No mercado de Alvalade já muitos vendedores ouviram dizer que o mercado vai ser vendido pela câmara ao Hipercor, da cadeia Corte Inglés. O vereador responsável pelos mercados, Sá Fernandes, diz desconhecer o assunto. Mas também não se pronuncia sobre a venda do Mercado 31 de Janeiro, que deverá fechar portas este ano. “Isso é com o presidente da Câmara”. Os vendedores do Mercado de Alvalade estão apreensivos e querem saber que futuro os espera.

 

Texto e fotografias: Fernanda Ribeiro

 

A apreensão é grande no Mercado de Alvalade, onde muitas bancas já fecharam, em consequência não só da crise, que provocou grandes quebras no consumo, como do aumento das taxas que os vendedores ali instalados têm de pagar à Câmara Municipal de Lisboa, que este ano lhes impôs também o pagamento do consumo de água.

 
“Pagamos perto de 600 euros por mês para aqui estar e agora começámos também a pagar água, além do lugar de estacionamento para a carrinha, que são mais 40 e tal euros”, queixa-se Maria Cristovalina que, com o marido e a filha, tem uma banca de venda de peixe no mercado. O horário de abertura impõe-lhes limitações, queixa-se: “Estamos abertos apenas quatro horas”, afirma, considerando ser pouco tempo para escoar o produto.

 
“As vendas caíram muito e isto está de rastos”, diz a mulher, apontando para o corredor lateral onde antes havia lojinhas abertas e que agora estão todas fechadas, tal como muitas bancas de venda de aves, de peixe e de fruta, igualmente encerradas.

 
Maria Cristovalina, que tem 61 anos, está ali desde 1979 e o que mais teme é que a Câmara Municipal de Lisboa decida vender também este mercado, à semelhança do que foi feito com o mercado 31 de Janeiro, nas Picoas, que foi vendido à Portugal Telecom. “Eles a nós ainda não nos disseram nada, mas o que se ouve dizer é que querem vender isto ao Corte Inglés”, diz a vendedora.

 
Esta hipótese, da venda do mercado de Alvalade para ali surgir um hipermercado associado ao Corte Inglés, é conhecida por diversos comerciantes ali instalados. Numa banca de venda de fruta, uma outra vendedora corrobora esse temor, de que o mercado possa encerrar. “Ouvimos dizer que este mercado terá sido vendido ao Corte Inglés, mas da câmara ninguém nos informa. O mercado 31 de Janeiro vai fechar este ano, fala-se também no do Lumiar, mas não sabemos o que vai acontecer aqui”, diz a mulher.

 
Recentemente, a Câmara abriu concurso para ocupação de nove lugares vagos em Alvalade, entre lugares de hortofrutícolas e pescado, mas os resultados ainda não são conhecidos. A concurso não estão as lojas vagas, o que leva uma vendedora a supor que possam estar a ser guardadas para os que venham a ser transferidos do mercado 31 de Janeiro.

 
O vereador responsável pelos mercados, José Sá Fernandes, questionado pelo Corvo sobre a hipótese de venda do mercado de Alvalade, limitou-se a dizer: “Não tenho conhecimento disso”. A expressão não traduz  quais são as intenções da câmara, até porque quando questionado sobre a venda do mercado 31 de Janeiro, José Sá Fernandes remeteu de imediato o assunto para o presidente da câmara. “A venda é com o presidente”, disse. O Corvo contactou a assessora de António Costa na câmara mas não obteve qualquer resposta.

 
Sadik, de origem indiana, está há 37 anos instalado no mercado de Alvalade, onde tem uma banca de venda de especiarias e de produtos hortícolas, com uma clientela que já o conhece há muito. Também já ouviu falar da possibilidade da venda, mas como os restantes vendedores diz não ter informação oficial. Este comerciante queixa-se sobretudo da falta de investimento no mercado de Alvalade. Acha que ele poderia ser dinamizado e não é isso que vê acontecer. “Se eles estivessem de facto interessados em dinamizar o mercado, desde logo, não teriam deixado o Lidl instalar-se aqui. É desleal”, afirma.

Mercado Alvalade

 

Sadik queixa-se da falta de dinamização do mercado de Alvalade.

 
Outra forma de dinamizar o mercado seria alargar o horário de abertura, considera Sadik,  tal como outros vendedores. “O horário está assim há meio século e hoje em dia as pessoas trabalham, não podem vir ao mercado de manhã. Só ao sábado é que a maioria cá vem”.

 
Outra incongruência que aponta é a descoordenação com o Mercado Abastecedor, o MARL. “O Mercado Abastecedor abre à tardinha. Vamos lá comprar hortaliças à noite e de manhã os frescos já chegam aqui sem frescura nenhuma. Não há coordenação nos horários. No feriado de 15 de Agosto o MARL fechou, mas este mercado esteve aberto, o que não se compreende”, sublinhou este vendedor.

 
No bairro, a concorrência torna-se cada vez mais forte e além do Lidl, situado em parte do edifício do mercado, perto há também um Pingo Doce, cadeia que em breve vai abrir outro supermercado no antigo Centro Comercial de Alvalade, que foi alvo de obras.
Na balança, Sadik tem um autocolante da campanha Gosto do Comércio do Bairro de Alvalade, tal como a vendedora de peixe, Maria Cristovalina, mas temem que ele deixe de existir ali: “A ver se o mercado não morre”, diz a peixeira.

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