Uma terra de ninguém às portas do Castelo

REPORTAGEM
Francisco Neves

Texto & Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

19 Abril, 2014




As urtigas invadiram tudo à volta. Ao cenário de ruínas, apenas os graffiti lhe dão côr e fazem parar quem passa. Se não fosse o lugar alcandorado, pareceria um arrabalde pós-industrial e esquecido da cidade. Mas fica no seu coração. Por aqui passam milhares de visitantes do Castelo de São Jorge.

“Parece uma ‘no man’s land’. Mas as cores das pinturas são uma coisa positiva”, diz um turista parisiense, quando lhe perguntam a impressão que lhe dá o muito antigo Pátio de Dom Fradique, um acesso oriental à entrada do castelo. “Acho mau.Tem pinturas interessantes, mas estão no sítio errado. Isto é a cidade antiga”, comenta um turista inglês. Uma jovem espanhola pára para uma fotografia. O que acho? “Acho que a entrada no castelo é muito cara, sete euros e meio! Se fosse para passar lá todo o dia…. mas quem passa lá todo o dia?” E o pátio, que acha? “A mim encanta-me o antigo. E os graffiti também!”.

As pinturas multicolores são, de facto, a única coisa atraente do lugar e são muitos os que param para as fotografar. Há ainda outra coisa bela, reconheça-se: a vista ampla sobre o Tejo. Quem subir a Colina do Castelo, pelo Beco do Maldonado ou pelo Beco dos Cegos, vai passar por este largo desabitado, cercado de ruínas cheias de ervas e pelo Palácio Belmonte, uma das mais antigas casas senhoriais de Lisboa (séc. XV), imóvel de interesse público e actualmente um hotel.

Na sombra do bar, o empregado Luís Godinho diz que “todos os clientes se queixam” do estado de abandono deste espaço. “Está a ficar estranho e a começar a  ficar barulhento. As pessoas querem manter a paz aqui”, segundo Frederic Coustols, o seu patrão. Frederic comprou o palácio em 1994 e nele fez um hotel com dez suites de luxo. Mas não adquiriu o pátio adjacente, onde há séculos moravam criados e servidores da casa senhorial. O Pátio de Dom Fradique fica na zona de protecção da cerca do Castelo de São Jorge e dele fazem parte troços das muralhas da Alcáçova e da Cerca Moura.

O local pertence à Câmara Municipal de Lisboa (CML), que não tem facilitado o desejo do empresário de ali criar “uma aldeia”. Há 19 anos que ele tenta fazer valer a ideia, mas – comentou num debate que, a 25 de Março, acolheu no seu hotel – pouco mais conseguiu que ver aprovado, em 2012, um pedido de informação prévia, procedimento que normalmente antecede uma operação urbanística para avaliar da sua viabilidade, entre outras coisas. “Porquê esperar tanto?”, perguntou.

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Num encontro sobre requalificação do património edificado na zona do Castelo, organizado pelo Fundo Arquitectura Social, uma associação sem fins lucrativos, Frederic Custols defendeu o seu projecto de um “Bairro Belmonte”. Uma espécie de recriação da pequena aldeia que existiu à volta do palácio, como um local “activo e feliz”, que contaria, por exemplo, com uma loja de pastelaria, uma adega, um mercado semanal de produtos orgânicos ou um teatro ao ar livre feito a pensar nos vizinhos, eventualmente para despiques de fado. O pátio, um “resort urbano”, teria uma componente de habitação – 7500 metro quadrados de apartamentos na Colina do Castelo e 500 metros quadrados para arrendamento social – , galerias comerciais e de interesse turístico.

O projecto ultrapassaria o Pátio de Dom Fradique, alargando-se a edifícios próximos e teria preocupações ecológicas, recorrendo nomeadamente à reutilização de águas. O “Bairro Belmonte” implicaria uma negociação com a CML para a reintegração do pátio no palácio e a extensão deste. Segundo o industrial hoteleiro, a área de intervenção será de cerca de cinco mil metros quadrados (2200 de terrenos e 2800 de área construída). O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico pronunciou-se contra o projecto.

Em 2010, a câmara decidiu fazer um Plano de Pormenor de Reabilitação Urbana para a Colina do Castelo, com um prazo de elaboração de dois anos, que ainda decorre. Nos considerandos da proposta então aprovada, notava-se que “o acréscimo sustentado do fluxo turístico na cidade ao longo dos últimos anos, especialmente no bairro de Alfama, e a perspectiva de implantação na frente ribeirinha do terminal de cruzeiros, vem introduzir um dinamismo maior e a possibilidade de regeneração da área, assente na fixação de novas actividades e população”.

O pátio consta do inventário municipal do património, que integra os termos de referência do plano, abrangendo 680.000 metros quadrados. Entre outras coisas, o plano de pormenor prevê a definição de zonas verdes, a criação de equipamentos públicos de proximidade e de percursos pedonais e a implantação de actividades artesanais de tradição local.

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Estes planos demoram a fazer porque incluem o desenho pormenorizado das fachadas de todos os edifícios, de modo a que futuras obras não apaguem o traço original dos edifícios. Na Colina do Castelo, há 3.225 prédios a registar, disse recentemente o vereador do Urbanismo. O Corvo pediu informações ao departamento do Urbanismo sobre os projectos da Câmara Municipal de Lisboa para o local, mas não teve resposta.

Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, disse, por  seu lado, que, “daqui a uns meses, deverá haver indicadores mais precisos” quanto ao início da reabilitação do pátio. “Temos todo o interesse” no seu arranjo – disse – e “ainda há dias falámos sobre o assunto”, mas “o problema tem sido a falta de recursos financeiros”. “Mas esperamos que a reabilitação ocorra o mais rapidamente possível”, comentou o autarca do PS.

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    é um triste retrato da incapacidade da Câmara em resolver algo…

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