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A sua homónima, que existia junto à Praça José Fontana, foi um caso de estudo mas já desapareceu da paisagem lisboeta e deu lugar a um prédio de habitação, onde funciona um hotel. A Vila Almeida que resiste fica na Mouraria e é a versão pobre, mas também acolhe estrangeiros: emigrantes indianos e romenos que dela fazem habitação temporária.

 

Texto: Fernanda Ribeiro    Fotografias: Carla Rosado

 

Para lá do grande portão de ferro, a Vila Almeida, que surge a partir do número 13 na Rua Marquês de Ponte de Lima, respira a Índia pelos poros, logo pela manhã. São as cores, as roupas, os cheiros e os sons da música indiana a invadir o pátio. É para ele que dão mais de dezena e meia de habitações, ou melhor, de pequenas fracções de antigas habitações que ao longo do tempo foram divididas em cubículos.
Vishivjit Singh, um rapaz de 13 anos, filho de uma família oriunda do Punjab, está de saída com a mãe, Balvir Kaur, mas volta atrás por momentos para mostrar o local onde vive. É ele que se dispõe a servir de cicerone e tradutor do Corvo, nesta primeira visita à Vila Almeida. “Moramos aqui há 3 anos. É muito bom”, diz Vishivjit, apesar de também ser mínima a casa onde mora com os pais, com pouco mais que uma divisão, além da cozinha e casa de banho.

 

A família já está legalizada em Portugal, diz contente o miúdo. “Já tenho nacionalidade e passaporte”, salienta Vishivjit, actualmente em férias. É estudante, diz, e frequenta o 8º ano na Josefa de Óbidos, em Campo de Ourique, uma escola que adora, apesar de ser longe de casa No pátio estão também, nessa manhã, o tio de Vishivjit e um primo, de 19 meses, mas estão ali de visita. “O meu tio e o meu primo não vivem aqui”, esclarece.

 

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A preparar o almoço está uma outra moradora, Yasmin Kaur, de 25 anos, que há um ano veio ter com o marido a Lisboa. Ele trabalha num Doner Kebab no Chiado e está em Portugal há 5 anos. O filho de ambos, com oito meses, já nasceu em Portugal, um país de que Yasmin diz gostar. Tanto, que mandou vir o irmão, de 27 anos, chegado à Mouraria há seis meses. É ele que brinca com o bebé no pátio, enquanto Yasmin cozinha. Nenhum deles fala bem português. Yasmin diz que vai começar a aprender português em Setembro e é em inglês que se expressa. “Very good, all is good” em Portugal, dizem Yasmin e o irmão, que transmitem uma harmonia que se diria inexistente na Vila Almeida.
Mas este cenário de calma é imediatamente contrariado mal se sobem as escadinhas que dão para outro pequeno pátio superior. Uma mulher de rosto fechado estende roupa. É romena e está em Lisboa há um ano. Este pouco foi tudo o que disse: “Não posso falar”, acrescentou apenas.

 

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Em poucos segundos aparecia no pátio um homem, aparentemente de origem romena, que não deu tempo para apresentações, pois logo começou a vociferar e a mandar embora os repórteres do Corvo. “Vocês não podem andar aqui a filmar”, dizia com ar ameaçador. Uma segunda visita à Vila Almeida fez sobressair o lado menos pacífico da sua população, que parece mudar completamente do dia para a noite e onde há apenas uma portuguesa que ali vive em permanência: a D. Rosinha, como é tratada por muitos na Mouraria.

Rosa dos Anjos Pereira do Carmo, de seu nome, tem 67 anos e vive há 30 na Vila Almeida. Canta fado e já se pode ouvi-la até nas redes sociais. É a estrela do bairro, onde é conhecida como a Rosinha de Braga, diz, acentuando o sotaque. “Olhe que já tenho mais de 6 mil aprovações no facibook. Estou lá, a cantar o Fadinho Serrano na Tasquinha do Jaime”, conta, satisfeita consigo própria.

 

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A sua casa é muito pequena e está cheia de móveis e louças que impedem a passagem de duas pessoas em simultâneo. “Eu não gosto de viver aqui e qualquer dia vou-me embora”, afirma. Também ela desmente a ideia romântica de que, pela sua construção, com as casas em torno de um pátio, a vila poderia proporcionar um espírito de maior entreajuda entre os moradores. “Isso aqui não existe, é cada um por si. Eu por mim falo, que nem me dou com esta gente que aqui vive agora”, diz Rosinha.
Mas tal não sucede apenas desde que há emigrantes a morar ali. Aparentemente, já desde as origens assim era também. “O ambiente na Vila Almeida era pobríssimo. Lembro-me de num quarto viverem pai, mãe e cinco filhos. Os miúdos mais velhos dormiam no chão e os pais na cama com os mais pequeninos”, conta Maria Otília Godinho, que ali viveu em criança, entre 1940 e 1955. Espírito de entreajuda, ali? “Não, não havia. As pessoas davam-se mal. Às vezes até se batiam”.

 

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Na altura, recorda, “já havia quem ali ganhasse dinheiro com hóspedes. Inicialmente, a vila pertencia a um homem, o senhor Almeida, que morava na Rua da Amendoeira. Quando ele morreu, a família vendeu a vila a um usurário, que subdividiu as casas e as alugava aos que vinham da província para trabalhar em Lisboa”.
“Era uma época de muita pobreza. Havia muita tuberculose, muita exploração e na Vila Almeida não havia harmonia”, sublinha Maria Otília, que com 78 anos tem uma memória apuradíssima do ambiente de então. “Logo ali ao lado, na Rua da Guia, vivia a tia Maria Carteirista, que tinha este nome porque era mãe de dois carteiristas que andavam a roubar nos eléctricos”, lembra.

 

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