Entre os moradores da zona de Entrecampos, ainda há quem sonhe voltar a ver um parque de diversões nos terrenos da antiga Feira Popular, que vão a hasta pública nesta terça-feira (20 de Outubro). O que lá será construído é ainda uma incógnita. A única certeza é que o dinheiro da venda servirá para amortizar as dívidas da Câmara Municipal de Lisboa à banca.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

O que vai surgir de concreto nos 42.550 metros quadrados de terrenos da antiga Feira Popular só nesta terça-feira, dia 20 de Outubro, se saberá, depois da hasta pública em que serão vendidos – porque o futuro está nas mãos do comprador. Mas uma coisa é dada como certa: a venda servirá para amortizar as dívidas da Câmara Municipal de Lisboa à banca (CGD, BCP e Santander Totta).

 

A amortização directa à banca, parcial ou total, é mesmo uma forma de pagamento que está expressa no programa da hasta pública, pela qual pode optar o futuro proprietário dos terrenos que, em 2014, custaram à autarquia 101 milhões de euros, pagos à Bragaparques, uma vez terminado o longo processo judicial que envolveu a câmara e aquela empresa, que era também detentora do Parque Mayer.

 

O adjudicatário poderá assumir, no todo ou em parte, as dívidas bancárias do município junto da Caixa Geral de Depósitos, Millenium BCP e Santander Totta, no valor de, respectivamente, 50.857.052,71 euros (cinquenta milhões, oitocentos e cinquenta e sete mil e cinquenta e dois euros e setenta e um centimos); 45.816.383,34 euros (quarenta e cinco milhões, oitocentos e dezasseis mil trezentos e oitenta e três euros e trinta e quatro cântimos) e 48.600.000,00 (quarenta e oito milhões e seiscentos mil euros)”, afirma-se no programa da hasta pública.

 

No referido programa prevê-se mesmo que, “caso o adjudicatário opte pela assumpção da dívida, deverá negociar com a respectiva instituição de crédito a realização de tal operação”. O valor base de licitação é de 135 milhões de euros.

 

Manifestações de interesse em conhecer o que se poderia edificar nos terrenos da antiga Feira Popular – onde a câmara permite a construção de 144 mil metros quadrados de superfície acima do solo – houve várias, sucessivamente noticiadas nos jornais. Investidores chineses e do Médio Oriente estariam interessados na compra, segundo o Diário de Notícias, e, de acordo com o Diário Económico, também o grupo sueco Ikea pediu informações sobre os terrenos e o que ali poderia ser construído, embora não tenha dado garantias de vir a participar na hasta pública.

 

Para aquela área, onde basicamente todos os usos são permitidos – habitação, hotelaria, comércio e serviços, com algumas condicionantes em matéria de ocupação (ver informação mais à frente, neste texto) -, há ainda quem sonhe ver ali um parque de diversões.

 

O Corvo falou com moradores e comerciantes da zona de Entrecampos e ouviu repetidamente dizer: “Tudo o que se faça aqui, que traga movimento e pessoas para esta zona, é bom”.

 

É o que pensa Vasco Rodrigues, dono do Restaurante Cinderela, na Avenida das Forças Armadas. “Estou aqui há 20 anos e, desde que fechou a Feira Popular (em 2003), não temos qualquer atracção turística na zona. Não existe nada que chame os turistas. Tudo o que se fizer é muito bom, porque actualmente aquilo ( a antiga Feira Popular) é um ninho de ratos, quando antes era uma mais-valia”.

 

O dono do restaurante acha que para haver ali “um bom projecto, terá de ser um grupo muito forte a comprar os terrenos”, provavelmente estrangeiro. “Não acredito que isto vá ficar nas mãos de um portuguesita”, afirma.

 

Vasco Rodrigues não teme a chegada de outros comerciantes e até a deseja. “Com a crise, os restaurantes na Avenida 5 de Outubro fecharam quase todos. E com as lojas passou-se o mesmo, houve muitas a fechar. Acho que sim, deve haver comércio aqui, mas não digo propriamente que se faça um Colombo”, diz. Entre as condicionantes impostas pela câmara inclui-se uma que impediria aliás essa possibilidade, já que só 25 por cento da área total de construção acima do solo podem ser ocupados com comércio.

 

Saudosa dos tempos em que em Entrecampos existiu a Feira Popular mostra-se Manuela Antunes, vendedora numa loja de vestuário da zona de Entrecampos. “Acho que fazia falta um parque de diversões na cidade. É tudo hotéis, hotéis. E olhe que há muito estrangeiro que ainda vem aqui ao engano, perguntar pela Feira Popular…Isto, quando ela fechou há já mais de 12 anos”.

 

A Associação de Moradores das Avenidas Novas, que em Junho passado apresentou uma petição à câmara, exigindo esclarecimentos sobre o que ali poderia ser construído, considera agora que as novas informações prestadas pela autarquia são já satisfatórias.

 

“Não nos causa qualquer embaraço que os terrenos sejam agora colocados em hasta pública, desde que sejam cumpridas as quotas de ocupação que a câmara impôs. O que desejamos é que a obra seja rápida e célere e não transforme aquela zona num estaleiro por muitos anos”, diz ao Corvo José Toga Soares, presidente da Associação de Moradores das Avenidas Novas.

 

“Quando apresentámos a petição da Assembleia Municipal, houve consciência (por parte dos decisores) de que alguns aspectos do programa da hasta pública poderiam ser melhorados. E obtivemos esclarecimentos por parte do vereador Manuel Salgado e também do presidente da câmara, Fernando Medina, que nos disse não ser desejável que naquela zona se instalasse uma grande superfície”, destaca o presidente da Associação das Avenidas Novas.

 

Além disso, “foi possível aumentar a quota destinada a habitação (de 25 a 35 por cento) em detrimento da área de serviços. E tivemos a garantia de que 50 por cento da área total será de uso público, sendo 30 por cento destinados a espaços verdes”, sublinhou ainda.

 

Para José Toga Soares, “escondido no projecto está a previsão de construção de um túnel”, que, diz, será “o prolongamento e ligação do túnel de Entrecampos ao túnel do Campo Pequeno”. Uma opção que agrada à associação a que preside. “Não vemos isso como negativo. Tudo que represente a libertação de espaço à superfície é bom”, acentua.

 

Já para Jorge Riley, que há 50 anos reside na zona – mora na Rua Visconde de Seabra -, esta seria também a oportunidade para se construir uma ligação pedonal entre um lado e outro da Avenida da República – onde o atravessamento para peões apenas existe nos extremos, ou junto a Entrecampos ou junto ao Campo Pequeno. “A única hipótese que temos para atravessar é descer ao túnel do Metropolitano e voltar a subir do outro lado, o que não é muito prático para pessoas como eu”, lembra Jorge Riley.

 

De resto, diz, aguarda a conclusão de todo este negócio em torno dos terrenos da antiga Feira Popular que, sublinha, nunca conseguiu entender muito bem. Mas não é “muito reivindicativo” em relação ao que lá se irá construir.“Não sou daqueles que critica tudo o que se anuncia que se vai fazer. Vamos ver”, diz este velho morador, que, com 90 anos, já assistiu a muitas mudanças na cidade.

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Terrenos da Feira Popular vão amortizar dívidas da Câmara de Lisboa à banca http://t.co/zzlZpnEAO6

  • Paulo Guinado
    Responder

    Vai ser um IKEA. eu sei….

  • Paulo Ramos
    Responder

    Mais? não bastou o pagamento que o governo fez mais os terrenos do aeroporto? A CML é um buraco sem fundo e quando há dinheiro é para as fundações dos amigos

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