhe dar um ar um pouco melhor”. Ouve-se o arrulhar das rolas, fechadas em gaiolas nas paredes do pátio e há cães presos que ladram, por detrás de uma porta onde se avisa o inevitável: “Cuidado com o Cão”.

“Sou um estável-instável”, assim se apresenta, desde logo, Fernando Monteiro, um homem de 68 anos, nascido em Luanda, que vive na vila desde que deixou de trabalhar, há seis anos. “Estável-instável porque nunca caí na rua, mas isto é mais ou menos igual”, explica, algo envergonhado ao revelar o cubículo onde habita: uma pequena e escura divisão, onde só cabe a cama e onde improvisou uma espécie de casa de banho.

 

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A situação de falta de salubridade naquela vila já foi colocada à autarquia por diversas forças políticas, e voltou a ser levantada no início de Maio, na Assembleia Municipal de Lisboa, pela deputada Deolinda Machado, do PCP, para quem a forma como se vive na vila “é um perigo para a saúde pública”. Mas a resposta da câmara tarda.

Fernando Monteiro acha que a autarquia poderia fazer mais pelos moradores da Vila Janira. “Com tanta casa vazia que aí há, é uma vergonha. Não nos resolvem o problema”.

Está reformado há um ano e recebe uma pensão de 300 euros. Já teve uma vida melhor, mas a coisa deu para o torto. “Vim de Angola e organizei a minha vida toda cá em Lisboa. Trabalhava na área comercial. Estava bem. Mas depois tive uns contratempos e a coisa descambou .Vim parar aqui”, conta.

É hora de almoço e Fernando tem de seguir caminho. “Tenho de ir. Vou almoçar à cantina (social) e aquilo tem horas certas”, explica.

Entretanto, chega Arnaldo Teixeira, 86 anos, que volta a casa depois de mais uma consulta no médico. Está doente e caminha com alguma dificuldade, apoiado no braço jovem de Maria, 21 anos, “a filha adoptiva”, como ela própria se intitula, que mora na casa ao lado e que o acompanhou ao hospital.

Há já 52 anos que Arnaldo ali vive. É o mais antigo morador desta vila “sui generis”, abandonada pelos proprietários, desde que há cerca de 20 anos morreu a senhoria, a quem este antigo trabalhador da construção civil ainda se recorda de pagar renda.

A sua casa, onde vive com um cão e um gato, é pequena, embora na vila haja cochichos bem mais reduzidos. Tem apenas duas divisões e não dispõe de casa de banho. “Isso é que me faz falta”, diz. Quando precisa, tem de ir bater à porta da casa de Maria, um pouco mais abaixo na vila.

 

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“Vim para cá em 1962 e pagava 300 escudos”, afirma Arnaldo, que se recorda de dias mais felizes na Vila Janira. Sempre ali viveu com a mulher, mas ela morreu há cinco anos e agora ele é o único morador de antigamente.

“Isto agora é uma complicação. Já cá andou um advogado, mas ninguém sabe quem é o dono da vila. Quando a senhoria morreu, há coisa de 20 anos, isto ficou para um filho, mas ele fez uma hipoteca e a vila ficou nas mãos de um banco. Mas depois parece que foi trocada por uns prédios e agora é uma confusão, não se entende nada. Isto há-de ter donos, sim, só que não aparecem”, conta Arnaldo.

O Inverno foi duro para a generalidade dos moradores. “Este Inverno voou-me o telhado e caiu-me o tecto”, conta Álvaro Gomes, mostrando os estragos da invernia, que lhe deixaram quase em esqueleto a casa que ocupou há dois anos. Operário da construção civil desempregado, Álvaro, 38 anos, tenta agora remediar os danos causados pelos temporais.

“Improvisei com as telhas velhas e consegui refazer o telhado. Mas agora já arranjei umas telhas novas para lá meter e, só depois, refaço o tecto. Entretanto, como ainda tinha uns restos de tinta, estou a pintar a casa, para lhe dar um ar melhor”.

Nem todos ali estão desempregados, como Álvaro, embora a maioria dos moradores da vila viva de biscates. É o que sucede com Janilson, de 29 anos, natural da ilha de Santiago, em Cabo Verde, a viver em Portugal já há 16. “Tinha 13 anos quando vim de Cabo Verde. Foi cá que estudei, até ao nono ano. Parei aí, porque tive de começar a trabalhar”, explica Janilson, enquanto vai estendendo a roupa na corda, à janela.

 

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Actualmente tem um emprego. “Sou motorista particular de um senhor de idade, a quem também faço companhia”. O dinheiro que recebe, diz, “dá para viver”.

Quando há cinco anos foi morar para a Vila Janira, a casa que ocupou “não tinha condições nenhumas”, mas agora é das mais apresentáveis da vila. “Eu é que coloquei o tecto e o chão e arranjei a casa de banho”, explica.

Do ambiente que ali se vive, Janilson acha que podia ser melhor. “As pessoas aqui não se dão muito. Mas também ninguém se pega. Quando há brigas, é só troca de palavras”, conta.

Sobre a necessidade de obras e de uma intervenção na vila, Janilson diz que a Junta de Freguesia da Penha de França vai ajudando nalgumas coisas. “Mandou colocar uma esponja nos telhados de algumas casas, para as tornar menos frias”, conta.

 

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No topo da vila, numa casa virada para a encosta – onde se depreende de imediato haver mãos de mulher, pela forma como estão arranjados os vasos com flores e diversas outras plantas que se vêem à entrada – mora Anabela Oliveira, 55 anos, empregada de limpeza na escola Gil Vicente.

Este Inverno arrasou-lhe parte da habitação. Ficou com a casa aberta às tempestades, na sequência da queda de uma árvore, que abateu sobre o telhado. Ficou sem a casa de banho. “Agora, nem sequer posso tomar banho. Lavo-me à pato. Porque a fachada das traseiras também ficou afectada e está toda a cair”.

Na aflição, a Junta de Freguesia da Penha de França ajudou, em parte. “Pelo menos, vieram-me arranjar o telhado. Não tenho razão de queixa”, afirma. O resto das obras terá de ser ela a fazer, tal como fez antes, quando há perto de duas décadas foi para lá morar. “A casa não tinha condições nenhumas. Nem cozinha tinha. Fui eu que a arranjei”, sublinha.

 

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Perto vive Susana Oliveira, de 28 anos, 20 dos quais passados na Vila Janira, o que é tempo de mais. “Vivo na vila há anos suficientes para só querer sair daqui”, diz de imediato.

Começou por morar com o pai, que foi para lá viver quando ela tinha oito anos. Mas ele foi-se embora e, aos 16 anos, Susana passou a viver por sua conta. “Quando eu tinha 16 anos, o meu pai fez a vida dele e deixou-me cá ficar”, conta.

A casa onde está, que agora partilha com outra pessoa,“até é grande”. “Tem dois quartos fechados e um aberto (sem telhado). E tem casa de banho”, sublinha. Mas, mesmo assim, insiste: “Sair daqui era o melhor”.

Susana não trabalha, está a estudar. “Estou a fazer um curso de costura. E, quando terminar, em Novembro, quero continuar a estudar. Para já, fico com o sexto ano, mas quero fazer até ao nono ano”, salienta.

 

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Também desempregada, e a receber o rendimento mínimo, está Eliotéria Oliveira, de 44 anos, uma mulher de olho vivo, já avó de cinco netos. Vive na vila desde que a filha mais velha nasceu, há 23. Tem um filho de 21 a morar com ela. A sua casa, com duas divisões e um quintal, situada logo à entrada da vila, está minimamente composta. “Está arranjadinha, porque eu a vou arranjando. Mas como nunca sabemos o que a câmara quer fazer com isto, também não podemos fazer muito mais”, diz.

Em frente, mora Joaquim Mestre, 59 anos, igualmente desempregado. Vive na Vila Janira há 14 anos, com uma filha e uma neta de 20 meses, que adora. “Há duas coisas na vida a que sempre tive horror, porque me parecem uma aberração: a velhice e a pobreza”, diz, com alguma ironia este antigo desportista, sabendo que ambas lhe bateram à porta.

“O desporto era a minha vida”, conta. “Fazia paralelas, participei em provas de triatlo durante seis anos e cheguei a dar aulas de defesa pessoal. Até aqui na esquadra da PSP dei um curso”. Mas duas operações sucessivas à coluna deixaram-no incapacitado. E com saudades dos tempos em que fazia o que gostava.

“Mas, mal por mal, já me habituei a viver aqui. Só gostava era de ainda poder ensinar o que aprendi”. Esperanças, porém, não tem muitas. O que é comum a quase todos os que moram na Vila Janira.

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