Afinal, e depois da polémica causada pela anunciada supressão de lugares de estacionamento na Avenida da República, no troço entre o Saldanha e a Avenida Elias Garcia, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) diz que encontrou uma forma de tal não acontecer. A solução? Em vez da criação de duas ciclovias unidirecionais nessa extensão, as obras de requalificação do Eixo Central da cidade prevêem agora a construção de apenas uma via, mas com circulação nos dois sentidos, ao longo de toda a extensão do lado poente da mesma Avenida da República. O CDS reclama a mudança como uma “vitória dos moradores” e fala em “recuo” do líder da autarquia.

 

“Esta mudança reforça e melhora o projecto, para além de permitir uma aproximação de todos os que utilizam a mobilidade suave”, garantiu, na tarde desta terça-feira (19 de Abril), Fernando Medina, o presidente da CML, perante os deputados da Assembleia Municipal de Lisboa (AML). “Vamos iniciar as obras que vão mudar a face de uma área central da cidade, com um número significativo de benefícios para os que ali vivem e residem”, afirmou o autarca, aludindo às alterações resultantes do “extenso debate público”.

 

O autarca, que falava durante a apresentação da informação escrita que apresenta trimestralmente à assembleia, disse que a câmara municipal conseguiu assim dar resposta aquela que se tem constituído como a razão principal de contestação ao projecto, cujas obras deverão começar no final desta semana: o estacionamento. Em vez da planeada supressão de 149 lugares nesse troço entre Saldanha e Elias Garcia, diz Medina, o que acontecerá será antes o ganho de sete lugares. Ou seja, deixará de haver grandes razões para contestar a revolução que se antevê no espaço público.

 

E tal deve-se às alterações, entretanto, realizadas ao que estava planeado. Desta forma, as ciclovias unidirecionais que atravessarão a Avenida Fontes Pereira de Melo entroncarão, a partir da Praça Duque de Saldanha e ao longo de toda a Avenida da República, numa única via bidirecional. A mesma via, que se cruzará com a que cruza Avenida Duque d’Ávila, fará depois a ligação à ciclovia do Campo Grande, com ligação à Avenida do Brasil.

 

“Esta opção que agora tomamos, e que altera o que estava pensado, reforça e melhora, em minha opinião, o projecto que tínhamos. Isto porque uma ciclovia bidirecional tem uma vantagem: aproxima mais todos os que utilizam a mobilidade suave do que será um elemento importante de valorização e dinamismo do comércio local”, assegura o presidente da CML, salientando que, “assim, consegue-se manter o perfil de estacionamento em espinha do lado nascente, entre o Saldanha e a Avenida Elias Garcia, e, através da melhoria do sistema de estacionamento da envolvente, ter o ganho remanescente de lugares”.

 

Fernando Medina reclamou ainda como um sucesso para a CML a garantia da consagração de “espaços próprios de cargas e descargas” no novo desenho da Avenida da República. O mesmos eram exigidos não apenas pelos moradores, para a tomada e largada de passageiros idosos ou com dificuldades de mobilidade, mas também pelos comerciantes da zona. Esses espaços serão instalados “na borda dos passeios”, em particular no lado poente da avenida. “Foi uma solicitação colocada durante os diversos debates públicos e que estará incorporada na versão final”, garantiu.

 

A isto, Fernando Medina juntou como medida significativa algo que já era conhecido. A câmara negociou com as empresas de parques de estacionamentos subterrâneos daquela zona da cidade um conjunto de 175 lugares, cujas avenças mensais para utilização durante 24 horas custarão 25 euros. “Muitos dirão que estes valores são superiores aos do estacionamento à superfície. É verdade que sim, mas trata-se aqui de um tipo de estacionamento que tem um nível de segurança e de conforto que esses lugares à superfície não têm”, afirma Fernando Medina.

 

Depois deste anúncio, e já ao final da tarde, o vereador João Gonçalves Pereira, do CDS-PP, emitiu um comunicado em que reclama as alterações agora anunciadas pelo presidente da CML como uma “vitória dos moradores”. “Num assomo de bom senso, Fernando Medina incorporou parte do que foi proposto pelo CDS-PP para a Avenida da República. Desde a primeira hora, apresentámos publicamente esta opção da ciclovia única bidireccional como sendo a melhor solução para atenuar o impacto da extinção dos lugares de estacionamento para os moradores e empresas da zona”, diz o eleito centrista.

 

Mas as críticas mantêm-se. “Este projecto fica muito aquém do que seria desejável em termos de mobilidade para os Lisboetas. Acautela a mobilidade ciclável e pedonal, mas continua a ser desastroso para a mobilidade automóvel”, afirma, antes de se regozijar pela sua persistência na contestação. “Valeu a pena a insistência do CDS-PP em fazer oposição construtiva e com alternativas. Fomos a única força política a votar contra a formatação inicial deste projecto e insistimos e garantimos, contra a vontade do executivo, o debate público e o envolvimento dos moradores e comerciantes”, considera.

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

  • Joao Villalobos
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    Vai existir uma só ciclovia entre Saldanha e Entrecampos, mas terá dois sentidos https://t.co/v5NINsZYbU

  • Hugo Ferreira
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    Como se seria de esperar, o choradinho dos moradores que não sabem o que hão de fazer sem o popó à porta de casa, estragou um dos melhores projectos que a câmara tinha para esta zona central de Lisboa. Conseguiram a proeza de aumentar ainda mais, em vez de diminuir, os lugares de estacionamento na via dita pública. Enfim.

  • Paulo
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    Uma vergonha. Este presidente da camara é um cobarde, um falso. O projecto inicial era bom. Uma avenida que tem 2 estaçoes de metro!!! Aquela avenida esta cheia de estacionamento. Basta ir la durante a noite e ver a quantidade de lugares vazios. Estou sem palavras. Foi meter-se do lado de meia duzia de moradores, contra a maioria que apoiava este projecto. Acabou de perder o meu voto, pois nao gosto de apoiar cobardes. E vou fazer campanha activa, para que nao ganhe as proximas eleiçoes.

    • A.Santos
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      Acho que tem razão no facto de ter cedido. Mas a sua indignação parece gato escondido com rabo de fora. Chama nomes o que é deselegante, porque ceder ao meio “desastroso” não é motivo para mudar de intenção de voto. Há tanta coisa na cidade que poderá ser razão para o sim e para o não que é claramente forçado o seu comentário.

    • Pedro
      Responder

      Paulo deves votar no Barbosa (ACP), esse sim tem uma grande estrategia para trazer milhares de carros diariamente para Lx. Numa cidade mediocre, completa ausencia de cidadania, esperavas o quê? Viste algum grupo de ambientalistas/ cidadãos/ ecologistas a manifestarem-se a favor da 1ª versão do projecto? Mas fará algum sentido os moradores (pobres, que ali só vive gente pobre!) da zona central de uma capital europeia sequestrarem o espaço publico para deixar o carro? Porque não ter tambem na rua espaço para o sofa e televisão?

  • Vasco
    Responder

    Lisboa está impestada de velhos jarretas.

    • A.Santos
      Responder

      Vasco, se não morrer até lá, o mais certo é vir a ser um. Já nos bastou na europa um que queria “limpar” dessa maneira.

      • Vasco
        Responder

        Se vier a ser um prefiro uma Lisboa onde possa caminhar, com árvores, prédios conservados e investimento na cidade ao invés de pacovios que vivem graças a rendas congeladas, com bons carros, e que apesar de viverem no centro da capital continuam a ser uns bimbos com as suas marquises e barracões nos logradouros.

  • João Miguel
    Responder

    Para mim, e apesar de não deixar ser uma boa notícia para a cidade e para os ciclistas, até pode ser de sentido único ou ter 3 ou 4 sentidos, eu ando na estrada como sempre andei e raramente recorro a ciclovias.
    São mto mas mto poucas mesmo que utilizo e que de facto dão jeito ou são agradáveis de circular.
    Utilizar como lazer… sim senhora é mto engraçado tipo passeio agora, no dia a dia, como via de transporte andar a escolher percursos em função das ciclovias que cá temos e perder o dobro do tempo a desviar-me de pessoas e a descer e a subir passeios… desculpem lá mas isso para mim não dá.

    • A.Santos
      Responder

      Estou no essencial de acordo. Tirando a situação de quando circulamos junto ao BUS e nos passam autocarros em razia. Mas as ciclovias permitem duas coisas fundamentais. Dão visibilidade a uma nova forma de mobilidade e permitem que pessoas menos preparadas possam circular com mais segurança antes de se meterem a circular como um veículo como os outros. E de facto em passeio, se limpas, são uma mais valia para se andar nas cidades.

  • Ramiro Ribeiro
    Responder

    O melhor não seria acabar com a droga das bicicletas ? Reduzir a entrada de carros em Lisboa, que até já pagam e bem para entrar na cidade, portagens etc. etc. E que tal taxar os residentes com pelo menos 10 euros mês pela estadia do seu carro na cidade. Declaro que moro em Lisboa e tenho carro. Mas as bicicletas era melhor arrumá-las no vão da escada. Não tenho mesmo pachorra para os brincalhões das bicicletas.

    • JOAQUIM LOPES
      Responder

      Declaro que moro em Lisboa, tenho carro e bicicleta, entre outras coisas. Só não é tenho pachorra para “velhos do Restelo” independentemente da idade que tenham.
      Você e outros como você é que merecem arrumados não no vão de escada, mas numa cave escura e bafienta como as V. teorias.

      Na Europa em evolução o caminho tem sido a penalização da circulação automóvel em prol da mobilidade sustentável.

    • A.Santos
      Responder

      Oh Ramiro, alguém já lhe respondeu na mesma moeda. O meu neto nasceu onde você “mora”. No Restelo. Porque quando nos países desenvolvidos se começa a proibir os automóveis nos centros das cidades e se incentiva o uso de meios suaves como andar a pé e de bicicleta e você chama brincalhões a quem se movimenta assim pela cidade, não pode estar a falar a sério. Mas a ironia não é o seu forte….

      • Ramiro Ribeiro
        Responder

        Eu sou contra a utilização do automóvel, nem o uso na cidade. Transportes públicos ou a pé são os meus meios. E não sou velho do Restelo sou mesmo de Alvalade. Mas como já disse não tenho pachorra para ciclovias nem outras brincadeiras de moda

    • A.Santos
      Responder

      Só tem razão numa coisa. É que quando se anda de bicicleta depois é quase como a droga. Não se consegue facilmente de deixar de andar. Experimente e vai ver o seu coração, a sua massa muscular e principalmente a sua carteira, porque morando em Lisboa pode vender o carro e se alguma vez precisar de um, é só alugar , porque tem três vantagens. É sempre novo, não paga revisões e seguro e não precisa de estacioná-lo.

  • Pedro Miguel
    Responder

    A sua mãe brincou com o seu pai e nasceu você. Brincalhão.

  • Pedro F. S.
    Responder

    Não é minimamente comodo ter apenas uma ciclovia. Para quem anda de bicicleta este recuo representa um grande inconveniente. Experimentem vir para a rua de bicicleta.

  • Henrique Fernandes
    Responder

    tristeza de palhaços q n passam sem os carros.

  • Rui
    Responder

    Ciclovias acessiveis, práticas e bem implantadas são fundamentais para o sucesso de uma cidade que se quer mais limpa e amiga do ambiente. Ao fazer ciclovias que estão numa ponta ou no meio da avenida estamos a torna-la menos acessível, ao coloca-la em cima dos passeios e não na estrada, estamos a torna-la menos pratica. Sempre que se faz um compromisso destes perde-se uma oportunidade de fazer bem, algo que terá mais tarde de ser corrigido com o dinheiro de todos.

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