Desta fortaleza mandada construir por D. João II e erguida há 500 anos, no tempo de Dom Manuel I, só uma vez se dispararam tiros. É património mundial e visitada anualmente por cerca de 400 mil pessoas. Rigorosamente em frente, na outra margem do Tejo, uma torre semelhante está abandonada e afogada em vegetação, embora seja monumento nacional. A Torre de Belém, pelo contrário, tem a merecida notoriedade. Num ano em que se comemoram cinco séculos de um dos ícones nacionais, O Corvo recorda-lhe a origem e as características desta construção ímpar.

 

 

Texto: Isabel Braga        Ilustração: Rute Reimão

 

 

A Torre de Belém é a mais tardia das três fortificações mandadas construir por Dom João II para defender a barra do Tejo. Pensa-se que começou a ser erguida em 1515, já durante o reinado de Dom Manuel I, enquanto que as outras duas torres que integravam o sistema de defesa do rio e da cidade – a Torre da Caparica ou de São Sebastião, situada na margem oposta do Tejo, e a Torre de Cascais, na ponta norte da baía de Cascais, que foi absorvida pela construção da Fortaleza de Nossa Senhora da Luz – começaram a ser construídas nas décadas de 80 e 90 do século XV, reinava ainda Dom João II.

 

 

É Garcia de Resende que, na “Crónica de D. João II”, conta que a decisão de criar um sistema de fortificações para defesa do Tejo partiu do rei que teve como cognome o “Príncipe Perfeito”. “E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua caua, com tanta e tam grossa artelharia, que defendia o porto; e assi outra torre, e baluarte de Caparica defronte de Belem, em que estaua muyta e grande artelharia, e tinha ordenado de fazer h~ua forte fortaleza, onde ora está a fermosa torre de Belem, que el Rey dom Manoel, que santa gloria aja, mandou fazer, pera que a fortaleza de h~ua parte, e a torre da outra tolhessem a entrada do rio. A qual fortaleza eu per seu mandado debuxey, e com elle ordeney a sua vontade…

 

 

Este sistema de fortalezas veio substituir, em termos defensivos, um gigantesco vaso de guerra, a nau São Cristóvão, que se encontrava fundeada mais ou menos a meio do rio. A Torre de São Sebastião, também chamada Torre Velha, foi edificada na margem Sul do rio, rigorosamente defronte da Torre de São Vicente de Belém – designação completa da torre localizada no Restelo -, para permitir, segundo o plano inicial, que as duas cruzassem fogo, já que se situavam uma em frente da outra, na parte onde o rio mais se estreita.

 

 

A Torre de Belém tem, portanto, uma gémea na margem Sul do Tejo, a Torre Velha, uma fortaleza de planta idêntica à do monumento manuelino, mas cujos importantes vestígios permanecem sem acessos – embora classificados como monumento nacional em 1996 -, afogados em vegetação selvagem e em total estado de abandono, entre a Trafaria e Porto Brandão. Entre eles estão os baluartes construídos ao longo de vários séculos (o primeiro dos quais remonta ao reinado de Dom João I), alguns paióis para armazenamento de munições, partes da residência do governador da Torre, entre elas a capela, e a própria Torre Velha, do século XV.

 

 

Em vida de Dom João II, só as torres de Cascais e da Trafaria (ou seja, a Torre Velha) ficaram prontas. Coube a Dom Manuel I dar continuação ao projecto, construindo a Torre de Belém – classificada como património nacional em 1907 e como património da humanidade em 1983.

 

 

Na Torre Velha, tudo é mais funcional e sóbrio do que na Torre de Belém, “mais festiva do que guerreira”, como afirma o historiador Paulo Pereira, na “Enciclopédia dos Lugares Mágicos de Portugal”. Mas as seteiras em forma de cruz são iguais nas duas torres, para permitir escolher o ângulo de tiro.

 

 

As duas fortificações nunca chegaram a cruzar fogo. Tanto quanto se sabe, a Torre de Belém ainda chegou a disparar, em 1579, contra a esquadra de Filipe II, mas acabou por se render. Quanto à Torre Velha não disparou um único tiro, nem mesmo contra a invasão espanhola, contou Raul Pereira de Sousa, um cidadão autodidacta de Almada que se dedicou a estudar a Torre Velha, à jornalista do Corvo que o entrevistou em 1995, quando trabalhava no PÚBLICO.

 

 

Afirmava ele que o governador da fortificação, na época da invasão dos Filipes, era um Távora, Rui Lourenço de Távora, “que estava feito com os espanhóis, pois era primo do embaixador de Espanha em Lisboa”. A Torre Velha “apenas desempenhou um papel dissuasor, como a maioria das outras fortalezas do mesmo género espalhadas pela costa portuguesa”, afirmava este estudioso.

 

 

Enquanto a Torre Velha está a ser afogada pela natureza, na margem sul, à vista de Lisboa, a Torre de Belém, sua gémea, na margem oposta, faz parte desde 1983 da lista do Património Mundial da Unesco e é afogada por turistas. Recebe mais de quinhentos mil visitantes por ano, um número que tem vindo a crescer todos os anos, segundo informações oficiais, sendo um dos monumentos mais visitados do país.

 

 

A obra foi encomendada a um mestre em estruturas defensivas, Francisco de Arruda, tendo-se iniciado a sua edificação em 1514 ou 1515 – há opiniões divergentes quanto ao ano do início da obra -, quando o Mosteiro dos Jerónimos se encontrava já em plena construção. Assim, ainda segundo o historiador Paulo Pereira, a torre foi concebida para dar protecção à cerca do mosteiro e às riquezas neste depositadas. O estilo é manuelino, uma variação portuguesa do estilo tardo-gótico, marcado por uma sobercarga ornamental e elementos decorativos hiper-realistas de grande porte, simbolizando o poder real.

 

 

Formada por um baluarte hexagonal quase ao nível da água, fornecendo uma plataforma de tiro baixa, rematado por uma torre medieval, o seu desenho inspira-se, segundo o historiador Rafael Moreira, na obra do engenheiro militar italiano Francesco di Giorgio Martini. Um pequeno cais escondido dá acesso ao interior do baluarte, a casamata. Dezassete bocas de fogo, a um nível muito próximo da água, permitem o tiro rasante, mas apenas três delas abrem para o rio, visando as restantes proteger as praias e impedir desembarques.

 

 

Por baixo, na cave, está o paiol, que serviu de prisão política, muito temida por causa da humidade e dos alagamentos frequentes. A esplanada, acima da casamata, está dotada com peças de artilharia, e rodeada de ameias, construídas, segundo o historiador Rafael Moreira, “como se se tratasse dos paveses de uma nau, prendidos pelo lado de fora da amurada”. Uma “sugestão naval” que remeterá para a grande nau que, em tempos, estava fundeada no meio do rio, a protegê-lo. Nos vértices dos baluartes estão as guaritas, muito originais: são corpos cilindricos cobertos por uma cúpula de gomos, remetendo para a arquitectura magrebina ou indiana.

 

 

A descrição seguinte é do historiador Paulo Pereira: “Numa das mísulas encontra-se representado um rinoceronte (o focinho, o pescoço e as patas fronteiras). Reflectia o interesse pelas coisas exóticas na cidade de Lisboa no tempo de D. Manuel, de que se dizia: Tem elefantes pasmosos/ cobras de grande grandura/ lagartos muy espantosos/ gatos dalgalia cheirosos…”.

 

 

O autor de “Enciclopédia dos Lugares Mágicos de Portugal” pensa que a representação do rinoceronte remete para a memória de um rinoceronte branco que terá chegado a Portugal por oferta do sultão de Cambaia a Dom Manuel I. “Em 1517, ensaia-se inclusivamente em Lisboa um combate entre um elefante e um rinoceronte, sem êxito porém (o elefante fugiu!), sendo o rinoceronte enviado ao papa, enquanto na viagem Francisco I o vai admirar; morreu no mar, para depois ser recolhido, empalhado e finalmente oferecido ao seu destinatário primeiro. Durer desenhou-o…”.

 

 

A torre, que corporiza a imagem tradicional do poder senhorial, é formada por quatro andares, que comunicam através de uma escada em caracol, visível na parte exterior da fachada. No primeiro andar, fica a Sala do Governador. Por cima, a Sala dos Reis, a área mais nobre e sumptuária da torre, com uma lareira e a abóboda em aresta, que dá acesso ao grande varandim e às três janelas de sacada.

 

No terceiro andar, entre duas janelas, encontra-se a chamada Sala de Audiências, com conversadeiras junto às janelas. No último andar, a Capela, com assentos corridos, é a sala mais rica do ponto de vista arquitectónico: tem uma abóboda de cruzaria com fechos decorados com heráldica régia, sustentada em mísulas com ornamentação insólita, sendo o pavimento em xadrez preto e branco e, no meio, um octógono branco com um quadrado negro inscrito ao centro, o que tem motivado leituras esotéricas. A descrição continua a ser de Paulo Pereira que, resume: “No seu conjunto, a Torre de Belém funciona como uma feérie  arquitectónica, apesar da sua função militar”.

 

Traduzindo, a Torre de Belém é não só uma fortaleza, como um lugar construído propositadamente para encantar. E tem sido essa a sua função principal ao longo dos séculos, uma vez que as suas armas apenas dispararam uma vez. No tempo dos Filipes. E não impediram a invasão do país.

 

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com