Uma nova Embaixada abriu no Príncipe Real, não para acolher diplomatas e serviços consulares, mas sim lojas que vendem produtos originais, fabricados em Portugal e concebidos por criadores portugueses.

 

Móveis, roupa, sapatos, malas, candeeiros, objectos de decoração, pintura e escultura, discos raros, jóias e cosméticos biológicos podem ser adquiridos neste espaço, que recusa a designação de centro comercial e, na realidade, parece tudo menos isso: funciona no Palacete Ribeiro da Cunha, um espectacular edifício de estilo neo-árabe que não sofreu nenhuma modificação de vulto desde que foi construído, em 1877, em salas que abrem umas para as outras, permitindo aos visitantes circularem como se de uma casa particular se tratasse.

 

A entrada do palacete é quase cinematográfica: uma escadaria de pedra, ladeada por duas estátuas de bronze, segurando candeeiros, divide-se em dois lances num patamar onde um grande espelho reflecte a galeria que se abre ao nível do primeiro piso. Frescos com figuras humanas e motivos florais decoram as paredes, e o facto de serem visíveis, nestes elementos decorativos, os sinais da passagem do tempo ajuda a conferir uma atmosfera especial ao lugar.

 

Nas quinze salas da Embaixada, há criadores que partilham o mesmo espaço. Numa das maiores, a roupa de Joana Lucena e a bijutaria de prata de Marta Deslandes estão à venda juntamente com móveis feitos a partir de desperdícios: bocados de madeira encontrados na praia foram transformados em bengaleiros, há móveis de cozinha construídos com paletes de madeira. Em escaparates, nas paredes, as alpergatas de marca Paez formam uma mancha colorida. São fabricadas na Argentina e dos poucos produtos não portugueses à venda na Embaixada.

 

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Quase todas as lojas têm nomes estrangeiros, o que não significa que não seja português o que se vende lá dentro. É o caso da Linkstores, que comercializa uma marca própria de artigos originais para homem – sapatos, carteiras, pastas, porta-chaves e até aventais de cozinha –, e ainda objectos únicos de decoração, como candeeiros em fibra de vidro, de formas muito originais. Os olhos dos visitantes são inevitavelmente atraídos para algo que não está à venda, a lareira existente ao canto da sala em puro estilo arte nova.

 

Daqui, passa-se para outra sala ocupada pela empresa Intemporal, dedicada à decoração de interiores, onde os objectos mais variados são iluminados por um gigantesco e belíssimo lustre em ferro e latão, da autoria de Tim Madeira. A um canto, alinham-se as roupas da marca It’s about passion, a preços módicos, as quais, ao contrário do que o nome indica, nada têm de anglo-saxónicas.

 

Nos fundos da casa, numa saleta de janelas abertas para a Calçada da Patriarca, fica Amélie au Théâtre, espaço dedicado à consultoria de imagem, onde também se pode encomendar roupa por medida e adquirir espumas, pincéis e navalhas de barba da marca Antiga Barbearia de Bairro. Um perfume exclusivo ali à venda tem o nome do jardim próximo, “Príncipe Real”.

 

Ao lado, instalou-se a VLA Records, cujos empregados são todos músicos e a gerente é a fadista Teresa Lopes Alves, que se dedica a promover o talento nacional na área da música, organiza concertos e vende discos de vinil e CD’s assinados pelos próprios artistas. Os discos estão expostos num móvel que tem coladas gavetas das mais variadas proveniências, recuperadas do lixo. Músicos desconhecidos que gravaram um disco podem ali deixá-lo para comercialização.

 

No andar de cima da Embaixada, a Story Tailor apresenta as criações de dois designers portugueses, Luís Sanchez e João Branco, formados pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, que se consideram “escultores” de roupa. A Shoes Closet vende sapatos e botas que aliam um design inovador – e muito bonitos – as materiais tradicionais, tais como botas de cabedal cujos canos são forrados com tecidos artesanais de lã do Alentejo. Muito perto dali, Isabel Mendes e Maria João Dinis comercializam as suas criações em “patchwork” e “crochet”.

 

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Avançando pela galeria do primeiro andar – ao longo da qual se pode ver uma exposição de José de Guimarães -, chega-se à loja Urze, cujas janelas se abrem directamente para o Jardim do Príncipe Real. Ali, tudo é feito de burel, isto é, lã de ovelha, sejam casacos, chapéus, malas ou candeeiros de tecto. Ana David, encarregada da loja, com grande graciosidade, demonstra na prática as várias formas de usar as capas ali à venda.

 

Quem estiver cansado, pode descer ao rés-do-chão e sentar-se e almoçar ou lanchar no restaurante “Le Jardim” – com vista para o jardim das traseiras, confinante com o Jardim Botânico -, que não faz inteiramente jus à ideia de “um low cost de qualidade”, com que se promove junto dos clientes.

 

A Embaixada abriu ao público a 5 de Setembro e as opiniões são unânimes, entre os comerciantes que ali se instalaram: é um sucesso de público. Há muitos turistas estrangeiros, e são estes os que mais compram, de uma forma geral, embora as lojas de estilistas tenham uma maioria de clientes portugueses, referem aqueles com quem o Corvo falou.

 

Clara Teixeira, da Linkstores, recordava o espanto dum grupo de franceses, há dias, ao entrarem na Embaixada. “Não paravam de dizer uns aos outros, ‘isto é diferente de tudo!’”, recorda.

 

O palacete Ribeiro da Cunha é a peça central do projecto promovido pela empresa de gestão imobiliária Eastbanc Portugal, cujo proprietário, Anthony Lanier, um austríaco nascido no Brasil e residente em Washington, decidiu começar a investir em Lisboa, em 2005. O edifício, que foi construído para residência particular, já acolheu a reitoria e os serviços sociais da Universidade Nova de Lisboa e, em 2011/2012, serviu de cenário principal para as filmagens da série francesa intitulada “Maison Rose”.

 

“Decidimos chamar-lhe ‘Embaixada’ porque, por um lado, queremos ser uma embaixada de Portugal junto de quem visita Lisboa e, por outro, proporcionar a jovens empreendedores um espaço de sucesso, focado sobre a portugalidade”, disse ao Corvo Catarina Lopes, directora-geral, da Eastbanc Portugal.

 

Apesar da crise, este desígnio parece, até ao momento, estar a ser cumprido.

 

Texto: Isabel Braga       Fotografias: Fernando Faria

 

  • António Rosa de Carvalho
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    A atitude do promotor no que respeita o Património Arquitectónico, os fabulosos interiores Sec. XIX “ecléctico-orientalistas” / neo hindu/árabe , os materiais e as tipologias/ elementos decorativos, parece ser correctíssima e portanto inteligente na área do investimento com preservaçào total dos interiores … Espera-se que a intervenção no jardim que parece ser correcta, não seja dominada pelo Zum-Zum da maquinaria e se torne parte integrante da vivência do Todo, e nào portan…to num “no place”.Pedagogia inspiradora para “outros” investidores e respectivos Arquitectos ?Estímulo para uma nova clientela que exige Autenticidade Histórica e procura Arquitectos de Restauro ( invísiveis ) e rejeita Arquitectos Afirmativos e demasiado intervenientes ?( assinatura vísivel e destruidora do Património )P.S. Apenas acrescentaria que infelizmente a escolha para o conceito decorativo do Restaurante não foi a melhor … compacto e pesado, sobretudo o mobiliário demasiado escuro, presente e calibrado, enchendo o espaço sem ligeireza e dominando com a sua presença o espaço central …

    A escolha foi de abrir o espaço à sua utilização pública numa filosofia de não intervenção mantendo o seu carácter “patinado” e “shabby chic” intacto, acompanhando assim a “onda/Vintage” que tem sido desenvolvida últimamente no eixo Politécnica / D. Pedro V.A associação imediata é com o malogrado projecto do Palácio Sotto Mayor, mas este no Principe Real, está muito menos isolado e mais apoiado pelas dinâmicas comerciais e sociológicas da envolvente.É sem dúvida positivo abrir este espaço ao Público, acima de tudo pela pedagogia Patrimonial conseguida, mas no futuro, o estado de conservação dos estuques e pinturas decorativas vai exigir do Promotor, sem dúvida, uma Conservação/ Restauro completa, cuidada e profissional. Assim ao utilizar e revelar as maravilhas e riquezas Patrimonias destes Interiores é acrescentada uma responsabilidade futura incontornável ao Promotor e às Autoridades responsáveis pela defesa e gestão do Património Cultural.

    António Sérgio Rosa de Carvalho/ Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

  • André Pereira
    Responder

    Entre nós, o “shabby chic” é muitas vezes sinónimo de falta de capacidade financeira… Discutível foi a cor adoptada para a fachada, o enfadonho branco que mal realça as cantarias do edifício. A onda vintage já enjoa, sobretudo por nem sempre se adequar ao espírito romântico da zona. Veja-se a esse respeito o que sucedeu com os interiores de um palacete em frente do Jardim de S. Pedro de Alcântara, transformado em Hostel…

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