Uma década de Associação Renovar a Mouraria, a organização que tirou um bairro histórico da escuridão

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

19 Março, 2018

Uma década de Associação Renovar a Mouraria, a organização que tirou um bairro histórico da escuridão

A Mouraria tem uma nova cor e devo-o, em grande parte, à Associação Renovar a Mouraria (ARM), que completa dez anos esta segunda-feira (19 de Março). Uma década de trabalho árduo pela reabilitação da auto-estima de um bairro antes marcado pela decadência. O início foi, contudo, encarado com suspeição por boa parte da comunidade – na altura, maioritariamente constituída por portugueses. Desconfiança desaparecida com os resultados do trabalho. Também os imigrantes aprenderam a escrever e a falar português, tiveram acesso a serviços de saúde e a consultoria jurídica. O apoio ao estudo e o curso de português para adultos são dois dos projectos mais marcantes. Em ano de aniversário, e depois de um interregno, regressa o jornal comunitário Rosa Maria. Pretende-se ainda dar ferramentas às mulheres migrantes para facilitar a sua empregabilidade. A Mouradia, a sua sede, é um popular local de peregrinação noctívaga.

“Sei falar nepalês, indiano e um pouco de inglês. Tenho de melhorar o português para escrever uma carta ao meu pai. Quantos dias faltam para o Dia do Pai?”, pergunta Jéssica Gautam, oito anos, enquanto faz um rascunho de uma missiva para o pai, a viver no Nepal. Jéssica é uma das dezenas de crianças que frequenta o apoio ao estudo, um dos vários projectos da Associação Renovar a Mouraria (ARM), que completa dez anos esta segunda-feira, dia 19 de Março. A organização sem fins lucrativos tirou o bairro histórico da Mouraria do esquecimento, dando-lhe uma nova vida e ajudando a integrar as comunidades migrantes de mais de cinquenta países.

A sede da associação, a Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria, encontra-se num edifício no Beco do Rosendo, requalificado em 2012. Ali, há dois espaços, um mais centrado na formação e actividades pedagógicas e, outro, de cafetaria, com gastronomia de diversas partes do mundo, música ao vivo e cinema. Durante a semana, ao final da tarde, decorre o Apoio ao Estudo, que resulta de um aperfeiçoamento do programa Casa de Férias – um conjunto de actividades realizadas durante o período de interrupção escolar dos mais novos, nascido em 2012. “Nas férias, levávamos os miúdos para fora do bairro, para conhecerem outras realidades. Mas eles começaram a aparecer com livros da escola e com dúvidas e percebemos que fazia sentido serem acompanhados durante o ano lectivo”, explica Almudena Ferro, 26 anos, responsável por este projecto, que integra 39 crianças e jovens, entre os seis e os dezoito anos, e mais de 40 voluntários.

O Corvo assistiu a uma dessas aulas, a um final de tarde de uma segunda-feira. Enquanto uns começam a abrir os livros e outros esperam pelos tutores, a movimentação da sala aumenta. Ao lado de Jéssica, está Prayash Adhikari, oito anos, que, tal como a colega com quem partilha a secretária, vem do Nepal. Tatiana Gomes, 36 anos, é a sua tutora. “Comecei este ano como voluntária e estou a gostar muito de lidar com o Prayash, porque sinto que aprendo muito com ele. A forma de estar dele e a vontade de aprender é diferente, está sempre a desafiar-me”, confessa. Prayash escreve com dois lápis ao mesmo tempo, enquanto se vai vangloriando dos seus conhecimentos. “Falo quatro línguas, português, inglês, indiano e nepalês”, diz prontamente. “Quer dizer, ainda estou a aprender inglês…”, corrige de seguida, entre risos. Tal como Jéssica, diz que antes prefere estar na Associação Renovar Mouraria do que em casa. “Gosto mais de estar aqui, a fazer os trabalhos de casa, é mais divertido”, conta.

Ao lado, Atit Pokharel, 13 anos, está a conjugar alguns verbos em voz alta. Veio do Nepal há dois anos e ainda não fala bem português. De olhar atento, vai comentando com alguma timidez as observações da sua tutora. Só quando lhe perguntamos se gosta de Portugal é que o sorriso surge facilmente. “Gosto mais de estar aqui, há mais pessoas”, explica, soletrando cada palavra, como é próprio de quem está a aprender uma língua nova.

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Sushil Jugjali, 15 anos, anda a viajar pelo globo numa das páginas do seu livro de geografia. “É possível falar todas as línguas do mundo?”, pergunta ao tutor, que é apanhado desprevenido. “Acho que todas é impossível, são muitas”, responde o voluntário, Carlos Proença. “A Rússia tem uma população muito grande, não tem? Portugal é um país de famosos e, na Rússia, também há pessoas conhecidas?”, continua. Sushil faz muitas perguntas, mas também dá muitas respostas. “Normalmente, os nepaleses falam indiano, porque vemos filmes indianos desde pequenos”, explica. Apesar de saber falar três línguas, diz que o português é a que está a dar mais trabalho. “A gramática de português é muito difícil”, desabafa.

A viver há quatro anos em Portugal, sabe porque não quer voltar a viver no Nepal. “O Nepal é muito diferente de Portugal, não tenho saudades de nada. Quero ser feliz aqui, com a minha mãe e o meu pai. Quero aprender muitas coisas porque, quanto mais souber, mais coisas posso fazer, não é?”, questiona, como se já soubesse a resposta.

Almudena explica que este projecto vai muito para além de “um apoio ao estudo”. “Não queremos só ajudá-los nos trabalhos de casa, mas que encontrem aqui um espaço mais descontraído, onde há tempo para brincar, discutir ideias, e outras coisas que não acontecem numa sala de aula”, explica. “Dependendo do seu perfil, capacidade e paciência, percebemos qual é a pessoa certa para cada um dos miúdos. A ideia é que se crie uma relação de confiança entre os dois, pois só assim o voluntário percebe as suas necessidades e vulnerabilidades, se apresenta dificuldades de concentração e a própria dinâmica familiar. Muitos não têm acompanhamento da família e ainda há quem não saiba falar português”, esclarece.

Das quarenta crianças que o apoio ao estudo recebe, quase metade são emigrantes, vindas do Nepal, Bangladesh, China, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Brasil e Reino Unido. Mas também há portugueses, como é o caso de Rafael Martins, 12 anos, que vive na freguesia de São Vicente. Frequenta a sala de estudo há três anos e, desde aí, o aproveitamento escolar tem aumentado. “Antes, odiava matemática e, depois de vir para aqui, passei a gostar. No 5º e 6º anos, só passei à disciplina graças à explicação, ajudaram-me muito e as minhas notas subiram”, conta, entusiasmado. “Se em casa tiver uma dúvida, ninguém me ajuda, estou sozinho. Aqui, tenho uma pessoa só para mim, que me pode explicar a mesma coisa milhares de vezes, até eu perceber. Sinto que me querem mesmo ajudar, ao contrário dos professores, que explicam sem motivação nenhuma e estão sempre chateados connosco. Aqui é mais divertido”, explica, ainda, Rafael.

A responsável do projecto diz que este ganhou outras proporções por não haver no bairro nenhuma alternativa gratuita. “As pessoas procuram-nos muito por ser gratuito. Damos prioridade aos moradores, mas qualquer pessoa se pode inscrever. Temos crianças da Amadora e, como é para todas as idades, já temos muitos jovens a estudarem para os exames nacionais”, explica Almudena.

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Enquanto as crianças se despedem dos tutores e abandonam a sala, cruzam-se com os novos ocupantes do espaço de estudo, jovens adultos que vieram para o curso de português para adultos. A sala muda rapidamente de configuração e são os próprios alunos que juntam as mesas em círculo, anteriormente utilizadas pelas crianças e afastadas de forma a garantir um acompanhamento mais individual. Seguem-se duas horas com um objetivo bem diferente: ensinar português a quem quer ter mais oportunidades no país que escolheu para viver.

Sadia Javed, 28 anos, é médica e veio do Paquistão. “Se não soubermos falar português, não somos nada. Estou muito grata à associação, aqui as pessoas não nos criticam, ajudam-nos. Do Paquistão, só sinto falta do meu pai e da minha irmã”, diz, num inglês fluído. Na cadeira ao lado está Swamy Herrera, 23 anos. Veio da Venezuela e está há três meses em Portugal. Já fala português, mas ainda tem receio de dizer algumas palavras. “Hoje, quando saí de casa, uma vizinha perguntou-me se não falava. Fiquei envergonhada. Quero mesmo aprender a falar correctamente português”, explica. “Vim para cá, porque na Venezuela as coisas estão muito más. A associação tem-me ajudado muito”, desabafa, ainda.

Mohammed Hosen, 27 anos, veio do Bangladesh chegou em 2016. “Gosto muito de Portugal, é um país tão pacífico. Não há problemas com os imigrantes e os nossos direitos são reconhecidos. As línguas são muito importantes, porque nos permitem ter mais oportunidades, mesmo no trabalho”, explica.

A Associação Renovar a Mouraria nasceu a 19 de Março de 2008, da vontade de um grupo de nove pessoas empenhadas em inverter “um círculo negativo” que se arrastava há muito, esclarece a sua presidente. Sensível à situação do bairro onde vivia, Inês Andrade, juntamente com um conjunto de amigos e moradores deste núcleo histórico de Lisboa, formou o então movimento Renovar a Mouraria – que hoje conta com 300 sócios – para “desmistificar o estigma negativo de que aquele era um bairro perigoso”. A formalização da associação veio mais tarde. As maiores resistências surgiram quando começaram a falar sobre o projecto com a comunidade. “As pessoas ficaram muito desconfiadas. Começaram a perguntar-nos o que queríamos com isto e tivemos dificuldades em que percebessem que não éramos políticos a fazer promessas. Tudo isto ultrapassou-se à medida que foram conhecendo o nosso trabalho e percebendo que o nosso objectivo era outro”, conta.

Depois de reunir as assinaturas necessárias para uma petição reclamando uma intervenção urgente no bairro, o movimento foi convidado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) a desenhar um projecto de regeneração do bairro. O desafio foi aceite. Começou um longo caminho de trabalho árduo e muitos sonhos concretizados. “As comunidades imigrantes estavam mais desprotegidas dos apoios públicos e conseguimos muitos resultados a nível das regularizações, do ensino do português e do acesso à literacia e à cultura”, congratula-se. Os apoios financeiros, contudo, ainda são escassos para o que ambicionam fazer e nem sempre têm resposta para todas as solicitações. “Há projectos que ficam de fora. Há dezenas e dezenas de pessoas a pedirem para aprender português, mas é um grande esforço de financiamento”, explica.

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A ARM vai respondendo, entretanto, a necessidades mais imediatas da comunidade, como a regularização da situação dos imigrantes no país, o encaminhamento para os serviços de saúde e a garantia do apoio jurídico. Pontualmente, organiza workshops, sessões de documentários, jantares e almoços temáticos, concertos, entre outros eventos. É na cafetaria, um dos locais de encontro mais populares naquela zona da cidade e a principal fonte de financiamento da associação, que decorrem muitas destas actividades. Há, ainda, um jornal comunitário, o Rosa Maria, que depois de um período de interregno regressa este ano.

“O jornal foi um dos nossos primeiros projectos e vamos voltar a fazê-lo num novo modelo, muito voltado para a participação das comunidades migrantes na sua elaboração”, revela. Mas há mais novidades. “Um dos novos projectos é uma parceria com vários países europeus onde as comunidades migrantes têm uma forte representação. A ideia é ‘empoderar’ mulheres migrantes, dando-lhes ferramentas para a empregabilidade e trocar experiências com esses países”, anuncia, enquanto olha para as ideias escritas em folhas de papel brancas, numa das paredes da sala de estudo.

A presidente da ARM diz que é “indiscutível” que, hoje, olha-se para o bairro e tem outra cor. “Era um bairro cinzento e não podia continuar assim. Em 1999, a Mouraria tinha muitas habitações devolutas. Era um deserto, andar à noite na rua era um bocadinho assustador. Era um bairro com uma série de problemáticas sociais, desde o tráfico e o consumo a céu aberto de droga, famílias destruturadas, ruas muito sujas e pobreza. A Mouraria nunca tinha tido uma intervenção a nível de reabilitação e o comércio local estava à beira da falência”, recorda.

“Agitámos as águas e conseguimos um bairro diferente, com as consequências quase inevitáveis da melhoria das condições de vida da comunidade. O projecto ultrapassou-nos e não conseguimos controlar o seu crescimento, que cresce mais do que aquilo que estamos há espera cada ano”, explica. Por isso, diz, o futuro “é sempre uma grande incógnita”. “As mudanças são tão rápidas que não sabemos o que aí vem. É muito difícil fazer um planeamento a médio prazo, porque acontecem sempre coisas inesperadas que nos fazem ter de rever muitas das nossas actuações. Gostávamos de aprofundar este trabalho com a comunidade, com um contacto mais próximo, e potenciar mais as áreas do comércio e da actividade local, que estão interligadas”, ambiciona.

Inês realça, contudo, que este é um trabalho que “não tem fim”. “São precisas horas e horas de conversa com cada pessoa para perceber as diferenças culturais e criar confiança. Já sentimos muitas diferenças nas novas gerações, que acolhem os imigrantes de outra forma. Os mais velhos ainda têm algumas resistências, mas é normal. É um processo complexo, pode demorar décadas. Mudar uma pessoa demora mais tempo do que mudar um edifício”, diz, entre sorrisos. “Queremos desenvolver projectos que fidelizem as relações humanas. Às vezes, na correria do dia a dia, não conseguimos dar a atenção que o outro precisa. Sentimos que queremos andar e temos as pernas presas porque há falta de recursos e tempo para fazer algo mais aprofundado. É um trabalho que exige muita gente e pessoas preparadas e não é fácil encontrá-las”, considera.

No bairro lisboeta de tradições antigas, como o fado e os santos populares, co-habitam cinquenta nacionalidades diferentes. Esta multiculturalidade, contudo, não impede que a história se perca. “Procuramos sempre manter a autenticidade de um bairro popular e acho que conseguimos, contribuindo para uma convivência mais construtiva”, concluí.

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • E. Maria
    Responder

    Muito boas noticias e muito bom artigo. Parabéns!

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