Tossindo, à descoberta da Cerca Velha

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

Fotografia

URBANISMO

Cidade de Lisboa

4 Novembro, 2014

Um circuito pedonal marcado por painéis informativos sobre a Cerca Velha identifica, desde finais de Setembro, os vestígios da antiga muralha ocultos na malha urbana. Nem todos os painéis são fáceis de encontrar, num circuito ao longo do qual veículos vetustos, usados no transporte de turistas, poluem a atmosfera com baforadas de escape.

A Cerca Velha, muralha que remonta ao final da época romana e defendia o núcleo urbano de Lisboa na época medieval, até à construção da Cerca Fernandina, no século XIV, não é fácil de encontrar na malha urbana da cidade.

Partindo da muralha que protegia o castelo, ou alcáçova, no topo da colina, a Cerca Velha ou Cerca Moura, como passou a chamar-se quando a cidade se tornou muçulmana, estendia-se até ao Tejo, formando uma espécie de trapézio no interior da qual se aglomeravam as instituições civis, militares e religiosas que exerciam o poder até à época tardo-romana.

Quando, no século XIV, foi construída a Cerca Fernandina, a Cerca Velha deixou de ter utilidade defensiva, sendo parcialmente destruída para permitir a abertura de novos acessos ou integrada nas paredes das casas. Daí que a velha muralha seja difícil de identificar em muitos troços.

Num esforço de divulgação deste património da cidade, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou, em finais de Setembro, um circuito pedonal sinalizado por 16 painéis com informação histórica recolhida e reunida pelo Museu de Lisboa/ Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e pelo Centro de Arqueologia de Lisboa, que permitirá, a quem o percorre, identificar o que resta da Cerca Velha.

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É preciso subir até ao castelo, para encontrar o painel número 1, colocado junto à Muralha da Alcáçova, entre a porta de São Jorge e a porta de Santa Maria de Alcáçova. Aí, vários pequenos textos explicam o papel das muralhas numa cidade medieval e o que é a Cerca Velha, esclarecendo que tinha 1250 metros de extensão, possuía mais de 26 torres e seis portas, e encerrava um recinto com 15 hectares. Um mapa indica ao utente o ponto onde se encontra, no total do circuito, e o caminho a seguir para passar ao seguinte.

Há que atravessar a passagem por baixo do Palácio Belmonte para encontrar o painel número 2, no Pátio Dom Fradique – zona muito vandalizada e entregue ao abandono, com excepção de algumas intervenções pontuais -, e avistar um longo troço da Cerca Velha, 86 metros entre Palácio Belmonte e Palácio Azurara.

Descendo a estreitíssima Rua dos Cegos, chega-se às Portas do Sol – que davam acesso a uma antiga necrópole -, situadas no largo fronteiro ao antigo Palácio Azurara, que incorporou partes da muralha islâmica.

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O mapa incluído no painel indica que o painel número 4 está na Rua Norberto Araújo, que leva das Portas do Sol ao coração de Alfama, ao longo da escarpa rochosa no cimo da qual existem vestígios de duas torres que faziam parte da antiga muralha islâmica.

Uma vez no interior do antigo bairro islâmico, não será fácil, mesmo com a ajuda do mapa, descobrir o painel número 5, sinalizando a Porta de Alfama, ou Porta das Termas, por ficar nas imediações de um edifício termal, que dava acesso ao arrabalde oriental da cidade e à estrada para Santarém.

O painel número 6 identifica a Torre de São Pedro, no Largo de São Rafael, parte avançada da muralha que terá servido de protecção a uma nascente de água e que, nos séculos XIV e XV, foi usada como prisão.

Também difícil de encontrar, no labirinto de ruas, becos e escadinhas de Alfama, é o painel número 7, que identifica o Postigo de São Pedro, situado nos limites da Judiaria de Alfama, no troço da muralha que virava em direcção ao rio.

Já na zona ribeirinha, na Rua do Cais de Santarém, o painel número 8 mostra a Porta do Chafariz d’El Rei, hoje Travessa de São João da Praça, aberta na Cerca Velha, entre finais do século XIII e inícios do século XIV, com a deslocação para este local do Chafariz d’El Rei, a mais importante e mais antiga fonte de abastecimento público de água à cidade.

A chegar ao Campo das Cebolas, o painel número 9 indica a Porta do Furadouro, junto à antiga praia do mesmo nome, situada no Arco de Jesus, entre o Campo das Cebolas e a Rua do Cais de Santarém.

Muito perto, identificado no painel número 10, fica o Postigo Marquês do Lavradio, aberto para dar serventia ao Palácio do Marquês do Lavradio, no Campo de Santa Clara, através do qual se circulava entre a Rua de São João da Praça e o rio. Muito perto, o painel número 11 mostra o Arco da Conceição ou Arco da Preguiça, que permitia o acesso à Fonte Nova, já fora das muralhas.

Já no Campo das Cebolas, o painel número 12 indica a Casa dos Bicos, edificada no século XVI por Brás de Albuquerque, uma vez que, logo à entrada, se pode descobrir um troço da Cerca Velha.

A pouca distância, dois painéis com a mesma identificação: Porta do Mar. A Porta do Mar identificada pelo painel número 13 “poderá corresponder a uma passagem identificada desde a época islâmica”; o painel número 14 remete para documentos árabes do século XI que falam de uma porta do mar onde embatiam as águas do Tejo na maré cheia.

Abandonando a frente ribeirinha, subindo a encosta, descobre-se o painel – isolado, no meio da Praça de Santo António -, que mostra o local onde, no século XII, existia a principal porta de acesso à cidade, a partir da qual Lisboa foi tomada aos mouros pelos cruzados, em 1147.

O ponto 15 do périplo refere-se à Porta do Ferro. Um painel num pilar isolado, no meio da Praça de Santo António, mostra o sítio a partir do qual a cidade foi tomada aos mouros, com a ajuda dos cruzados, em 1147. A Porta do Ferro desapareceu, não restando sequer menção dela na toponímia da cidade.

Subindo ao longo daquele que era o lado ocidental da Cerca Velha, chega-se ao último painel informativo, com o número 16, situado na Rua do Milagre de Santo António, e assinalando a Porta de Alfofa, donde partia o caminho de circunvalação da Alcáçova.

Quem decidir percorrer este circuito do princípio ao fim terá que dispor de, pelo menos, duas horas e alguma paciência, uma vez que nem todos os painéis informativos são fáceis de descobrir, mesmo com a ajuda dos mapas, designadamente aqueles que se encontram embrenhados no labirinto de ruas de Alfama. Algumas setas indicando o caminho a seguir resolveriam a questão.

Se o visitante for um cidadão vulgar que usa transportes públicos, chegará ao painel número um, na Rua do Milagre de Santo António, algo ofegante por causa da subida, que se torna mais exigente ao chegar ao castelo, na parte final do percurso.

Mas é precisamente aqui que mais se acumula o trânsito de táxis, tuk-tuks de todas as cores e feitios, velhas motorizadas com “side-cars” e automóveis vetustos modificados – UMMs, Renaults 4L, entre outros – transportando turistas e poluindo o ar em volta com baforadas negras de fumos de escape.

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Tossindo, a caminho do castelo, uma questão impõe-se: faz algum sentido a Câmara Municipal de Lisboa proibir a circulação de automóveis anteriores a 1996 e 1992 – e, a partir de Janeiro próximo, também a 2000 -, nalgumas zonas centrais da cidade, invocando a necessidade de diminuir a poluição atmosférica, quando veículos muito mais antigos circulam por toda a zona histórica de Lisboa, sem problema, bastando, para isso, dar-lhes um nome e pintá-los às flores ou às riscas?

O problema repete-se em todos os troços do circuito pedonal que coincidem com ruas onde a circulação automóvel é permitida: uma vez que este circuito se inscreve no coração da zona histórica da cidade, os veículos que por ali circulam são, na sua maioria, os citados “tuk-tuks” e outros de transporte de turistas.

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COMENTÁRIOS

  • J. F. Cuesta
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Tossindo, à descoberta da Cerca Velha – http://t.co/63YaLrQwXA

  • Maria Papoila
    Responder

    os veículos turísticos, todos, deveriam ser eléctricos!

  • Inês B.
    Responder

    Mas depois deixam tapar com tinta branca vestígios substanciais da dita cerca no bar-café Cerca Moura, às Portas do Sol! Uma queixa foi feita, até hoje espero resposta…

  • Mariana
    Responder

    Para além dos mapas expostos nos totems/painéis, e dos folhetos com indicação do percurso, há também marcas no chão. São de metal, quadradas com cerca de 10/15cm de lado, texturadas com o símbolo da Cerca Velha (o mesmo que aparece nos painéis e folhetos) e estão estrategicamente colocadas junto a cruzamentos ou bifurcações, de forma a indicar o caminho correcto… Estas marcas pretendem, julgo, substituir as tais setas… Eu já fiz o percurso e gostei (embora concorde com a crítica ao acesso de alguns veículos)!

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