O Corvo continua a sua série de visitas aos ateliers de artistas que salpicam a cidade de criatividade. Desta vez, fomos conhecer a ilha lisboeta onde trabalha e vive o pintor Jorge Martins.

 

Texto: Rui Lagartinho   Fotografias: David Kong

 

Quem se sente confortável a conjugar hábitos afrancesados nunca dispensará o verbo flaner , um predicado que os franceses transformaram em atitude de vida.

O passeio despreocupado, sem destino nem rota traçados, pode ser praticado de forma regular no planalto que é o bairro de Campo de Ourique. E quem estiver atento pode descobrir, por acaso, uma pequena ilha de ateliers de artistas, que é uma das suas imagens de marca. Estão aqui desde os anos quarenta do século passado, quando o arquitecto Cristino da Silva os concebeu.

Foi para aqui que Jorge Martins escolheu vir, quando decidiu, em 1991, que queria ter um espaço para pintar em Lisboa. Para trás ficaram anos os anos parisienses, que começaram por ser de exílio político e que, depois, se transformaram escolha voluntária para viver e trabalhar.

Em Lisboa, instalou-se já com obra feita, admirada e estimada pelo público e pelos seus pares. Por isso, nestes vinte anos que aqui passou, ofereceu-se a si próprio pequenos luxos. Pinta e desenha quando e como quer: “Não tenho muitas rotinas. O meu  trabalho continua muito desorganizado e sem horários definidos, embora goste cada vez mais de trabalhar de manhã. Essa tendência, esse hábito, ganhei-o em Portugal, em França gostava mais de trabalhar à noite.”

 

J Martins (2)

 

A casa e o atelier estão separados por cinco metros. Mesmo assim, se pudesse, o pintor juntava-os, transformava o seu arquipélago numa ilha. Não por que lhe agrade ser ermita, antes por uma questão “de comodidade”.

É um atelier arrumado e com as águas bem separadas, em baixo uma zona de armazém, em cima local de trabalho. Há uma ordem e um arrumo impecáveis, mas acolhedores: “O caos não me convém, gosto de ter as coisas arrumadas. Neste momento, estou é já um pouco apertado de espaço. “É também no primeiro andar que se alinham, não longe dos pincéis, centenas de discos de música clássica. Muito Mozart, muito Schubert, barrocos de todas as geografias europeias, várias integrais por diferentes pianistas, vários ciclos sinfónicos.

Não há dúvidas, Jorge Martins é um genuíno melómano. A música acompanha-o na solidão criativa: “Agrada-me a ideia de ser um pintor amador, no sentido em que recusei a mim mesmo dar-me um ar profissional, cercado de colaboradores à espera de receber instruções. Aborrece-me lavar os pincéis e arrumar facturas, mas esse é o preço a pagar para trabalhar ao meu próprio ritmo. Gosto de discutir ideias, escutar opiniões, convencer os outros, deixar-me convencer, mas depois prefiro decidir e estar sozinho.”

Lá no fundo, dizemos nós, há uma certa ideia de exílio que plasma uma certa soberania do destino, uma consolação transformada em privilégio, que não desaparece facilmente.

Uma vida tranquila, sem urgências: “Nunca deixei de ir a uma almoçarada ou uma jantarada para ficar a pintar. É um luxo que me ofereço.”

 

J Martins (1)

 

Por estes meses, Jorge Martins resolveu oferecer-se a si uma cura: “Geralmente, pinto e desenho sem planificação. O ano passado, contudo, houve uma indigestão de desenho, com várias exposições em Portugal e em Paris. Por isso, este ano, estou a tentar voltar mais assiduamente à pintura: à tela, à cor e aos formatos grandes.”

A Primavera promete, por aqui, dar muitos frutos: “Não gosto de trabalhar com muito calor, nem com muito frio. Também por uma questão prática: com o calor, os óleos secam muito depressa.”

  • Juliana Alves
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    Adoro os trabalhos do Jorge Martins, acho esse artista um ícone da arte contemporânea portuguesa.

  • Adriana
    Responder

    Jorge Martins é um dos magos da pintura portuguesa e internacional!

  • joão Pedro
    Responder

    Grande artista!

  • Rui Matos
    Responder

    O melhor dos melhores da arte portuguesa e internacional!

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