Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), encontrou-se na quinta-feira com moradores do Largo de Santo António, tentando acalmar as preocupações geradas pelas obras de renovação do Museu Antoniano, dedicado ao santo casamenteiro, que se irá chamar Museu de Santo António e estenderá à antiga Sala do Risco, no prédio contíguo.

Na fachada do museu foram instalados dois aparelhos de ar condicionado, escondidos por uma grade metálica perfurada que oculta praticamente toda a fachada, incluindo o frontão que encima o pórtico. A contestação pública tem sido liderada pelo actor Filipe Vargas, através das redes sociais, que, apoiado por alguns moradores, manifestou à vereadora da Cultura os receios de que os aparelhos de ar condicionado façam muito barulho e, principalmente, de que a grade metálica que os esconde proporcione um fácil acesso aos andares superiores do prédio contíguo ao museu.

A arquitecta Ana Silva Dias, responsável camarária pela obra – da autoria do atelier de arquitectura Site Specific, em parceria com o P-06 Atelier -, explicou que a solução encontrada para o ar condicionado não era a ideal, mas a “mais adequada do ponto de vista técnico”. Disse que era preciso resolver o problema da deficiente circulação de ar nas duas salas onde irá ficar instalado o museu – aquela onde funcionou o Museu Antoniano e a que lhe fica contígua, a Sala do Risco, cedida à CML quando era presidida por João Soares. E que a alternativa era colocar os aparelhos no interior do museu, o que iria causar uma trepidação indesejável. Garantiu ainda que os aparelhos de ar condicionado não emitem qualquer ruído, sendo prova disso o facto de estarem ligados enquanto decorria a conversa.

“Ouvem alguma coisa?”, perguntou. “Agora estamos a meio da tarde, há imenso trânsito na rua. Como será durante a noite, quando houver silêncio em volta?”, contrapôs Filipe Vargas.

Catarina Vaz Pinto prometeu resolver qualquer dos problemas levantados. “Tudo” o que está instalado até agora no novo Museu de Santo António “é reversível”, garantiu. A justificar as opções tomadas, uma razão de fundo: “preservar o edificado existente, repôr e pôr à vista o edificado original”.

O novo Museu de Santo António dividir-se-á, depois da intervenção – da responsabilidade da CML -, em duas partes, uma mais erudita, dedicada à vida do santo, e a outra mais popular, reunindo peças que falam do culto popular. A antiga entrada do Museu Antoniano será fechada e o acesso principal ao novo Museu de Santo António far-se-á pelas antiga Sala do Risco.

 

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“Tínhamos aqui um problema de comunicação, o museu está num canto, não se dava por ele, queremos torná-lo mais visível, capitalizar a popularidade de que goza Santo António para criar uma nova dinâmica de turismo religioso. A ideia original é uma filosofia comunicacional, não uma filosofia de arquitectura”, sublinhou ainda Ana Silva Dias. Daí a opção pelas enormes letras vermelhas que irão ser colocadas num painel na fachada a identificar o museu.

Alguma coisa terá mesmo que mudar naquela que é uma das praças mais antigas de Lisboa, onde Santo António marca presença através de uma estátua cercada por diversas peças de mobiliário urbano. A identificar a igreja, no sopé da pequena escadaria que lhe dá acesso, está um painel sistematicamente escondido por um conjunto de caixotes do lixo. “Devem ser os caixotes do lixo mais fotografados do mundo”, comentava um dos moradores, no encontro com a vereadora da Cultura, que teve oportunidade de observar uma enorme ratazana morta junto à entrada do museu.

 

* Texto corrigido às 13h40 de 28 de Junho

 

Texto: Isabel Braga                 Fotografias: Fernando Faria

  • JR
    Responder

    “Tínhamos aqui um problema de comunicação, o museu está num canto, não se dava por ele, queremos torná-lo mais visível, capitalizar a popularidade de que goza Santo António para criar uma nova dinâmica de turismo religioso. A ideia original é uma filosofia comunicacional, não uma filosofia de arquitectura”,

    Lol. No entanto a grade metálica vai!
    Tanto edificado em Lisboa a precisar de ser ocultado e vão logo (vejam lá) , de forma a que o museu ganhe uma nova notoriedade, ocultar as distintivas estruturas de pedra que distinguem aquela mesma fachada!
    De génio! Não ponham mão nestes arquitretas não…

    • jr
      Responder

      “No entanto a grade metálica vai*!”

      * ocultar as respectivas estruturas.

      Contrariando assim não só o que os responsáveis mencionam como o que o render mostra!

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    . “A ideia original é uma filosofia comunicacional, não uma filosofia de arquitectura”
    Pois é … mas os efeitos desvastadores na Unidade Arquitectónica e Patrimonial deste MONUMENTO NACIONAL e importante Monumento Lisboeta, são bem vísiveis, apesar do argumento de que são reversíveis …
    O que isto ilustra, independentemente dos argumentos funcionalistas/ técnicos, é a conhecida e permanente vontade de deixar “assinatura criativa” e afirmativa por parte da”KULTURA” e da classe Arquitecta, com a maior impunidade e consentimento/conivência oficiais das Autoridades Patrimoniais.
    Ao escândalo da “intervenção” vandalizadora no Portal da Sé, nunca corrigido, vem agora juntar-se este …

    António Sérgio Rosa de Carvalho
    OVOODOCORVO

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