José Garcia tem 74 anos e trabalha como amolador na loja aberta pelo pai e o tio, há mais de seis décadas. Facas, tesouras e chapéus-de-chuva estão em boas mãos ao entrarem no mais antigo estabelecimento comercial de Alvalade, a Boa-Ideia. No Dia do Trabalhador, O Corvo dá voz a um galego que nunca fez outra coisa.

 

Texto e fotografias: Cláudia  Silveira

“Quando chove, há muito trabalho, mas agora que está bom tempo já ninguém vem buscar”. José Garcia refere-se aos chapéus-de-chuva pendurados e alinhados atrás do vidro do armário, cada um com o respetivo papelinho que identifica o dono. Está de volta de um chapéu-de-chuva preto, grande, cuja ponta foi colocada no buraco do tampo de um banquinho de madeira, que por sua vez está em cima de outro banquinho. Esta espécie de equilibrismo permite-lhe trabalhar numa das varetas que precisa de arranjo. Move-se lentamente à volta do trabalho, parando de vez em quando para responder às perguntas.

 

Foi em 1951 que o pai e o tio, galegos de Orense, abriram a loja Boa-Ideia – Oficina de Amolador e Conserto de Guarda-Chuvas, na Rua Acácio Paiva, em Alvalade, numa altura em que a zona ficava ainda distante da cidade. A família morava em Campo de Ourique. Recorda que para chegar à loja “eram 7 tostões de carro elétrico”. Tiveram sorte em conseguir o espaço, porque o senhorio dava preferência a quem alugasse também um andar no prédio. “Isto era muito longe, ninguém queria vir para aqui”. Valeu-lhes que a florista que antes habitou o espaço não teve sorte com o negócio e foi-se embora.

 

Os dois irmãos galegos abriram também a Casa Garcia, na Avenida Almirante Reis. Foi lá que se estreou ao balcão, nas amolações e reparações de guarda-chuvas e sombrinhas, distinção feita entre o objeto usado pelo homem e o que protege a mulher da chuva. Depois, quando o pai morreu – jovem, aos 45 anos – e o tio se “foi embora para casar”, ele e o irmão tomaram conta do negócio. Calhou-lhe a loja de Alvalade, que agora “deve ser a mais antiga do bairro”.

 

O negócio mais estável é o de amolar, que dura todo o ano, enquanto a reparação dos chapéus é procurada apenas durante três ou quatro meses, dependendo dos humores do São Pedro. “Este ano foi bom, mas em 2011 foi fraco, choveu pouco”. Além disso, a reparação de um guarda-chuva pode ir até aos 10 euros, o que leva a considerar se vale a pena ou não. Felizmente para José Garcia, ainda há muita gente a achar que sim. “São chapéus bons ou às vezes as pessoas têm estima por eles”, justifica.

 

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Durante os cerca de 90 minutos que estivemos na loja, meia-dúzia de pessoas entrou: para levantar um chapéu que ficara a arranjar, para deixar uma sombrinha, para afiar uma faca, um alicate de unhas. Uma cliente que levava um alicate de cortar relva todo enferrujado foi aconselhada a comprar um novo. Tesouras, alicates, lâminas, ferramentas de corte, são todos objetos que José Garcia leva à pedra de amolar. Há até um conceituado cirurgião plástico da praça que lá leva os bisturis quando começam a cortar mal.

 

Por outro lado, também há coisas que não faz, apesar de ter as ferramentas, como furos no cabedal: “Para isso, vão ao sapateiro”. E, ali mesmo no bairro, há vários, depois de terem estado extintos durante alguns anos. Recentemente, surgiram novas lojas, restaurantes, que têm permitido a Alvalade manter a sua atmosfera de bairro e onde se pode ir quando precisamos de algum serviço mais fora do comum, na certeza de o encontrar.

 

Lojas iguais à sua restam poucas em Lisboa. Lembra-se de uma em Campolide, outra nos Anjos. E os amoladores que percorriam as ruas de bicicleta ou de mota e atraiam os clientes com o som inconfundível da sua gaita, esses praticamente desapareceram. “99% eram da Galiza”, proclama. A “Guerra de 36”, como se refere à Guerra Civil espanhola, atingiu de forma particularmente violenta (e prolongada) a Galiza e levou ao exílio milhares de pessoas. Muitos vieram para Lisboa, na peugada de outros que já tinham vindo antes, fugidos à pobreza.

 

Quando os seus pais apanharam o comboio para Lisboa, José Garcia tinha três anos e a mãe estava grávida do irmão. Lá viviam da agricultura, mas o pai já andava, de caixa às costas, pelas terreolas a amolar facas e tesouras. “Entre 1945 e 1950, foram anos difíceis, não se passava fome porque toda a gente tinha o seu pedaço de terra, mas foi complicado”.

 

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Voltando aos amoladores ambulantes, José Garcia tem uma teoria que explica o seu desaparecimento das ruas das cidades portuguesas: “O governo espanhol deu-lhes 700 euros de reforma ou lá que foi, sem terem descontado, e foram quase todos embora para Espanha”. Esse não é o seu plano. Aos 74 anos, nunca pediu a nacionalidade portuguesa – “tinha mais vantagens do lado de lá e se calhar nem ma davam” –, mas também não pretende voltar quando parar de trabalhar. “Aquilo lá, no Inverno, são seis graus abaixo de zero, não há manta elétrica que resolva”. Assim, vai duas ou três vezes por ano ver os parentes e pronto. Porque a família, os quatros filhos, esses nasceram cá e “alguns” até já têm a nacionalidade.

 

A meio da conversa, um despertador toca. São 11 horas. Horas de tomar mais um comprimido para manter dominada a doença de Parkinson, que lhe diagnosticaram há 10 anos. No princípio foi difícil, os tremores das mãos não lhe permitiam segurar com firmeza nas ferramentas e os das pernas demoravam-lhe o caminho de casa. Agora, e desde que não se esqueça dos comprimidos, está controlado. Mesmo assim, admite que já não faltará muito para fechar a porta.

 

Depois disso, nos dias de tempestade e vendaval, quando as ruas de Lisboa se enchem de guarda-chuvas (e sombrinhas) que já ninguém quer, resta-nos ficar a pensar se nas mãos de José Garcia não poderiam ainda servir para mais uns Invernos.

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