A casa de cafés Delícia do Ultramar era uma das três lojas tradicionais que ainda restavam na Rua dos Remédios, em Alfama. No final deste mês, vai mudar-se do número 66, para dar lugar a mais um espaço de restauração. Um exemplo apenas num bairro em rápida transformação, tomado pela crescente ambição de se capitalizar as aparentemente incessantes receitas turísticas.

 

Texto: Rui Lagartinho    Fotografias: Luísa Ferreira

 

É a artéria mais movimentada de Alfama e, nos últimos tempos, a que mais identidade tem perdido. A Rua dos Remédios é o espelho das modificações que o turismo massificado tem imposto aos bairros típicos de Lisboa. Todo o comércio tradicional tem dado lugar a novos bares, tascas modernas, artesanato massificado com símbolos de Lisboa: um corvo, uma gaivota, um galo de Barcelos que por osmose também virou alfacinha, uma reprodução de um eléctrico num saco de pano, um azulejo impresso, um Santo António de plástico cor de laranja.

A história da Delícia do Ultramar é paradigmática: a casa com uma montra ampla do comprimento da loja inteira, recheada de lotes de café diversificado, está aqui desde 1950. Nos últimos doze, na família de Rita Pinheiro, que assegura em conjunto com a mãe o funcionamento do negócio. Já este ano, o prédio foi vendido para dar lugar a alojamento turístico.

 

LISBOA

 

 

A Delícia no rés-do chão vai passar a ser um bar. O caso não é dos mais dramáticos porque as arrendatárias da loja arranjaram um espaço alternativo, uns metros acima, e continuam com energia para lutar pelo negócio. Para já, o principal problema vai ser a mudança do robusto moinho de café, que no centro da loja lembra um marco de correio em versão mais bojuda.

 

“Vamos continuar e tudo se vai arranjar, mas a minha mãe está desconsolada com a perda da larga montra, em que toda a gente reparava”, diz-nos Rita Pinheiro. A montra contava, de facto, com os seus lotes a geografia do planeta café, e ainda nela cabiam as máquinas tradicionais, do balão às cafeteiras italianas.

 

LISBOA

 

Cá dentro, bastava olhar para o tabuleiro da marmelada que aqui ainda se vende avulso, para as cinco qualidades de rebuçados peitorais ou para as côncavas bolachas araruta, para se perceber que aqui ainda se serve tradição. No dia em que o Corvo visitou a Delícia do Ultramar, uma cliente comprava bicarbonato de sódio. Pela familiaridade do trato, não temos dúvida que o hábito de aqui comprar vai passar para a nova morada da Delícia.

 

A dois passos do terminal de cruzeiros de Lisboa, a Rua dos Remédios é a primeira, e muitas vezes a única, montra lisboeta de centenas de turistas que se apressam, em poucas horas, a despachar os souvenirs da escala em Lisboa.

 

LISBOA

 

À noite, a rua é invadida pelos ávidos de fado. O que faz com que os decibéis de uma casa atropelem os decibéis do vizinho, em busca da canção mais típica, e, juntos, infernizem toda a vizinhança com o barulho dos restaurantes e o movimento da rua. Do comércio tradicional da rua, após a mudança da Delícia do Ultramar, restam uma sapataria e um alfaiate.

 

  • Maria de Morais
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    Alfama esta a ficar um pesadelo

    • Mauro Hirle
      Responder

      Força dona Adelina e Rita Pinheiro, tudo vai dar certo, e o novo espaço criado pela MHC, vai ser gigante em vendas. 965614945 Mauro Hirle..

      • Rita
        Responder

        Obrigada Mauro. O espaço está a ficar muito giro graça a vocês.

  • Tuga News
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    [O Corvo] Uma loja de cafés em Alfama entre a tradição e a enorme pressão do turismo http://t.co/ftLlWZ2Ocx

  • herman
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    RT @tuga_news: [O Corvo] Uma loja de cafés em Alfama entre a tradição e a enorme pressão do turismo http://t.co/ftLlWZ2Ocx

  • Ana Carla Lino
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    Eu quero ver é como Lisboa vai ficar quando deixarmos de estar na moda…

  • Paulo Lopes
    Responder

    Quando acabar tudo o que é tradicional, quando os habitantes locais forem expulsos e só restarem hostels e hotéis; bares e restaurantes; lojas de recordações chungas e tuk tuks; que motivará os turistas a vir cá? Verem monumentos e outros turistas?

  • xatoo
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    Uma loja de cafés em Alfama entre a tradição e a enorme pressão do turismo http://t.co/WWhOrSd8Di

  • Pedro Lopes
    Responder

    Amélia Lopes, mãe lá se vai a cevada

  • Rui Gordo
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    São estes artigos que mostram como as pessoas conseguem ser desprezíveis. Há 10 anos atrás lia-se que Lisboa metia medo, era uma cidade fantasma, que às 19h andar na rua era só para malucos, que Alfama era um antro de drogados e bêbedos. Agora temos turismo, temos vida na cidade, comércio a florescer, lojas bonitas, dinheiro a entrar, movimento nas ruas e já está tudo estragado, esses camones que vão para a terra deles…até metem nojo. Até parece pelo texto que deviamos estar cheios de pena dos donos da loja Delicias do Ultramar. Não fossem gananciosos e não saissem de lá, ninguem os obrigou a sair. Quem me dera a mim ter uma loja na Rua dos Remédios…atrasados mentais.

    • MIC
      Responder

      Caro Rui,
      Obviamente não sabe do que fala! Obviamente o papel de treinador de bancada lhe assenta muito bem!
      Alfama nunca foi um sitio de marginais e drogados, existe droga como em qualquer bairro da cidade que muito à conta dos moradores cada vez mais foi deixando de existir!
      Alfama não é um bairro qualquer, alfama é uma aldeia dentro da cidade onde ainda hoje, quem lá nasceu(como eu) e conseguiu por lá se manter tem o privilégio de viver em comunidade, onde a solidariedade e a cumplicidade transpiram.
      O que está a acontecer em Alfama, aconteceu nas capitais europeias, basta ver o caso de Paris, que quem lá vive ou é rico para fazer face a uma renda exorbitante, ou é emigrante e divide a renda com 3/4 amigos, ou é turista e paga à semana e vai-se embora, a lei do aumento das rendas foi a machadada final para que os filhos dos bairros fossem empurrados para fora de Lisboa.
      Com isso perde a cidade, perde o turismo, perdem as pessoas!
      Porque o que os turistas querem ver e sentir é a vida nos bairros, os putos jogarem à bola, as vendedoras de cautelas (ilegais é verdade), a dona Francisca que com 90 anos vende peças de fruta e legumes à unidade (não passa factura, caloteira que tem uma reforma de 300€ e com isto quer ganhar mais 100€/mês para pagar medicamentos, renda, comida, luz, água e ir à bica), a gata Maria à janela ao sol (deve ser a gata mais fotografada de Lisboa).
      Se gosto de ver os turistas no bairro? Adoro! Ajudo-os sempre que por lá aparecem com um mapa na mão meio perdidos!
      Se tenho pena que a loja feche a loja? Claro que tenho, acabando esta loja, ficamos só com o Sr Vasco da sapataria, ficamos com o Sr Carlos barbeiro, ficamos com o Alfacinha do Bruno Romão que mantém a traça original de Alfama!
      Se alguém os obrigou a sair, obrigaram sim! O Brutal aumento das rendas fez com que pequenos merceeiros, associações, alfaiates, retrosarias, cabeleireiros,colectividades tivessem que fechar as portas para dar espaço a bares e tascas.
      Cheira-me aqui que o único atrasado mental aqui é o sr Rui Gordo que debitou palavras sem saber do que fala, sem saber que o grupo de marginais são pessoas de trabalho e são pessoas que gostam e recebem bem os turistas, que se assim não fosse os turistas não atracavam no bairro!

      • Maria de Lurdes
        Responder

        É uma pena, continuam a dar cabo no nosso lindo bairro de Alfama. Só se faz coisas para os turistas. A CML vende património municipal que depois é recuperado para o turismo…Esta casa do café, vai sair de onde está, para aí sair mais uma casa para o turismo e um bar..Descaracterizar o bairro é o objectivo desta gente que manda nesta cidade.

        • MIC
          Responder

          O objectivo é meter os lisboetas na periferia da cidade e os ricos e os turistas a usufruir da nossa linda cidade!
          Nasci no bairro hei-de morrer no bairro!

    • AP
      Responder

      Sr Rui, antes de falar do que não tem a certeza informe-se. Pena não precisa de ter porque vindo de si já deu para perceber que não vem nada de bom e pare de chamar atrasados mentais porque o maior deles deve ser você.
      E os turistas são muito bem vindos à rua dos remédios.

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Uma loja de cafés em Alfama entre a tradição e a enorme pressão do turismo – http://t.co/IXnAEPTdyg

  • Reserva Recomendada
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Uma loja de cafés em Alfama entre a tradição e a enorme pressão do turismo – http://t.co/IXnAEPTdyg

  • João Barreta
    Responder

    Já repararam que é quase impensável “debater” a cidade sem abordar o comércio ? São os mercados, são as padarias, são os sapateiros, são as lojas de tradição, são os barbeiros, são as lojas de café, chás, etc…, são, afinal de contas, todos “aqueles” que fazem as cidades viver e ser vividas !!!!! Bem hajam.

  • Antonio
    Responder

    Tem que se criar benefícios a quem possui estes estabelecimentos a várias gerações. Incentivos fiscais , apoio a não descaracterização destas lojas que pode ser dada por arquitectos da Câmara , sensibilizar para a importância das montras e dar cursos de vitrinismo enfim adiar apoio ao negócio. Fazer mapa que identifique estas lojas distribuído gratuitamente e identificar estas lojas com um autocolante produzido pela Câmara que identifique a sua autenticidade. Isto não tem nada de novo os italianos , e o caso que conheço, já o fez a alguns anos.

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