Torre da Péla, monumento medieval situado no Martim Moniz, vai ser reabilitada pela Câmara de Lisboa

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Samuel Alemão

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URBANISMO

Santa Maria Maior

28 Novembro, 2018

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) prepara-se para proceder à reabilitação da Torre do Jogo da Péla, uma parte integrante da Cerca Fernandina, construída no século XIV, e que há muito parecia condenada a uma existência quase clandestina, apesar das suas centralidade e importância histórica. A colocação de sinalética e de iluminação dedicadas, permitindo chamar a atenção para aquela construção situada entre dois prédios da EPUL, no Martim Moniz, faz parte do conjunto  de medidas a levar à prática pela autarquia no âmbito do projecto, anunciou Catarina Vaz Pinto (PS), vereadora da Cultura, na tarde desta terça-feira (27 de Novembro). O plano inclui ainda a reformulação paisagística da área circundante e será levado à prática assim que existam “condições financeiras”, garantiu a autarca, na derradeira sessão da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), momentos antes da aprovação, por unanimidade, de uma recomendação do CDS-PP instando a câmara a agir nesse sentido. Mas, até lá, há que continuar a agir contra os graffiti.

Uma tarefa qualificada por Vaz Pinto como “difícil”. “Só neste mês de Novembro, foram realizadas limpezas no dias 16 e 20”, informou a vereadora, no momento em que dava conta aos deputados municipais dos cuidados tidos com a conservação de uma edificação que não está classificada individualmente como Monumento Nacional – embora faça parte de um conjunto reconhecido como tal, em 1910, formado pelo Castelo de São Jorge e demais Cercas de Lisboa. “Já foi elaborado um diagnóstico e está prevista a execução do projecto de integração e musealização do monumento, bem como a elaboração de um projecto de arquitectura paisagística, a concepção e a instalação  de sinalética e ainda a instalação de um projecto de iluminação monumental”, informou a autarca, depois de assegurar que, para além de estar a trabalhar nesses planos de reabilitação, a direcção de salvaguarda do património cultural  da Câmara Municipal de Lisboa tem também  assegurado “uma manutenção constante” da torre. Trata-se de uma construção que tem sido “objecto da maior atenção da câmara”, asseverou.


Mas nem sempre terá sido assim. Aquele resto de fortificação mandado construir por Dom Fernando, chamava a atenção uma reportagem d’O Corvo publicada em 21 de Janeiro de 2016, encontra-se há muito degradado – sendo o topo protegido por uma precária chapa metálica – e numa situação de quase anonimato. “O intervalo que a separa a Torre da Péla da parede de um do blocos de apartamentos não ultrapassa os dois metros, intervalo esse que está protegido por uma cobertura de um material semelhante ao vinil – proporcionando um recanto ideal para quem deseja passar a noite ao abrigo da chuva e do vento. A demonstrar essa utilização estão os muitos detritos, incluindo papéis, restos de comida e embalagens vazias que juncam o solo, e um persistente cheiro a urina”, escrevia-se na altura, dando-se ainda conta da inusual localização de monumento, ensanduichado entre dois blocos de apartamentos pertencentes ao empreendimento da EPUL, cuja construção se iniciou em 2001 e terminou apenas no final de 2014.

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Um muito peculiar enquadramento para um monumento com esta história

O facto de a torre não beneficiar da protecção especial conferida por uma classificação individual terá permitido, de resto, tal implantação do conjunto habitacional municipal, sem que fosse exigido o cumprimento de um distanciamento mínimo de 50 metros, como sucede com todos os Monumentos Nacionais. Lembrando a obrigação do município da capital – a quem a administração central cedeu a tutela da torre em 1942 – em zelar pelo seu património histórico, a recomendação dos centristas, que ontem acabou por ser votada por unanimidade, considera que tal “não se verifica, pois, no local, não existe qualquer referência ao monumento o que contribuiu para que seja constantemente confundido com uma ruína de um qualquer prédio devoluto destituído de valor patrimonial, histórico ou cultural para a cidade”. Algo para que já alertava um empresário chinês da restauração, ouvido na referida reportagem d’O Corvo de Janeiro de 2016, lamentando então que o monumento fosse pouco conhecido. “Há pessoas sem-abrigo que dormem aqui, fazem piqueniques, este canto funciona como um WC ao ar livre”, dizia.

 

 

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COMENTÁRIOS

  • Pedro Salvado
    Responder

    Isso é uma ruína!

    Não teem mais onde gastar o dinheiro dos contribuintes!?

    Avizinha-se uma recessão e gasta-se dinheiro assim?

    Não sou contra a preservação do nosso património histórico mas por favor, aquilo não passa de um amontoado de pedras, não é o templo de Diana.

    • Pedro Marques
      Responder

      O seu comentário é absolutamente atroz! Gastam-se rios de dinheiro onde não se deve e não se gasta aqui! A preservação do património histórico é seguramente mais importante que “monos do Rato” e falcatruas com a feira popular.

      • Vítor Sousa
        Responder

        A ignorância continua a querer dar cartas neste País. O património histórico não tem valor, ele próprio é um valor para todos nós, é aquilo que nos torna portugueses, é a nossa identidade, não é a bola e outros negócios. Essa torre e muralha significaram a nossa independência em finais do século XIV.
        Quanto ao “Templo de Diana”, não existe, o que existe é Templo Romano de Évora. A falta de estudo dá comentários pouco inteligentes como esse.

  • Maria Silva
    Responder

    Que boa notícia a preservação da torre pala.
    Esta praca é uma pena não estar mais dinamizada e preservada por ex. ter uma fonte grande de água e uma conexão com o Castelo e não aqueles cafés sem qualidade…

  • Gabriel Coelho
    Responder

    Dever-se-ia estudar a demolição dos edificios contiguos construidos à revelia da lei pela famigerada epul. Só a partirdaí se poderá fazer uma verdadeira recuperação patrimonial e dar ao local a dignidade perdida.

  • Carlos Augusto
    Responder

    Espero que a preservação do resto de uma das torres da muralha fernandina seja feita, com base em factos históricos, a resconstrução da mesma como se faz na Itália em que todos nós temos a percepção do que foi e do que é. Reconstruir e preservar e não só limpar, é necessário que venha a ter uma papel útil como se tentou fazer com os escassos achados arqueológicos do teatro romano, muita coisa se poderia ter feito e apenas é uma pequena amostra do que poderia ser, bem haja a estas iniciativas, mas façam-mo como deve ser. Não com o que se passa com as ruínas do teatro romano, que estão entaipadas de uma maneira que ninguém consegue perceber o que ali se encontra devido à escuridão, não representa nada da alegria da representação teatral que se passava por ali.

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