Há 32 anos, vivi um primeiro de Maio que se saldou na vitória de uma trabalhadora, eu própria, que dei à luz um belo rapaz.  Também aprendi várias lições de vida, que é preciso sorte para tudo e que nem todas as tias são de fiar.

 

Texto: Isabel Braga   Ilustração: Joana Martins de Carvalho

 

No dia 30 de Abril de 1981, eu não tencionava ir a nenhuma manifestação no dia seguinte, pois a minha enorme barriga de grávida quase me impedia de andar. Na época, festejar o 1º de Maio ainda era praticamente uma novidade para os portugueses, que só foram autorizados a fazê-lo no 25 de Abril de 1974. Nessa data, o país conquistara a liberdade de expressão mas, ao nosso dispor, não estavam ainda coisas hoje consideradas essenciais ao bem estar, como a anestesia epidural ou as fraldas descartáveis.

 

É fácil de imaginar que, quando o parto se aproximava, uma grávida sentia-se como à beira de um precipício do qual só podia escapar mergulhando numa água desconhecida. Quanto às fraldas descartáveis, faziam falta, muita falta mesmo. Para dar uma ideia da trapalhada que era a vida sem elas, lembro que havia um livro muito popular entre as jovens mães, escrito por um médico dos Estados Unidos, o Dr. Benjamin Spock, que aconselhava a ter em casa um balde de plástico com tampo, cheio de água com detergente, para mergulhar as fraldas depois de esvaziadas dos conteúdos mais sólidos…

 

Parecia verão, naquele dia 30 de Abril de 1981, o sol dissipara os meus receios e eu e o pai da criança decidimos ir almoçar a Cascais. Comemos uma lauta feijoada que mal tive tempo de digerir pois logo comecei a sentir aquelas dores inconfundíveis, a intervalos regulares, que anunciavam que o parto estava próximo. Fomos ver o médico que me acompanhara na gravidez e que era simultaneamente director de serviços na Maternidade Alfredo da Costa, onde eu iria ter a criança.

 

Por ingenuidade, ignorância, estupidez ou tudo junto, estávamos convencidos de que o médico não me iria deixar sozinha na hora do parto, julgávamos mesmo que era isso que ele queria dizer quando respondia aos meus receios com um “não se preocupe, não se preocupe”, acompanhado de um sorriso bondoso. Mas tal não aconteceu, ele pôs-se ao fresco, mas tranquilizou-me: “Só estou de serviço no domingo. Vai correr bem. Boa sorte”.

 

Foi, portanto, muito inquieta que, cerca da meia-noite do dia 30 de Abril, uma quinta-feira, fui transportada até às urgências da Alfredo da Costa pelo inquietíssimo pai do bébé, rapidamente expulso pelo pessoal de serviço Sentia-me um ET num planeta hostil, nunca fora ali a consultas e ninguém perdia tempo a tentar ser simpático. sequer. Examinaram-me, disseram-me que tinha meia dilatação feita, mandaram-me largar a mala com as minhas coisas e vestir a roupa desinfectada que me estavam a apresentar, um roupão de nylon azul forte cheio de manchas com um forro branco a sair por todos os lados e chinelos vários números abaixo do meu, um de cada cor.

 

Cerca das duas da manhã, vestida como um espanta pardais e cada vez mais apavorada, desci para aquilo que ainda recordo hoje como a antecâmara do Inferno: um corredor subterrâneo, de azulejos e tecto baixo, com cubículos dos dois lados, donde saíam gritos e gemidos. Perguntei à funcionária que me acompanhava, arrastando os pés, onde estavam os médicos. “Médicos!? O médico é só um e vai agora jantar”. Vi passar um homem de óculos, novo ainda, de calças e camisa brancas, a caminho da saída, e rezei para que não se demorasse muito. Meteram-me num cubículo ao fundo do corredor e mandaram-me deitar numa das duas marquesas que lá estavam. As dores tinham-me passado completamente, não sei porquê, e ali fiquei, à espera que aparecesse alguém.

 

Subitamente, um grande estardalhaço quase me fez pular da marquesa abaixo. Uma rapariga grávida vinha a chegar, numa cadeira de rodas empurrada por duas enfermeiras muito apressadas. Ajudaram-na a deitar na marquesa que estava livre e começaram a afadigar-se à volta dela enquanto falavam sem parar. Pela conversa, percebi que uma era tia da parturiente, que estava de serviço numa enfermaria da maternidade, bem longe dali, julgo que tinha algo a ver com neonatologia, que o seu turno acabava às oito da manhã, e que, até às sete, queria fazer o parto à sobrinha e regressar, sem dar nas vistas, ao seu posto. Portanto, vá de despachar.

 

O espectáculo era dantesco. A parturiente suava, gemia e gritava, as duas mulheres empurravam-lhe a barriga para baixo, com as duas mãos, quase que se deitavam sobre ela, davam-lhe injecções umas atrás das outras, protestavam com a demora, o tempo ia passando e o bébé recusava-se a nascer.

 

Dei por mim a limpar o suor da pobre rapariga, a fazer-lhe festas no cabelo, a dizer palavras de consolo e a pensar na sorte que tinha por não me ter calhado uma tia assim. A certa altura, julgo que o tempo se esgotara para as duas enfermeiras, que deram o trabalho por terminado. Não percebi bem o que tinham feito, porque decidira não tirar os olhos da cara da mãe, que parecia meio desmaiada. Sei que não se ouviu o choro do bébé e que a rapariga e o filho foram retirados na própria marquesa onde tudo acontecera.

 

Voltei a ficar sozinha, incapaz de sossegar, mas deitada, a ver o dia amanhecer através de uma pequena fresta e a ouvir os gritos em volta. Uma mulher berrava impropérios contra o marido, dizendo que era ele que devia estar ali, outra dizia que um tal João nunca mais lhe havia de tocar com um dedo, outra ainda debitava asneiras daquelas de caserna, enquanto o sol nascia lá fora e todos pareciam ter-se esquecido de mim. Seriam umas seis da manhã quando uma enfermeira, que eu já vira passar várias vezes no corredor e por quem chamara em vão, decidiu dar pela minha presença.

 

Entrou, fez-me um exame rápido e disse: “Isto parou. Vou abrir o soro”. Ali fiquei, com o soro a correr-me para a veia, e, em breve, as dores voltaram, muito mais rápidas e intensas do que antes, a um ritmo infernal. Tinha começado a sentir algo a desprender-se de mim, quando vi passar o médico, aquele que eu não via desde que chegara. Uma vez que a berraria era geral, pensei que só chamaria a sua atenção se falasse num tom normal. Foi o que fiz. Disse que me parecia que a criança estava a querer sair, que sabia bem do que falava porque já tinha tido uma, e que receava que caisse ao chão. A enfermeira, ao lado do médico, dizia: “Não ligue, é doida, ainda agora lhe abri o soro.” Rezei para que ele não a ouvisse. Penso ainda hoje que o meu filho deve a vida à decisão que ele tomou nesse instante, a marquesa era altíssima e ele teria caído, porque estava mesmo a nascer.

 

Tudo se precipitou, a partir do momento em que o médico me examinou. Ele e a enfermeira mostraram ser uma equipa muito eficaz, e pouco depois, às oito menos cinco em ponto, hora do apito da fábrica, retiraram a criança, um rapaz, perfeito, careca e gordinho, que berrava desesperadamente. A enfermeira deu-me os parabéns, parecendo humana, por instantes, mas só por instantes, porque logo começou a ralhar: “Ó mulher, feche a boca, parece parvinha!” Era verdade, eu sentia-me completamente aparvalhada, mas de felicidade.

 

Mas os gestos dela eram rápidos e seguros. Eu e o bébé fomos limpos, desinfectados, enfaixados e instalados numa marquesa, no corredor dos gritos, à espera de alguém que nos transportasse para os andares superiores. Passámos horas ali, mas o bébé dormia, muito embrulhadinho e seguro entre as minhas pernas,  e eu estava no céu.

 

A certa altura a minha marquesa abanou, tinha esbarrado nela uma ciganita que não parecia ter mais de quinze anos, que andava aos encontrões às paredes, com a sua enorme barriga, de os olhos fechados e a puxar os cabelos enormes. Tentei falar com ela, mas não ouvia nada nem ninguém e desisti. Era quase uma da tarde quando, finalmente, me levaram para a enfermaria, mas também lá o descanso não chegou facilmente.

 

Fui logo avisada por uma das mulheres que tivesse cuidado com o meu filho porque, pouco tempo antes, um recém-nascido fora embrulhado por uma empregada da limpeza juntamente com os lençóis da cama e mandado para a lavandaria pelo tubo da roupa suja. Vá lá, nada lhe acontecera, a mãe dera por isso a tempo. Assim, sempre que alguém ia à casa de banho, pedia às outras que olhassem pelos bébés que ficavam sozinhos.

 

Depois chegou o capelão da maternidade, que ia de cama em cama, perguntando se alguém desejava os seus serviços e, com um sorriso beatífico, apontava para uma criança e berrava muito alto “Ruben!”, depois via outra e dizia “Carlos Manuel!”, outra ainda era “Aníbal!”. Quando viu a minha, gritou “Ricardo Jorge!”, sugestão a que não obedeci.

 

Finalmente, vieram os ciganos. A ciganita tinha parido um menino muito engraçado, com um cabelo preto comprido e umas patilhas que lhe chegavam até meio da cara. Logo a enfermaria se encheu de gente, dez, quinze, vinte ciganos, todas a falar ao mesmo tempo, numa grande algazarra, apinhados em volta da cama, passando o bébé de mão em mão, do trisavô até ao pai, da avó à bisneta.

 

Mas havia uma cama onde faltava um bébé, era a da sobrinha da tia, que estava sempre imóvel, apática, de olhos vazios, a olhar em frente, e tinha que ser ajudada em tudo pelo pessoal de enfermagem. Não tive coragem para lhe perguntar pelo filho, alguém disse que estava nos cuidados intensivos com prognóstico reservado. Quando tive alta, três dias depois do parto, ela continuava no mesmo sítio.

 

Saí num domingo de manhã e quase choquei com o meu médico.  “Vinha visitá-la”, anunciou ele, com o seu ar doce de sempre. “Tinha gostado de o ver antes, muito antes”, não resisti a dizer-lhe, com vontade de lhe apertar o pescoço. Mas o meu filho estava ali, vivo e de saúde, sentia-me vitoriosa, e foi com asas nos pés que me fui embora do sítio onde tinha vivido alguns dos piores e dos melhores momentos da minha vida.

Comentários
  • Vera
    Responder

    Parabéns ao seu rapaz.

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