Dantes, e não estou a falar no século XII, o Natal era uma festa que se realizava em finais de Dezembro e começava a ser preparada no início do mês. Hoje em dia, em Outubro, quando ainda faz calor e há gente que continua a ir até à Costa da Caparica tentar tomar o último banho da época, já magotes de gente ansiosa percorre os centros comerciais fazendo contas de cabeça a olhar para botas e casacos forrados de pêlo, arrastando filhos recalcitrantes para fora das lojas que exibem as últimas novidades em jogos electrónicos, e casais discutem escadas rolantes acima e abaixo sobre o que dar a quem.

 

Dantes, continuo a falar desses tempos antigos, nenhuma criança com mais de cinco anos de idade acreditava que o Pai Natal percorria os céus num trenó carregado de presentes. Havia apenas a ideia de um Menino Jesus transido de frio que descia pelas chaminés e deixava um presente – um – no sapatinho dos que se se portassem bem. As ruas também eram mais escuras e não havia a cada esquina anúncios a explicar que, para pertencer à raça humana, “você” é obrigado a adquirir determinado objecto, seja o que for.

 

Não, não estou a falar da vida quotidiana no século XII, mas do que acontecia apenas há algumas décadas atrás, numa época em que as famílias disfuncionais – que sempre existiram – não aproveitavam tanto como hoje a época natalícia para inundarem os filhos de presentes tentando compensá-los assim do que não conseguiam fazer por eles ou com eles no resto do ano.

 

Em resumo, o Natal tornou-se numa das épocas mais stressantes do ano, mais esgotante do que alegre, e muita gente sente-se aliviada no momento em que os perus regressam ao seu estado natural de fatias embaladas em plástico, em que podem despejar pela retrete abaixo os “gels” de banho com cheiro exagerado a morango que receberam de presente, e em que adquirem a certeza de que só daí a um ano serão obrigados a conviver com certas pessoas da família.

 

Releio o que escrevo, reconheço-me nalgumas destas reacções, e sinto-me triste por o Natal ter perdido, para mim, uma boa parte da sua magia. As leis naturais da vida explicam quase tudo, envelheci, já não acredito no Menino Jesus, não recebo presentes se me porto bem, algo que, para dizer a verdade, não sei bem o que quer dizer, e, acima de tudo, já não faço um presépio no Natal.

 

E é disso que tenho saudades. Não exactamente de fazer presépios, mas de ter com quem fazer presépios. É que não se pode fazer um presépio sozinho. Um presépio em condições faz-se com os irmãos ou com os amigos, ou todos juntos.

 

Quando eu era criança, fazer o presépio era a parte mais importante do Natal, e as condições necessárias para isso estavam reunidas na minha casa. Havia um plano e havia um chefe, o meu irmão Zé que, aos oito ou nove anos de idade, era já o engenheiro em que se tornou mais tarde: organizado, metódico, inventivo. Começava a desenhar os planos do presépio semanas antes do Natal e conhecer esses planos implicava estar de boas relações com ele. Ficar excluído do segredo era verdadeiramente doloroso, por isso, tínhamos muito cuidado para não o irritar nesses dias.

 

Os presépios do Zé enchiam um vão de uma janela com três metros de altura e outro tanto de largura, envolviam água corrente que corria por um ribeirinho que fazia mexer uma nora. Tinha luzes que acendiam e apagavam e um sem número de pormenores que demoravam horas a descobrir. Nós, as raparigas, só tínhamos licença para mexer no Menino Jesus para o embrulhar em paninhos, porque nos preocupava ele estar nu no seu berço de palhinhas.

 

Todas as manhãs, antes do Natal, o Zé, ainda de pijama, de lápis na mão e sobrolho franzido, fazia medições, endireitava os pequenos caneiros que desciam as encostas de musgo até ao grande lago onde nadavam patos numa água que ele fazia tremelicar não sei por que artes. A preocupação com o funcionamento de todo aquele mecanismo despenteava-lhe a melena que estava quase sempre em pé, e nós, as irmãs mais novas, contemplávamos aquela preocupação respeitosamente, a alguns passos de distância.

 

Já não faço presépios com o Zé há muitos anos. Mas todos os Natais falamos, a rir, dos planos escondidos, da tirania do engenheiro-chefe, do choro de quem ficava excluído dos segredos. Este ano, pela primeira vez, no nosso Natal, não se falou em nada disso. É que o Zé não estava lá, connosco, pela primeira vez, foi-se embora uma semana antes do Natal. Vi-o antes de desaparecer para sempre. Tinha a melena levantada, como naqueles dias em que os planos do presépio o stressavam. Tentei alisar-lhe a melena com a mão, até ele ficar fora do meu alcance, mas não consegui. Ele parecia calmo, sem stress. Deixei-o ir, sem conseguir ver bem para onde estava a ser levado. Eis a razão pela qual os presépios deixaram de ser importantes para mim.

 

Texto: Isabel Braga

 

  • Maria Papoila
    Responder

    <3

  • Margarida Noronha
    Responder

    <3

  • João Tabarra
    Responder

    Texto bonito… mas no meu “antes” raramente se fazia presépio… porque respeito a quem tenha essa fé, nós tinhamos uma grande percentagem de ateus.. mas sinto falta de ir ao Rei dos Livros e outros Alfarrabistas comprar livros muitas vezes embrulhados em jornal e sinto falta daqueles que os acolhiam em novas leituras e acarinhavam… continuo a fazer mas jà só tenho 2 ou 3 pessoas na familia que entendam o acto de oferecer um “simples” livro usado…:(

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