Vila Alegre em vias de demolição

por • 19 Agosto, 2013 • Reportagem, SlideshowComentários (1)774

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Faz parte do conjunto de vilas que existem na freguesia de São João e chama-se Vila Alegre. Ou antes, assim se chama o que dela resta depois das demolições. Quem lá vive acha que de alegre pouco tem. Mas ainda assim surpreende, pelas pessoas que temporariamente lá vivem.

 

Texto: Fernanda Ribeiro    Fotografias: Carla Rosado

 

Parecem vir de uma cultura que nada tem a ver com a pobreza do local. Irina Vakarckuck tem uns olhos lindos, um sorriso doce e tranquilo e expressa-se perfeitamente em português, a língua que aprendeu há 12 anos, quando chegou a Portugal, vinda da Ucrânia. Mas estes dotes não a impedem de estar a viver um momento periclitante na sua vida. Aos 32 anos, está em vias de ficar sem casa. Aquela onde presentemente habita, que fica no fundo da Vila Alegre, junto à Alameda Dom Afonso Henriques, é uma das poucas que permanecem de pé, mas já começou a ceder, desde que deitaram abaixo habitações ao lado.
“Os bombeiros já cá vieram duas vezes e puseram testemunhos nas paredes”, conta esta residente temporária da Vila Alegre. Já lá mora há três anos com as duas filhas, Angelica de nove anos e Tânia, de quatro, ambas já nascidas em Portugal. Irina aguardava até há bem pouco ser realojada, uma vez que a Câmara Municipal de Lisboa, proprietária da vila, planeia demoli-la e deitou já abaixo algumas casas.
No dia em que O Corvo a visitou pela primeira vez, no início de Agosto, era essa a sua expectativa. Irina estava contente, no seu primeiro dia de férias. “Agora que tenho trabalho, não ganho muito, mas é melhor do que estar desempregada. Só que com 600 euros não consigo pagar uma renda e ter dinheiro para eu e as minhas filhas vivermos ”, dizia.

Alheadas a tamanhas preocupações estavam as crianças, Angelica e Tânia, que alegremente saltavam e pulavam lá fora, no que outrora foi um pátio. “Isto é um belo sítio para brincar”, garantia Angelica, satisfeita.

 

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Esta não é a primeira casa de Irina e das filhas. Já viveram noutra casa, alugada, numa rua próxima. Mas quando ficou desempregada deixou de conseguir pagar a renda. Mãe solteira, é ela que tem as crianças a cargo. Daí a sua satisfação quando conseguiu arranjar trabalho.
Mas o facto de estar agora empregada é um pau de dois bicos e pode custar-lhe o direito a um tecto. “Fui informar-me e dizem-me que estando eu a trabalhar já não tenho direito a ser realojada. Perco essa hipótese. Entretanto já recebi uma carta da Câmara a dizer que teria de sair desta casa”.
Preso por ter cão e preso por não ter? Assim parece a situação que Irina enfrenta. “Não sei como fazer, porque não há rendas por menos de 300 euros e eu nem isso posso pagar, porque não dá. Com o que é que vamos viver, eu e as crianças?”, questiona-se.

 

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O seu único vizinho é um homem que diz ter sido obrigado a instalar-se na Vila Alegre, onde tinha aquilo a que chama uma oficina de automóveis, uma divisão coberta por um telhado de zinco, a que acrescentou mais outras, em pedra e cal. “Isto não era a minha casa, mas as coisas começaram a complicar-se financeiramente e tive de vir para cá, fui obrigado a vir para aqui”, contou ao Corvo. Preferiu o anonimato, alegando não querer manchar o nome dos filhos, cuja imagem entende que poderia ser atingida se se soubesse que o pai vive na Vila Alegre. “Os meus filhos são estudantes universitários, tenho uma filha doutorada e não quero que tenham problemas”, afirmou.
Quando O Corvo o visitou, no local onde terá funcionado a oficina, andava atarefado, aparentemente a tentar por ordem na barafunda de objectos que se encontravam no interior da divisão. Mau grado a ameaça de demolição que paira sobre a vila, dizia que desde que ali se instalou, há três anos, tem feito obras para melhorar a habitação.

 

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Ainda que pense abandonar o país e ir viver de novo para o estrangeiro. Porque “Portugal agora dá pena e vergonha. Eu já vivi em Nova Iorque, já vivi no Brasil e vivi na Suíça, onde cheguei a ganhar dois mil contos por mês. Infeliz dia em que decidi voltar a Portugal. Foi há 15 anos. Dei cabo da minha vida toda”.

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