Vestígios da Lisboa romana encontrados entre a Rua dos Douradores e a Rua dos Fanqueiros

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto

Luísa Ferreira

Fotografia

URBANISMO

Santa Maria Maior

17 Junho, 2013


A prevista transformação num hotel do edifício onde outrora funcionou o Convento Corpus Christi, entre a Rua dos Fanqueiros e a Rua dos Douradores, determinou a realização de uma campanha arqueológica que permitiu encontrar vestígios do período romano. Cinco tanques de salga foram até agora o achado mais surpreendente.

Uma malograda tentativa de assassinato de João IV, ocorrida em 1647 durante a procissão do Corpo de Deus, levou a rainha D. Luísa de Gusmão a mandar erguer na actual Rua dos Fanqueiros o Convento do Corpus Christi,  para celebrar o facto de o rei ter escapado ileso.

* Nota Redactorial: Notícia corrigida às 12h45, de 17 de Junho.

É na zona desse antigo Convento, parcialmente destruído pelo terramoto e que hoje está ainda ocupado por lojas e habitações, que decorrem agora escavações arqueológicas. Elas já permitiram encontrar ossários e vários níveis de ocupação, a mais surpreendente das quais se revelou com o achado de cinco tanques de salga romanos, as cetárias, onde se guardava o pescado e se produzia o garum, um molho de peixe usado pelos romanos e também pelos gregos.

As escavações em curso, precedidas por sondagens prévias feitas em 2011, iniciaram-se há cerca de dois meses e estão a cargo da Empatia, empresa de arqueologia do Porto chamada pelos proprietários do edifício que ocupa todo um quarteirão entre a Rua dos Fanqueiros e a Rua dos Douradores e pertence actualmente ao fundo imobiliário Corpus Christi, associado ao grupo Espírito Santo e à seguradora Tranquilidade.

Numa primeira fase, o que mais surpreendeu os arqueólogos, que encontraram níveis da época da construção do convento, bem como níveis do terramoto, foi sobretudo a descoberta de níveis de ocupação romana.

Não é anormal, reconhecem, até porque, um pouco mais abaixo, na Rua da Prata, há o criptopórtico e as galerias romanas que a câmara municipal abre ao público uma vez por ano. Mas as cetárias agora detectadas estão mais para o interior da cidade. Indicam que nas proximidades deveria haver um ponto de escoamento dos produtos ali guardados. E a descoberta foi estimulante para o trabalho que está a ser desenvolvido.

Na primeira fase dos trabalhos, foram detectadas duas zonas de enterramento. Uma delas na área que tem acesso pela Rua dos Douradores, onde foi descoberto um ossário bastante grande. Parte dele foi já removido, depois de ter sido desenhado, fotografado e de se terem tirado cotas às peças encontradas.

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No ossário descoberto junto à Rua dos Douradores, existem várias partes de esqueletos.

À vista está ainda uma amálgama de partes de vários esqueletos humanos, em que se destaca um crânio e, já um pouco mais enterrados, extremidades de ossos de pés e de mãos, que permitem supor a existência de outros enterramentos por baixo deste, como explicou ao Corvo uma das arqueólogas e antropólogas da equipa da Empatia envolvida nestes trabalhos. “Devemos ter enterramentos por baixo, mas estamos à espera de tirar o ossário para prosseguir as escavações e alargá-las, porque podem estender-se também para lá da porta (que conduz a uma outra sala) ”, afirmou a antropóloga da equipa da Empatia.

Sobre a época a que remontam estas ossadas, o que se sabe é que elas estão balizadas no tempo, entre a data da construção do Convento, 1648 e 1834, a data da extinção das ordens religiosas. Depois disso, em Lisboa deixou praticamente de haver enterramentos nas Igrejas, como sucedia até então.

A datação dos ossos será sobretudo feita através de outros materiais associados a eles, encontrados no mesmo local, explica a arqueóloga. O que se vê nos filmes e nas séries de televisão, em que, por processos laboratoriais, em escassos minutos se consegue datar um esqueleto, não acontece com a mesma rapidez na realidade. Além de ser um processo caro e uma prática pouco seguida ainda em Portugal.

Na sala contígua à do ossário, estão os tanques de salga romanos, a uma cota que não é sequer muito baixa. Uma dessas cetárias está completa e as outras não. Este achado vai determinar o alargamento da sondagem, para confirmar se há mais tanques de salga para sudoeste da Rua dos Douradores. Uma terceira fora já encontrada na anterior escavação feita no Convento, do lado virado à Rua dos Fanqueiros.

Em busca da velha judiaria

Aí foi também encontrada outra zona de enterramentos, com vestígios de caixões e contendo ossos de esqueletos que foram entretanto removidos. Há também muita pedra de grandes dimensões, alguma dela talhada, que poderá ser do piso do Convento. “Mas, para já, o que temos pela frente é uma incógnita”, diz o arqueólogo Filipe Soares Pinto, da Empatia.

Níveis medievais não apareceram ainda. Nos vestígio já descobertos há um “salto” no tempo: da época da construção do Convento, vai-se directamente para os níveis romanos. A expectativa dos arqueólogos é agora saber se ali se poderá encontrar a velha judiaria, tendo em conta que a nova judiaria se encontra na zona mais baixa da cidade, onde actualmente está o Museu do Banco de Portugal.

“Há uma série de áreas que revelam algumas surpresas, e é isso que obriga ao alargamento dos trabalhos. Depois, não sabemos o que irá aparecer”, diz um dos arqueólogo da equipa da Empatia.

Falta de empatia com as escavações, uma paixão para quem as faz,  sentem os muitos lojistas que ocupam a zona térrea do antigo Convento, aos quais é pedido pelos proprietários do imóvel que abandonem o edifício a troco de quase nada – o pagamento de um ano de rendas –, o que tem levado muitos deles a não permitir a entrada dos arqueólogos nas áreas que têm por enquanto arrendadas.

Os proprietários do antigo Convento, o fundo imobiliário Corpus Christi, associado à Tranquilidade, quer que os inquilinos saiam até Setembro, para iniciar as obras do hotel, que terão também de aguardar a conclusão das sondagens arqueológicas.

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O tanque de salga romano agora descoberto revela-se um vestígio importante.

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COMENTÁRIOS

  • Maria de Morais
    Responder

    se as escavaçoes permitirem retardar a construcçao do hotel e a destruiçao de todo um quarteirao , optimo… cruzemos os dedos…

  • António Melo
    Responder

    Parabéns! Fiquei a saber um pouco mais de Lisboa e da sua história.
    Ainda bem que existe o Corvo e conta com a vossa ajuda.
    Bjs e ab

  • José Monteiro
    Responder

    As cetárias romanas são mais ou menos comuns na baixa de Lisboa. Existe um conjunto importante musealizado na rua dos Correeiros, sede do BCP e que pode ser visitado. Outras foram encontradas na rua Augusta. Há um outro conjunto musealizado, onde actualmente se encontra uma loja de bebidas (rua dos Fanqueiros?). Na verdade existem vestígios destas fábricas de conserva de peixe desde Belém até, pelo menos, a Casa dos Bicos.

  • Miguel Infante
    Responder

    Espero que este novo hotel recupere o que for possivel do antigo convento e musealize estes achados.

  • José Neves
    Responder

    Uma dúvida que possuo: Diz-nos a história que no séc. XII, tínhamos uns ribeiros que vinham pela Av. da Liberdade e Av. Almirante Reis, encontrando-se estes no Rossio a caminho do Tejo. Assim, pergunto: Na era romana estes caudais estariam activos? A estarem, como se justificam todas estas ruínas e mais, o próprio hipódromo romano em pleno Rossio?
    OBRIGADO

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