Ulisses é um conto extraído do volume Remington de Jorge Listopad, (edição Cavalo de Ferro, Novembro de 2013, Lisboa, ISBN 978-989-623-174-3, 176pp., 15,00Eur. )

Copyright © Jorge Listopad, 2013

© Cavalo de Ferro Editores, 2013

 

O Corvo agradece à Cavalo de Ferro Editores a simpatia por ceder este conto para publicação.
Fotografia: Bruno Simão

 

 

Ulisses

 

Vi como ele estava a andar de casa em casa, por assim dizer,

como observava o número em cada parede fronteira, como se

procurasse alguma coisa. Tinha na mão uma boa máquina de

filmar moderna, suponho que leve. Às vezes como se dançasse

de contentamento, como se a vida fosse bela. Observei-o e lembrei-

me de um antigo filme de Bergman, O Sétimo Selo; esse filme

de terrível beleza que nos manipula e até o próprio Bergman

manipulou; mas, nesse filme, como que em contraponto, existe

um casalinho inocente que anda, canta, com uma poesia primaveril,

que é de um puro lirismo. Aquele fotógrafo fotografou

como um cineasta à procura de qualquer coisa que estivesse

diante de mim ou atrás de mim; com os movimentos bruscos

que fazia ficava parecido, pelo menos na minha memória, com

um actor loiro de cara sorridente, feliz. Continuei o meu passeio

e pensei que o tinha perdido de vista, mas de repente aproximou-

se subindo a escadaria da rua e perguntou-me:

— Sabe onde é a Rua João Dias?

Respondi-lhe:

— Eu vou para lá. Se me quiser acompanhar…

Acompanhou-me. Chegou a essa rua ventosa e perguntou

de novo:

— Onde é o número 15?

— É aí a minha casa — respondi.

Contente, ainda fez mais alguns passos da sua semidança e

explicou-me:

— Sou um jovem arquitecto e estou a fazer uma espécie de

estágio na EPUL; procuro as casas que receberam o prémio

Valmor e fotografo as placas onde isso está escrito, como é

hábito, na parede e à entrada. Mas agora verifico que às vezes

essas placas especiais não existem, nem sequer uma placa simples

com os nomes do arquitecto e do engenheiro, tal como

acontece na sua casa. E perguntou ainda: — É sua, a casa?

Desde quando é sua? Talvez a placa tenha desaparecido.

Confessei que nunca vira ali placa nenhuma a confirmar

que a casa tinha recebido o Prémio de Honra de primeira

classe de Valmor. Disse-me:

— É muito bizarro, bizarro. Enviam-me para fotografar o

que não existe, mas mesmo assim vou filmar a sua casa para

o arquivo. Onde nasce o Sol?

Expliquei-lhe que movimento o Sol fazia à volta da casa,

embora naquele momento isto de nada valesse porque o céu

estava nublado, sem esperança de sol para esse dia. Se às três

horas da tarde não se vê uma réstia de sol, é porque ele já

não vai aparecer. Aconselhei-o a voltar noutro dia, e que seria

melhor de manhã porque poderia seguir o trajecto da luz à

volta da minha casa. Et voilà! Um Prémio Valmor! Desconhecia

este pormenor quando a comprei ao meu amigo aviador, que

provavelmente também nada sabia dessa honra.

De facto, dois dias depois o estagiário voltou e fez o seu

trabalho. Tocou à porta quando acabou, para dizer que tinha

terminado. Ficámos a conversar à porta e confessou-me que

afinal tinha encontrado outro Prémio Valmor numa rua

lateral.

— Bravo — retorqui.

Ele sorriu, com os cabelos ao vento, e sempre de olhos

risonhos. Foi então falar com o actual proprietário do outro

Prémio Valmor, porque o primitivo dono já tinha morrido;

agora quem lá mora é o seu afilhado, mas a casa continua registada

em nome do primeiro comprador, o engenheiro Šourek,

que já não está entre os vivos. Surpreendido, perguntei:

— O nome que me está a dizer é exacto?

— É, é, embora a casa agora pertença ao seu afilhado.

Sabe? Esse engenheiro era originário de Trieste e chegou já

viúvo a Portugal.

— Conte-me mais — pedi-lhe eu.

— Só conto aquilo que sei. Parece que ele era funcionário

da Companhia de Seguros de um grande banco que lá existia,

talvez da época da monarquia austro-húngara.

— Quero saber mais — insisti.

O meu fotógrafo estava um tanto surpreendido com a

minha curiosidade, e não era razão para menos. Mas acontecia

que o engenheiro Šourek, gerente do banco Assicurazione

de Trieste, era amigo do meu pai, e comercialmente também

eram amigos. Era o único prémio de seguro que eu recebia,

depois de o meu pai ter morrido numa prisão nazi; que

estranho, como a memória brinca connosco, porque só agora

desenterro factos que estavam esquecidos? Eu sabia que o

engenheiro Šourek era casado com uma irlandesa de nome

Eileen; só nesse momento juntei os factos: a Eileen era irmã de

James Joyce, que era então professor na bela cidade de Trieste,

que aliás visitei, uma vez, ao fazer um desvio de Veneza; e

que, sem eu saber porquê, estranhamente me comoveu. Sei é

que em Trieste, quando chamavam Joyce ao senhor professor,

faziam-no como se lessem a palavra eslava jajce, que em esloveno

significa ovo. Quanto a Šourek, na língua autóctone significa

testículos. James Joyce sabia-o, linguista como ele era, e

escreveu aos noivos uma carta de felicitações, não do melhor

gosto, desejando-lhes um bom e fecundo encontro do ovo com

o testículo.

Como o mundo é pequeno. O meu pai era amigo do

cunhado de James Joyce, provavelmente sem saber quem era

esse novo Homero do século xx; eu morava numa rua vizinha

da sua e em casa tinha aberto o seu livro Ulisses. Achei

tudo isto um milagre de acasos e por isso dedico esta pequena

narrativa a todos os entes aqui nomeados e ao referido fotógrafo,

que foi depois tomar comigo um café numa outra rua

próxima; um mokka, como escreveu James Joyce. Enquanto

tomávamos café quis contar-lhe tudo isto, mas depois achei

que ele não podia compreender uma coisa que nem eu mesmo

compreendia.

 

JORGE LISTOPAD nasceu em Praga, onde se douto­rou em Filosofia, e naturalizou-se português em 1962. Escritor, professor universitário, crítico, realizador de televisão e encenador, tem publicados cerca de cinquenta livros de prosa, poesia e ensaio, escritos em checo, francês e português e traduzidos em várias línguas. A sua obra recebeu várias distinções, entre as quais o prémio da Academia de Artes e Ciências de Praga, o 1.º Prémio do Conselho Cultural de Esto­colmo, o 1.º Prémio da Rádio Europa Livre de Poesia.

Como homem de teatro, encenou cerca de sessenta peças e óperas na Checoslováquia, França, Alemanha, Suíça e Portugal, onde recebeu dois Pré­mios de Imprensa e quatro Prémios da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Foi Presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Teatro e Cinema, desde 1994 até à sua passagem para as ac­tuais instalações.

Foi condecorado com a Medalha Militar Checoslovaca da Resistência (1945) pelo seu papel na luta contra a ocupação nazi, e agraciado com a Medalha de Mérito Nacional da República Checa (2001), recebeu ainda a Medalha de Ouro do Prémio Europeu Franz Kafka (2000), o Prémio Gratias Agit (Praga, 2004) e o Prémio Jaroslav Seifert (Praga, 2007). É doutor honoris causa pela Universidade de Brno e pela Universidade Carolinum, de Praga.

 

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