A hora do acordar é um problema. Acontece-me isto agora, que os anos começam a pesar-me. Porque, antes, acordar era uma alegria. Mal abria os olhos, pensava que o dia me reservava surpresas fantásticas. Podia nem acontecer nada de bom, mas a mesma ideia parva repetia-se no dia seguinte, e no outro, e no outro, incansavelmente.

 

Isso mudou, agora, o alvorecer faz-me fazer contas de cabeça. Cada uma mais deprimente do que a outra. Quantos anos passaram desde que saiu o “Abbey Road”, dos Beatles? Alguém escreveu que foi há 45 anos! E aqueles serões que passei agarrada à televisão para tentar perceber quem matou Laura Palmer já aconteceram há 25??!! Não é possível, mas é a realidade.

 

Pronto, devo estar deprimida, a sensação de borboletas no estômago e coração apertado desaparece se tomar um xanax. Mas se tomar um xanax, nunca mais páro, em breve passam a dois… Ná, é melhor levantar-me.

 

Espreguiço-me o mais longamente que consigo, bebo dois copos de água, e vou tomar um pequeno-almoço muito ajuizado. Uma peça de fruta, um iogurte com sementes lá dentro, um café. Nada de um cigarro a seguir, ui, meu Deus, um cigarro é que era bom, como eu gostava daquele primeiro cigarro. Mas deixei de fumar, desta vez é que é, rilho os dentes e vou para a sala, ver o que a televisão tem para anunciar.

 

As noticias são horrendas, as escolas continuam sem professores, o novo orçamento vai trazer mais austeridade, a pobreza aumenta, os aldrabões importantes continuam impunes e o ISIS avança, há gente a esperar a morte certa…. Espera lá, Isabel, tens muita sorte em não ser uma curda a viver no Norte da Síria, deixa-te de merdas, tem juízo, sacode-te.

 

Sacudo-me. Há um barulho na porta da entrada e a minha empregada Ilda aparece, como todas as semanas, aperaltadíssima, cheia de energia, pronta para quatro horas de azáfama e muita conversa.

 

“Ai, aquele barco, tanta gente enjoada!! E os relâmpagos, ui, metia medo! Depois o 58 não apareceu, isto é uma vergonha, os motoristas juntam-se todos a tomar café, que eu bem os vejo, no Cais do Sodré! Vim a pé, estou encharcadinha, não tinha guarda-chuva, esqueci- me dele aqui, está visto! Ou então foi na casa da senhora de Cascais. Ou talvez em Algés”.

 

Não me lembrava de ver o guarda-chuva da Ilda, um objecto estiloso em tons de vermelho escuro, mas enquanto ela o procurava e trocava o fato de calças e casaco com mala a condizer pela bata que usa no trabalho, eu continuava sentada no sofá, com as borboletas no estômago a desvanecer-se e o aperto no coração a afrouxar.

 

A energia da Ilda contagia-me sempre, que direito tenho eu a uma depressão, quando ela, que é pouco mais nova do que eu, chega aqui vinda do Barreiro, toda contente, depois de se levantar de madrugada e de atravessar o Tejo aos baldões num barco cheio de gente, tendo como perspectiva passar a semana a limpar o lixo dos outros em casas espalhadas por um raio de cinquenta quilómetros? Quer fazer coisas cá em casa, tudo a entusiasma. “Então este ano não fazemos marmelada? Os marmelos que comprou estão a apodrecer”, foi a advertência desta manhã.

 

Não, Ilda, ainda não é hoje que vamos fazer marmelada, não tenho energia para isso. No ecrã de televisão, uma loura muito ataviada aconselha uma mulher com forte sotaque beirão, que se diz diabética e em risco de cegueira, a mudar de médico. “Minha querida, procure outra opinião, conheço um médico de toda a confiança, no final do programa, entrarei em contacto consigo. Entretanto, tem aqui os três pastorinhos, que podem trazer-lhe grandes benefícios, são muito poderosos”, garante, apontando com a unha pintada e pontiaguda para três figurinhas de barro alinhadas à sua frente.

 

Ai, as borboletas no estômago outra vez. Desligo a televisão, tomo um café com a Ilda e vou fazer a minha “toilette” matinal. Ao longe, ouço o ruído daquela espécie de luta que ela trava com a louça, em certos dias, e depois o barulho do aspirador. A campainha da porta toca com insistência. Vou ver quem é, mas a Ilda chegou primeiro e, na nossa frente, está a vizinha de baixo, uma mulher que parece detestar toda a gente e a mim em particular, já que moro por cima.

 

“O que é isto, andam aos saltos em casa? Tenho a tinta das paredes a cair, estou farta de vocês”, vocifera ela. Recorrendo a alguns exercícios mentais que aprendi nas aulas de ioga, peço licença à senhora e fecho-lhe a porta na cara. A conversa entre nós terminou há muito.

 

Esta gente traz-me más vibrações, afinal sou uma “rapariga” dos anos 70, devia mudar de casa, de cidade, já que é tarde para mudar de país, penso, enquanto ajudo a Ilda na tentativa de arrumar em armários já cheios mais um serviço de louça herdado de um tio. Estava guardado em caixotes que atravancavam o corredor, e a Ilda gosta da casa arrumadinha. “Tenho que escolher, ou fica este, da avó X… ou este do tio Y…? Parece-me que é o do tio o mais bonito”.

 

Uma voz masculina ouve-se da entrada. Grave, tensa, vagamente ameaçadora. Ou pelo menos a prenunciar tempestade. “O serviço da minha avó fica, é a única recordação que tenho dela”. Ai, valha-me Deus, não posso fugir a isto. Voltaram os pensamentos mórbidos: vivo rodeada de velhice, a minha casa tornou-se um repositório de casas de parentes que morreram, de quem tenho saudades, é certo, mas não sei o que fazer aos objectos que herdei.

 

Alguns são muito bonitos, e se não os herdasse nunca teria dinheiro para os comprar, mas há aqueles que não servem para nada e que não consigo deitar fora, quadros a óleo pintados por avós e tias sem talento, objectos sem finalidade aparente, mas que eram muito estimados pelos donos.

 

São horas de ir a casa do meu pai, abastecê-lo de medicamentos e comida, pelo menos esse continua vivo, com mais de noventa anos, e, uma vez que precisa de mim, tenho que me mexer. Sacudo a neura matinal, saio para a rua, o sol apareceu, e ponho-me a caminho do Largo do Rato e do supermercado Pingo Doce.

 

Deixo o carro no estacionamento subterrâneo, um espaço muito mal desenhado, por onde é difícil circular incólume, e, quando estou a sair, carregada de compras, sinto que choquei nalguma coisa. Um pilar do estacionamento subterrâneo atravessou-se na minha marcha atrás, não o vi, escondido num ângulo morto, ângulos mortos é o que não falta, naquele horrível parque, que é pago, ainda por cima, e não devia ter licença de utilização.

 

Dou um pontapé irritado num pneu e sacudo a caliça branca da amolgadela, que se junta a outras mais antigas. A mossa já nem parece tão grave, penso nela como uma adaptação do carro às minhas necessidades. É o primeiro pensamento positivo do dia.

 

Sento-me ao volante, ponho-me a caminho de Sete Rios, ligo o rádio e ouço o B.B.King num diálogo amoroso com a sua guitarra Lily. O sol brilha com força, depois de entregar as compras, vou buscar o meu neto à escola, a seguir vamos ver um filme de que gostamos os dois.

 

Enquanto guio, a caminho de Sete Rios, evitando cuidadosamente os buracos mal tapados da Rua de São Filipe Nery e da Rua da Artilharia 1, penso que o mundo verdadeiro se situa algures entre o negrume que me cerca de manhã e a bolha alegre e calorosa em que parece viver sempre o Miguel Esteves Cardoso. Neste momento, estou entre uma coisa e outra. Na realidade. Vou ficar assim por algumas horas, é o melhor que posso garantir a mim mesma. Amanhã é outro dia, só espero que a chuva não volte tão cedo.

 

 

Texto: Isabel Braga            Ilustração: Rute Reimão

  • Gerardo Lima
    Responder

    bom texto! [http://youtu.be/iIr-FFdRzRU]

  • Ana Maria Martins Nobre
    Responder

    Mt bom!

  • Jerónimo
    Responder

    Depressão Lisboeta!!!! Grande texto. Isto sim é saber escrever e a partir de um universo próprio falar sobre a cidade!!! Que arejo no Corvo!

  • Jerónimo Da Cunha Pimentel
    Responder

    Depressão Lisboeta!!!! Grande texto. Isto sim é saber escrever e a partir de um universo próprio falar sobre a cidade!!! Que arejo no Corvo!

  • Gilberto Gustavo
    Responder

    Sai já um copo para a Isabel para ver se ela arriba!!!

  • Maria do céu
    Responder

    Parecia estar a ver-me ao espelho. Mais propriamente a ler-me!! Será masoquismo ou maldade mas fez-me sentir melhor.
    Obrigada Isabel!!
    M. Céu

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