“Temos muito a aprender com reformados estrangeiros que chegam a Lisboa”, diz vereador cessante dos direitos sociais

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

4 Outubro, 2017


Muito se tem escrito e falado sobre o facto de o centro de Lisboa, em particular os seus bairros históricos, se poder estar a transformar numa espécie de colónia para estrangeiros endinheirados, através da compra de imóveis em grande escala. De entre eles, assume especial relevo o grupo dos reformados de países ricos que escolhem a capital portuguesa para viverem. Mas a ideia de que eles vivem numa “bolha”, sem se integrarem nas comunidades onde escolheram viver, não fará afinal muito sentido, diz João Afonso, vereador dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa.

“Muito pelo contrário, a informação que temos recebido é de que eles têm aparecido junto de várias instituições, com vontade de se integrarem na vida dos bairros e de participarem em todas as sua actividades”, disse o autarca prestes a cessar funções, durante a apresentação da segunda edição do festival LisBoa Idade – a decorrer entre 6 (sexta-feira) e 7 (sábado) de outubro, no Largo da Graça, sob o lema “uma cidade para toda as idades”.

Questionado por O Corvo sobre a forma como a nova vaga de aposentados estrangeiros abastados se estaria a integrar na cidade, João Afonso – que se prepara para deixar o cargo no final do mês, quando o novo executivo tomar posse – fez questão de refutar a ideia, mais ou menos generalizada, de que se tratam de pessoas pouco interessadas em interagir com a população local.

“Sabemos que, em muitos sítios, fazem perguntas sobre como participar em organizações e acções de voluntariado, de ajudarem a comunidade, de serem úteis em actividades com crianças, por exemplo. Demonstram essa disponibilidade, até porque, muitas vezes, trazem dos seus países uma cultura de voluntariado e participação mais avançada que a nossa. Temos muito a aprender com eles nesse campo”, considera João Afonso.

O vereador em término de mandato acha, por isso, que a melhor forma de estabelecer a ponte com os lisboetas, e em particular com outros idosos, será através da criação de “estratégias de voluntariado”. Uma vertente que, admite, ainda terá de ser melhor trabalhada.

O aproveitamento dessa aptidão dos mais velhos, nacionais e estrangeiros, para participar na vida comunitária encaixa num dos objectivos definidos pela “Estratégia de cidade para as Pessoas Idosas 2018-2026”, o qual preconiza “valorizar o contributo da população idosa na cidade”. Os dois outros propósitos estabelecidos pelo plano a oito anos, a desenvolver em conjunto pela câmara municipal e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, são, por um lado, a reorganização e optimização da “rede de equipamentos e respostas sociais” e, por outro, a implementação de “um modelo de intervenção integrado de todos os agentes que na cidade trabalham com a população idosa e as suas famílias”.

Uma tarefa que é um desafio, reconhece o autarca, pois Lisboa é a capital mais envelhecida da União Europeia, com 24% da sua população a ultrapassar os 65 anos. Ou seja, 132 mil pessoas, das quais 85 mil vivem sozinhas, sendo mulheres dois terços deste número. E ainda há a destacar a existência de quase 51 mil pessoas com mais de 85 anos na capital. Cerca de 58% dos idosos de Lisboa têm apenas o 1º ciclo do Ensino Básico. Estima-se que, em 2050, Portugal seja o terceiro país mais envelhecido do mundo.

A referida Estratégia para as Pessoas Idosas que a Câmara de Lisboa e a Santa Casa da Misericórdia querem pôr em prática entre 2018 e 2026 divide-se em quatro eixos de actuação: participação e cidadania; governação e informação; autonomia e segurança; e assistência na dependência. No seu conjunto, agregam 23 medidas de apoio aos cidadãos mais velhos de Lisboa.

Entre as mais importantes contam-se o Balcão Sénior LX65+, que abrirá, em meados do próximo ano, na nova Loja do Cidadão do Saldanha, a inaugurar no piso superior do Mercado 31 de Janeiro. Mas o ainda vereador dos Assuntos Sociais destaca, também, o novo serviço de teleassistência municipal, que deverá ficar operacional entre o final de 2018 e o início de 2019, e que contará com comparticipação de fundos comunitários.

Será um sistema idêntico aos existentes em cidades europeias como Barcelona, Paris ou Nantes, prevendo uma integração total num único serviço do apoio à distância ao idoso. Através de um telefone ligado a uma central, e de forma gratuita, as pessoas com mais de 65 anos que adiram ao serviço poderão contar a ajuda de operadores de call center que os ajudarão nas suas necessidades mais elementares. E, caso seja necessário, activarão respostas de emergência.

O festival LisBoa Idade deste ano, que decorre entre sexta-feira (6 de outubro) e sábado, pretende “incluir as diferentes faixas etárias e preparar estratégias para ciclos de vida cada vez mais longos e que se querem activos”. A programação conta, por isso, com uma série de actividades, como wokshops especializados, espectáculos musicais, demonstrações à volta da alimentação saudável ou da actividade física pensada para diferentes momentos da vida.

O momento de celebração comunitária, que é apadrinhado pelos apresentadores Júlio Isidro e Cláudia Semedo e o chef Hélio Loureiro, terá o seu momento alto no concerto de Mário Laginha e Pedro Burmester, no Convento da Graça, às 19h de sexta-feira. A entrada será livre, sujeita à lotação do espaço.

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