A cada investida de um carrinho, a menina dá gritos e tapa a cara com ambas as mãos. A mulher que a acompanha, uma falsa loura de cabelo frisado, sorri e puxa-a para junto de si, com o braço direito em volta do corpo franzino da criança, enquanto o outro garante a condução. Talvez seja a sua mãe. A vertigem é permanente e excêntrica, com frequentes tangentes e diversas colisões. Algumas são violentas. É inexistente outra lógica aparente que não a concedida pelos espaços abertos por entre o emaranhado de rotas caóticas desenhadas na pista, determinadas pela perícia e pela malícia das mãos ao volante – quando não as duas em simultâneo. A cada sinal sonoro, o movimento pára e, sem perder tempo, saem alguns condutores e acompanhantes e entram outros. Está frio. Mas os risos sobressaem ao barulho.

Duplas de adolescentes maquilhadas, rufias de boné virado ao contrário, um casal de meia-idade que tenta evitar qualquer contacto e faz má cara ante a mínima possibilidade do mesmo vir a suceder ou simples solitários partilham o enorme rectângulo chapeado. A grande velocidade, sempre. Um rapaz decide atravessá-lo a correr em hora de ponta, num estranho bailado de eficaz leveza. Ao chegar ao lado de cá, nota-se-lhe o buço imberbe por baixo do nariz ofegante. Num só gesto, penteia o cabelo comprido. Ainda não acabou de o fazer e já tem em cima de si um segurança alto e de botas militares. O homem pergunta-lhe porque fez aquilo e, sem divisar qualquer resposta sob o som de uma indistinta e metálica malha sonora, dá-lhe um curto sermão. O segurança vira costas e salta para o terreno molhado em redor, juntando-se a um colega. O rapaz fica a contemplar a pista, inexpressivo.

 

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“Carros Super Rápidos”. “Hiper Pista Gigante”. “Música Ultra Sonora”. Os néons lançam promessas sem a convicção necessária. Casais de namorados e grupos de amigos riem, descontraídos, com cara de quem nunca sequer lhes ocorreram os argumentos anunciados nas letras coloridas. Ziguezagueiam sem preocupações, sem pensar no passado ou no futuro. Só há presente. É comum, resume-se àquela pista. Um rapaz mergulha nele, com toda a intensidade. O corpo contorcido e inclinado para a esquerda entrega o seu destino dentro da errática cápsula metálica que conduz à mão direita, nervosa e ágil. A outra, livre, está suspensa à altura da cabeça, os dedos médio, indicador e polegar erguidos, qual Travis Bickle (personagem desempenhada por Robert de Niro, em Táxi Driver) em projecto, mas sem sarcasmo. Nos bancos laterais da pista, um grupo de jovens adultos em fato-de-treino e camisolas com capuz vai enrolando mortalhas e queimando pedras de haxixe. Ninguém parece reparar.

Está frio. Muito frio. Do outro lado do recinto, de piso irregular – uma parte de terra molhada, outra de saibro mal compactado, poças de água e ainda zonas de pavimentos diversos, remanescentes de vivências desconhecidas pela maioria dos que agora andam de carrinhos de choque -, o Palácio das Farturas e o Rei do Pão com Chouriço apresentam uma frequência tão escassa que, por instantes, duvidamos da aristocracia anunciada pelos seus nomes. Pequenos grupos de jovens enregelados deixam-se adivinhar na amplitude desolada do recinto que, até há uma década, foi o espaço permanente da Feira Popular de Lisboa – até que a miragem de uma grande operação imobiliária, ainda hoje embrulhada, se encarregou de lhe decretar o fim. A ocupação revivalista temporária, alargando um pouco a quadra festiva – entre 29 de Novembro e 26 de Janeiro – foi solução encontrada, enquanto não se decide o que fazer ali.

 

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Os prédios em volta, na Avenida 5 de Outubro, em Entrecampos e na Avenida da República, acabam, contudo, por conferir um estranho sublinhado de decadência ao lugar. Reparo nisso enquanto me aproximo do Xangai Club, que permite disparar seis vezes num alvo com uma pressão de ar, por três euros. Quem acertar em pelo menos três tiros ganha uma “bola média ou uma garrafa de vinho”, quem conseguir que cinco dos tiros atinjam o alvo tem direito a escolher um “peluche médio”. Há uma aglomeração em volta de um alvo de cartão, que é conferido pelo feirante e um grupo de amigos. O efeito de um dos disparos não parece ter deixado marcas de clara interpretação e obriga à conferência sob a luz amarela de uma grande lâmpada colocada neste atrelado de camião. O atirador acaba por ganhar uma garrafa de vinho. Os amigos gracejam e todos saem felizes. Os reflexos dos néons enchem de cor as poças de água.

Há zonas mal iluminadas, terra solta, montículos de terra escura e fria. Mas também caras envermelhecidas pela temperatura baixa que, mesmo assim, sorriem. Todo o cenário, aparatoso sem deixar de ser profundamente familiar, remete para uma era pré-internet e para um Portugal como me recordo dele ser por volta da nossa entrada na então Comunidade Económica Europeia. Prevalece um ar de grandeza nunca concretizada. Antes de abandonar o recinto, a tenda do Circo Chen despeja a assistência de mais um espectáculo. Há burburinho, famílias que se espalham. Alguns vão comer. Mães de saltos altos e maquilhagem esmerada tentam evitar os buracos cheios de água, enquanto seguram os filhos pela mão e deixam fugir olhares de sugestão. Velhotes comentam com os netos pormenores do show a que acabaram de assistir. Está um frio terrível.

 

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Texto: Samuel Alemão     Fotografias: Carla Rosado

  • Rosa Félix
    Responder

    excelente!

  • Afonso
    Responder

    De certa forma andamos todos(ou quase todos)numa espécie de montanha russa vai para três anos.

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