Há muito mais gente a visitar o Mercado da Ribeira desde que a Time Out se instalou na 24 de Julho, mas para muitos vendedores isso não se traduziu na subida do volume de negócios. Nem num melhor ambiente de trabalho. E as novas regras impostas pela câmara fazem-nos sentir preteridos e a ser afastados do mercado, onde alguns estão há várias gerações.

 

Texto e fotografias: Fernanda Ribeiro

 

“Vão-nos encostando devagarinho, devagarinho, vão apertando o cerco e… qualquer dia, estamos na rua”, desabafa Filomena Moreira, que há quase 20 anos é vendedora de frutas e hortícolas no Mercado da Ribeira e para quem, “desde que começou a revolução da Time Out”, a câmara está a preterir os vendedores tradicionais e ameaça tirar-lhes direitos.

Um recente despacho do vereador José Sá Fernandes, emitido em meados de Setembro, veio proibir a transmissão das bancas de venda a familiares dos que actualmente as ocupam. E veio também impedir os vendedores de alterar a actividade que ali pratiquem.

A legalidade do documento foi recentemente posta em causa por um munícipe, detentor de uma banca de flores na Ribeira. Na Assembleia Municipal de Lisboa, Alves Miguel questionou a câmara sobre a razão deste despacho e quis conhecer o contrato estabelecido entre a autarquia e a Time Out.

“A mim, proibiram-me a mudança de actividade (de uma loja de flores para uma de artesanato), alegando que isso iria descaracterizar o mercado da Ribeira. Mas quem já o descaracterizou foi a câmara, entregando-o à Time Out. Qual é o acordo que a câmara tem com a Time Out, que, se não é secreto, parece?”, interrogou Alves Miguel.

O Corvo tentou junto da autarquia conhecer o documento assinado entre as partes e que concessiona àquela empresa o Mercado da Ribeira, por um período de 20 anos. Mas o pedido ficou sem resposta.

“Isto tem tudo a ver com a Time Out”, sustenta, por seu turno, a vendedora de hortícolas Filomena Moreira, referindo-se ao recente despacho de Sá Fernandes. “Já sabíamos que não podíamos ceder o lugar a pessoas de fora, nem vender o lugar, isso sempre foi assim. Mas não poder ceder a familiares? Isto é novo, não está no regulamento do mercado e acho que estão a tentar fazer com que a gente desista e se vá embora”, sublinhou a vendedora.

Esse pensamento, o de desistir e ir-se embora do mercado, já lhe passou pela cabeça, aliás. Porque, se a crise e o aumento do IVA na restauração levaram ao encerramento de muitos restaurantes, alguns dos quais eram os seus melhores clientes, os que lhe “faziam a caixa”, a chegada dos novos espaços de restauração com a Time Out, não lhe equilibrou a balança. Nenhum dos restaurantes ali instalados lhe compra nada, diz, algo de que se queixam muitos outros vendedores, sobretudo na área das frutas e produtos hortícolas.

“É verdade que, desde que a Time Out cá está, vem mais gente ao mercado. Sobretudo muitos turistas, mas também portugueses. Mas de que serve, se vêm visitar e não nos compram nada?”, questiona Filomena.

Já disso não se queixa Rosa Cunha, a “Rosinha”, como é conhecida no mercado a peixeira que está na Ribeira há 32 anos e já tem uma filha a trabalhar com ela. Conquistou alguns novos clientes com a chegada da Time Out que considera ter sido “uma mais-valia”, em matéria de animação do mercado.

 

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“Ponho peixe na cozinha de três restaurantes que estão aqui na Ribeira. No Tartar-La, no Miguel Castro e Silva e no Vítor Claro”, conta Rosinha, que fornece peixe a diversos outros restaurantes na cidade.

À volta da sua banca, há quase sempre clientes, que, pela conversa, se percebe serem de longa data. Há quem comente a “descoberta” de novos peixes que a Rosinha lhe apresentou e quem lá vá já com a ideia fixa de levar uma garoupa, um cantaril ou uns linguados, entre a grande variedade de peixe disposta no lugar que esta peixeira ocupa.

Mas nem a animação reinante em voltada sua banca, nem a boa relação que mantém com os donos de alguns restaurantes da Time Out a impedem de ser crítica da forma como se tem processado a transformação do Mercado da Ribeira.

Do novo pavimento, que “está terrível e parece um patinho feio”, à limpeza ou falta dela dentro e fora do mercado, Rosinha faz ouvir a sua voz e as suas críticas. “O pavimento novo que foi colocado (lajes de lioz) é extremamente escorregadio. Já imensa gente aqui tem caído. Quem fez as obras esqueceu-se que aqui se trabalha com gelo, que derrete e que faz com que haja água a correr no chão. Deviam ter pensado num pavimento antiderrapante, já que se ia mudar. Outro problema é o da limpeza, que está terrível. A câmara até veio aí dar um curso de separação de lixos. Nós já fazíamos, mas os da Time Out estavam a colocar tudo à balda”, afirma.

Rosa discorda em absoluto com o novo despacho do vereador Sá Fernandes. “Já tenho aqui a minha filha a trabalhar comigo. Era normal que isto um dia ficasse para ela, que conhece o peixe e o negócio”, diz a peixeira. Para ela, a nova regra imposta pela câmara não pode ter outro significado senão o de se pretender entregar toda a gestão à empresa.

“Daqui a 20 anos, a Time Out e a câmara vão ficar com o mercado e fazer dele outra coisa”, prevê Rosinha. Até lá, e enquanto puder, vai continuar a vender o seu peixe. Mas a proibição de passar as bancas de pais para filhos preocupa diversos outros vendedores.

Isabel Aparício, que há 46 anos vende frutas e legumes na Ribeira, acha injusta a recente medida determinada pelo vereador Sá Fernandes. “A minha filha, em princípio, não virá para aqui, mas se eu tiver um azar, quem sabe isso venha a ser preciso. Então, ao fim de 46 anos de mercado, a minha filha tinha de ir para a rua, não tinha o direito a ficar cá?”, pergunta.

 

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Numa banca próxima, está uma vendedora nessa situação, refere Isabel: “Tem a filha a trabalhar com ela e o que é que lhe vai acontecer, se não puder continuar a ocupar aquele lugar?”, questiona Isabel Aparício.

Ana Maria Santos é florista e está no mercado da Ribeira há já 50 anos. Tem duas filhas a trabalhar com ela. “Elas estudaram, mas não conseguiram colocação e acabaram por vir para cá também vender flores”, explica. Mostra-se surpreendida e até incrédula com a decisão agora tomada pela câmara.

Reconhece que a Time Out levou à Ribeira muito mais gente e potenciais compradores. “Trouxe nova clientela, é verdade. Mas eu vejo poucos resultados na caixa”, diz.

 

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Pela loja que ocupa no mercado, Ana Santos paga cerca de 700 euros mensais. Os consumos de água e electricidade são pagos à parte. “Até os portões da loja nos fizeram pagar, quando há 15 anos nos mudaram do primeiro andar para o rés-do-chão. E não custaram tão pouco como isso. Ora quem é que aluga uma casa sem portas”, questiona a florista, que ainda tem bem presentes os incómodos causados pelas obras realizadas na Ribeira.

“Enquanto duraram as obras da Time Out, partiram-nos o chão mesmo em frente à loja e começaram a aparecer ratos e baratas. Isto estava mesmo insuportável. E prejudicou-nos imenso o negócio. Depois, a câmara compensou-nos em parte, suspendendo o pagamento de rendas, porque reconheceu os prejuízos causados. E agora querem impedir os nossos filhos de aqui continuarem a trabalhar?”, questiona, indignada.

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