Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

3 Julho, 2018

Os vendedores ambulantes de Belém e do centro histórico não gostam do tipo de turismo que Lisboa está a receber. Dizem que regateiam os preços dos artigos, não compram nada e pedem muitas informações. “Somos um posto de turismo, basicamente, não nos cumprimentam nem agradecem”, queixa-se uma vendedora. Os comerciantes acham que o turismo de qualidade está a diminuir porque há mais furtos por carteiristas, falta de policiamento e o Airbnb está a praticar preços mais acessíveis, atraindo “jovens que não querem gastar dinheiro”. Há quem acredite ainda que os turistas estão “saturados” de serem abordados para comprar. Os que lutam pela sobrevivência não estão tão apreensivos. A principal preocupação de um vendedor de “pega-monstros” é enviar dinheiro à família, a viver no Senegal, para onde já mandou 50 euros numa semana. Apesar das dificuldades, gostam de não ter horários rígidos e uma “liberdade” que “não trocam por nada”.

“Este ano, vê-se um tipo de turismo ‘mais barato’, regateiam muito os preços. Por vezes, são mal-educados”, comenta Joana Margarida, 24 anos, enquanto limpa a centrifugadora na qual faz sumos naturais, à saída do túnel de acesso pedonal ao Jardim da Praça do Império, em Belém. O discurso repete-se, em várias zonas turísticas de Lisboa, por quem opta trabalhar a céu aberto nesta altura do ano, mas também por quem escolheu a venda ambulante como profissão. Não estão satisfeitos com os clientes e acreditam que a vaga de assaltos por carteiristas sentida na cidade, nos últimos meses, poderá estar a afastar os visitantes com mais poder de compra.

 

“Os turistas que chegam nos cruzeiros antes vinham aqui, mas agora ficam pelo barco, porque têm medo de vir à rua. Há muitos carteiristas nesta zona, vemos assaltos quase todos os dias. Os chineses já não páram e penso que esta situação acontece por serem as principais vítimas de furto”, explica Traian Lapuste, 40 anos, que trabalha como vendedor ambulante desde 2015, quando ficou desempregado. O vendedor de refrigerantes e cervejas começa a trabalhar de manhã e nunca tem hora para terminar. “Depende sempre de como estiver a correr, hoje está muito fraco ainda”, diz, enquanto se despede da colega de trabalho.

Joana Margarida está a desmontar a trotinete onde confecciona limonadas, sumos de laranja e saladas de fruta, ao mesmo tempo que vai explicando as que considera serem as causas da debilidade do negócio, este ano. “Vê-se muitos grupos de jovens que não querem gastar dinheiro, o que se deve aos preços praticados pelo Airbnb, mais acessíveis, que atraem outro público. Estamos a perder muitos habitantes também, com os despejos. Antes, aos fins-de-semana, era uma enchente e, agora, chego a facturar mais num dia de semana do que num Domingo”, diz. Ainda com a fruta e as garrafas de água expostas em caixotes de madeira, há quem passe só para pedir indicações. “Somos um posto de turismo, basicamente, não nos cumprimentam nem agradecem, parece que temos essa obrigação”, lamenta.

 

Depois de atravessar o túnel em direcção ao rio Tejo, junto ao Padrão dos Descobrimentos, encontra-se Maria do Carmo Ramos, 63 anos, vende gelados há doze anos e conta que nunca assistiu a situações tão caricatas como as deste ano. “Um grupo de chineses colocou-se debaixo do meu toldo, à sombra, e tive de pedir-lhes para saírem para conseguir atender os clientes”, diz, enquanto atende um casal de franceses. É o segundo que passa ali naquela tarde, mas nem sempre foi assim. “Nos primeiros anos, não havia concorrência, o negócio corria melhor. No pico do turismo, em 2015 e 2016, vendemos muito. Este ano, há menos gente, o calor demorou a vir, mas também se vê mais roubos”, conta.

 

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Joana Margarida queixa-se da pouca generosidade dos visitantes estrangeiros

A maioria dos vendedores ambulantes começa a trabalhar ao final da manhã, na hora de maior calor, mais propensa ao consumo de bebidas frescas, gelados e fruta. Quem vende outro tipo de artigos, como desenhos a aguarela e tinta da china, aproveita o período de maior movimento para expor o seu trabalho. Ninguém tem um horário rígido, uma “liberdade” que dizem gostar e “não trocar por nada”, como é o caso de Jean Mário, natural da Roménia. Na sombra do Padrão dos Descobrimentos, o pintor explica que usa o café como tinta para esboçar o primeiro desenho do dia. “Depois de tomar o pequeno-almoço, bebo café e, com o que sobra da bebida, começo a pintar”, conta, enquanto mostra um desenho em diferentes tonalidades de castanho. Sentado numa cadeira de pano e debaixo de um chapéu de sol para proteger o rosto já rosado do sol intenso, vai contando a história de cada pintura.

 

“Gosto de pintar sobre Portugal e Lisboa, porque este país recebeu-me muito bem e deu-me uma oportunidade que mais nenhum deu”, conta. Há dez anos a vender desenhos em Belém, Jean diz que “o pico do turismo” aconteceu em 2016. “Além de muitos turistas, naquele ano tivemos um turismo de qualidade, agora todos me pedem descontos. Os emigrantes portugueses são os que ainda compram, têm saudades do país”, explica o pintor romeno, na casa dos cinquenta anos, que começou por trabalhar como operário da construção civil.

 

 

Por Belém, todos antecipam um Verão pior. Mas há quem já não tenha mesmo esperança nos próximos dois meses. Em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, Francisca Castro, 20 anos, diz que o negócio está “péssimo”. “O ano passado, era quase certo que, se estivesse bom tempo, era um bom dia para vender, agora não. Até havia filas para comprar sumos, ontem estava vazio. Vê-se muito menos gente. Nota-se uma grande diferença no tipo de turismo também, são mais antipáticos e não querem comprar”, diz a vendedora de sumos de laranja e limonadas com calda de açúcar de gengibre e hortelã. A comerciante sazonal acredita que os turistas estão “saturados” de serem abordados pelos comerciantes. “Quando viemos para aqui, éramos os únicos a vender limonadas, agora somos muitos mais. Talvez os turistas se sintam cansados porque em cada esquina encontram alguém a vender alguma coisa”, explica.

 

Ao chegar ao centro de Lisboa, em frente à rotunda do Marquês de Pombal, há mais clientes, mas há queixas semelhantes. Kamila Costa, 23 anos, também vende sumos de fruta naturais numa bicicleta vintage. É difícil chegar à fala com ela, tal é a afluência de visitantes que saem e partem dos autocarros turísticos. “Estou farta de estar a tentar trabalhar e estarem pessoas ao meu lado a pedir indicações. Às vezes, não dou, digo para irem ao posto de informação. Os clientes são os mesmos que chegam de manhã, no autocarro, e vão embora ao fim do dia. Há menos pessoas, claramente, mas aqui ainda se vai vendendo”, garante a trabalhadora sazonal.




 

No Parque Eduardo VII e no centro histórico de Lisboa, começam a surgir outro tipo de vendedores ambulantes. Ouvem-se mais histórias de quem luta ‘de sol a sol’ para ganhar a sua única forma de sustento. Não têm férias e já perderam a conta de quantas horas trabalham por dia. Joana Pereira, 63 anos, vende panos e toalhas desde os 11 anos, e é com emoção que relata a sua história. “Quando terminei a 4ª classe, tive de ir logo ajudar a minha mãe, porque era a filha mais velha. Não pude tirar um curso, mas trabalhei toda a vida para dar essa oportunidade aos meus três filhos, hoje licenciados”, conta.

 

 

Há mais de vinte anos a vender estes artigos no início do Parque Eduardo VII, também sente que as pessoas que visitam Lisboa são diferentes. “Há muito turismo, mas é muito fraco. Vendemos uma toalha e querem logo um pano de oferta, regateiam muito. Devem querer guardar o dinheiro para irem para as docas sair à noite”, diz, entre risos. Hoje, tem licença concedida pela Câmara de Lisboa, mas muitas vezes teve de fugir à polícia. “Antigamente, era diferente, íamos vender para a porta dos hotéis, mas, se aparecesse a polícia, tínhamos de correr”, recorda.

 

No miradouro de Santa Luzia, Delta Maria Rocha, 55 anos, também vende panos, aventais e porta-chaves em forma de sardinhas. Tem um artigo único, feito pela própria, a que chama a “oitava maravilha do mundo”. Lá dentro há um eléctrico, uma guitarra portuguesa e corações de Viana do Castelo feitos em tecido. Gostava de ter sido socióloga, mas a necessidade de ter de começar a trabalhar muito cedo não o permitiu. “Amo as palavras e leio muito. Quando era pequena, guardava tudo só para ler, como pacotes de açúcar ou de farinha”, conta, enquanto trauteia um poema tradicional de Viana de Castelo. “Tento ser original e cativar as pessoas com artigos diferentes e vou vendendo. Se não fosse o presidente da Câmara de Lisboa, o que era de mim? Preciso mesmo disto para viver e ele deu-me um lugar ao conceder-me uma licença para venda”, diz com lágrimas nos olhos, ao mesmo tempo que é interrompida por uma turista brasileira que vai passar um mês de férias em Portugal. Quer saber o melhor trajecto para chegar ao Castelo de São Jorge. “É por ali meu amor, mas tenha cuidado com as malas, porque há muita gente a roubar”, alerta.

 

 

É por ali que também se encontram vendedores africanos que só precisam da força do corpo para suportar os artigos. Bamba Chiekn, 49 anos, natural do Senegal, anda pelos miradouros de Lisboa de colares ao pescoço e pulseiras na mão. Vende-os a “preços negociáveis” e, por vezes, oferece um destes adereços “para dar sorte à vida das pessoas”, explica. Este ano, diz, “o negócio não está bom”. “Há menos turistas, o ano passado eram mais. Acho que foram para a Rússia ver o Mundial de Futebol”, comenta. Ao seu lado, Zapozozhan Jeorge, 21 anos, ucraniano, vende desenhos feitos pelo pai e tem uma visão bem diferente. “Acho que a reabilitação urbana trouxe mais pessoas a viverem aqui, o que melhorou as nossas vendas. O governo português foi muito bom para nós, todos os anos os turistas aumentam”, diz. Cristina Loncarevic, 40 anos, vende o mesmo tipo de artigos e diz que nunca vendeu tanto como nos últimos dois anos. “Junho é sempre um mês fraco, quero estar optimista”, afirma.

 

No Largo de Santo António, Irene Graça, 60 anos, está mais desanimada. “Hoje, era meio-dia e ainda não me tinha estreado nas vendas. Isto está uma miséria”, diz. A vendedora de carteiras e pulseiras de cortiça está pelo segundo ano consecutivo nesta parte da cidade e queixa-se de não respeitarem o seu trabalho. “Pedem-nos para vendermos a preços mais baratos do que aqueles a que compramos. Já não ganhamos muito, não dá para baixar mais. O turismo está mesmo muito diferente. Além de não levarem nada, mexem em tudo e atiram os artigos, são brutos e temos de chamar-lhes a atenção”, explica. Na semana passada, diz ter visto um turista a ser roubado mesmo à sua frente, nas escadas que dão acesso à Igreja de Santo António, um delito que diz acontecer com mais frequência, mas longe do olhar das autoridades. “Não se vê aqui polícias. Numa zona com tantos assaltos, não se entende”, diz.

 

 

Não é preciso passar muito tempo naquela parte da cidade para perceber que o movimento diminuiu, relativamente ao ano passado. Vê-se uma ou outra pessoa de mais idade, carregada com sacos da mercearia, um sinal de que ainda há moradores portugueses em Alfama, na freguesia de Santa Maria Maior, aquela que perdeu mais habitantes nos últimos anos. Há alguns jovens de mochila às costas e vai-se vendo um ou outro casal que, timidamente, manifesta vontade de conversar com os vendedores. Mas, a maioria não compra nada. Nas principais ruas da Baixa, o cenário é ligeiramente diferente.

 

“Já se começa a sentir mais gente, está muito melhor. Se não fosse o turismo, não estávamos aqui”, diz Vítor Gaspar, 40 anos, vendedor de cerejas e morangos, no final da Rua do Carmo. Filipa Gaspar, 39 anos, também vendedora de fruta, no Chiado, está menos optimista. “Este ano, está a ser pior. Já não se vêem chineses. O volume de turistas parece-me ser o mesmo, o problema é que não compram. Para eles é tudo caro, são pedinchões”, critica.

 

 

Ao chegar à Rua Augusta, multiplica-se o número de vendedores ambulantes de “pega monstros”, um brinquedo viscoso. Estes comerciantes, normalmente em situação ilegal, são naturais do Bangladesh, Índia e África e têm alguma dificuldade em encontrar emprego em Portugal. Durante mais de dez horas por dia, Pepe, 53 anos, natural do Senegal, atira “pega-monstros” para uma tábua de madeira colocada em cima de um caixote de plástico. Só assim se consegue ver a finalidade do objecto: ao cair em cima da tábua, começa a despegar-se, formando uma cara de um animal, que chama a atenção dos mais novos. “Look, look”, diz, de cada vez que atira o brinquedo contra a tábua de madeira.

 

A força incutida em cada lance, num gesto repetitivo, é a mesma que mostra ter perante a vida. “Estou aqui o dia todo, é um trabalho muito duro, mas tenho a minha família toda no Senegal, cinco filhos e uma mulher. Já consegui enviar-lhes 50 euros numa semana”, conta. Como não tem licença para vender na rua, muitas vezes, acaba por ter de fugir à polícia, mas normalmente só o avisam para sair. “Já me conhecem, alguns acabam por ser meus amigos, sabem das minhas dificuldades. Portugal é boa gente”, diz ainda.

 

 

Na Rua do Carmo, Raju, 42 anos, natural de Punjab, na Índia, é de menos palavras. Diz que não fala bem português, só hindi. Consegue explicar que está há 12 anos em Portugal e, quando O Corvo tenta perceber o que gostava de fazer profissionalmente, emociona-se. “Gostava de estar com a minha família, principalmente”, diz, enquanto se prepara para atirar mais um “pega-monstro” cor-de-rosa, que acabará por formar um porco.

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