Vila Alegre em vias de demolição

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto

Carla Rosado

Fotografia

URBANISMO

VIDA NA CIDADE

Areeiro

19 Agosto, 2013

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Faz parte do conjunto de vilas que existem na freguesia de São João e chama-se Vila Alegre. Ou antes, assim se chama o que dela resta depois das demolições. Quem lá vive acha que de alegre pouco tem. Mas ainda assim surpreende, pelas pessoas que temporariamente lá vivem.

 

Parecem vir de uma cultura que nada tem a ver com a pobreza do local. Irina Vakarckuck tem uns olhos lindos, um sorriso doce e tranquilo e expressa-se perfeitamente em português, a língua que aprendeu há 12 anos, quando chegou a Portugal, vinda da Ucrânia. Mas estes dotes não a impedem de estar a viver um momento periclitante na sua vida. Aos 32 anos, está em vias de ficar sem casa. Aquela onde presentemente habita, que fica no fundo da Vila Alegre, junto à Alameda Dom Afonso Henriques, é uma das poucas que permanecem de pé, mas já começou a ceder, desde que deitaram abaixo habitações ao lado.

 

“Os bombeiros já cá vieram duas vezes e puseram testemunhos nas paredes”, conta esta residente temporária da Vila Alegre. Já lá mora há três anos com as duas filhas, Angelica de nove anos e Tânia, de quatro, ambas já nascidas em Portugal. Irina aguardava até há bem pouco ser realojada, uma vez que a Câmara Municipal de Lisboa, proprietária da vila, planeia demoli-la e deitou já abaixo algumas casas.

 

No dia em que O Corvo a visitou pela primeira vez, no início de Agosto, era essa a sua expectativa. Irina estava contente, no seu primeiro dia de férias. “Agora que tenho trabalho, não ganho muito, mas é melhor do que estar desempregada. Só que com 600 euros não consigo pagar uma renda e ter dinheiro para eu e as minhas filhas vivermos ”, dizia.

 

Alheadas a tamanhas preocupações estavam as crianças, Angelica e Tânia, que alegremente saltavam e pulavam lá fora, no que outrora foi um pátio. “Isto é um belo sítio para brincar”, garantia Angelica, satisfeita.


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Esta não é a primeira casa de Irina e das filhas. Já viveram noutra casa, alugada, numa rua próxima. Mas quando ficou desempregada deixou de conseguir pagar a renda. Mãe solteira, é ela que tem as crianças a cargo. Daí a sua satisfação quando conseguiu arranjar trabalho.

 

Mas o facto de estar agora empregada é um pau de dois bicos e pode custar-lhe o direito a um tecto. “Fui informar-me e dizem-me que estando eu a trabalhar já não tenho direito a ser realojada. Perco essa hipótese. Entretanto já recebi uma carta da Câmara a dizer que teria de sair desta casa”.

 

Preso por ter cão e preso por não ter? Assim parece a situação que Irina enfrenta. “Não sei como fazer, porque não há rendas por menos de 300 euros e eu nem isso posso pagar, porque não dá. Com o que é que vamos viver, eu e as crianças?”, questiona-se.

 

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O seu único vizinho é um homem que diz ter sido obrigado a instalar-se na Vila Alegre, onde tinha aquilo a que chama uma oficina de automóveis, uma divisão coberta por um telhado de zinco, a que acrescentou mais outras, em pedra e cal. “Isto não era a minha casa, mas as coisas começaram a complicar-se financeiramente e tive de vir para cá, fui obrigado a vir para aqui”, contou ao Corvo. Preferiu o anonimato, alegando não querer manchar o nome dos filhos, cuja imagem entende que poderia ser atingida se se soubesse que o pai vive na Vila Alegre. “Os meus filhos são estudantes universitários, tenho uma filha doutorada e não quero que tenham problemas”, afirmou.

 

Quando O Corvo o visitou, no local onde terá funcionado a oficina, andava atarefado, aparentemente a tentar por ordem na barafunda de objectos que se encontravam no interior da divisão. Mau grado a ameaça de demolição que paira sobre a vila, dizia que desde que ali se instalou, há três anos, tem feito obras para melhorar a habitação.

 

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Ainda que pense abandonar o país e ir viver de novo para o estrangeiro. Porque “Portugal agora dá pena e vergonha. Eu já vivi em Nova Iorque, já vivi no Brasil e vivi na Suíça, onde cheguei a ganhar dois mil contos por mês. Infeliz dia em que decidi voltar a Portugal. Foi há 15 anos. Dei cabo da minha vida toda”.

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