Carla Salsinha, presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), a mais importante entidade representativa dos lojistas de Lisboa, teme que a especulação imobiliária esteja a destruir parte significativa do sector. A Lei das Rendas, associada à vaga turística, estará a tornar incomportável a subsistência de muitos estabelecimentos. Se não forem tomadas medidas, 2017 e 2018 serão anos de avalanche de despejos. Metade das lojas tradicionais da Baixa poderão desaparecer nos próximos dois anos. Mas já há quem peça 7 mil euros de renda para lojas na Avenida Almirante Reis ou 35 mil a uma pastelaria na Avenida da Liberdade. Por isso, em entrevista ao Corvo, a dirigente associativa pede travão às “rendas especulativas”.

 

Texto: Samuel Alemão

 

É possível parar o encerramento massivo do comércio tradicional?

Acho que é possível, sem dúvida. Mas têm de se cumprir duas situações. Primeiro, conseguirmos fazer uma pequena alteração à Lei do Arrendamento, a qual já está em discussão na AR – porque fazer uma mudança mais substancial na lei vai demorar. O que pedimos é que, numa primeira fase, sejam limitados os despejos por obras profundas e de restauro dos edifícios, que é isso que está, neste momento, a motivar o encerramento e desaparecimento de muitas lojas.

Isto porque, quando saiu a lei do arrendamento (2012), houve a renovação de muitos contratos – há os tais cinco anos, mais dois – e, por conseguinte, o que vai acontecer em termos de contratos… Já nos apercebemos que 2017 e 2018 vão ser dois anos loucos de estarmos com lojas a serem pressionadas a pagar rendas que passam de mil para 8 e 9 mil euros.

 

Acha, portanto, que vem aí uma avalanche?

Vem, se não conseguirmos que esta lei do arrendamento seja benéfica. Nesta primeira fase, o que conseguimos foi que a AR tivesse aprovado que estes despejos unilaterais por motivos de obras profundas nos edifícios sejam limitados e, ao mesmo tempo, facultar às câmaras mais mecanismos para salvaguardar, nos projectos que aprovam, as lojas que tenham um cariz emblemático. Em 2010, a CML fez um Plano de Salvaguarda da Baixa de Lisboa, onde identificou cerca de 300 lojas – das quais, seguramente, 15% já fecharam. Se não fizermos mais nada, provavelmente mais de 50% terão desaparecido em 2018.

Mas, por mais que protejamos estas lojas, há uma coisas que a Lei do Arrendamento tem de fazer e que sei que é mais delicada. Imagine: eu, como proprietário, tenho um inquilino de uma loja e terá que existir algum limite para o aumento dessa renda. Entendemos que o proprietário tem todo o direito a ser ressarcido do seu património, não podemos é entrar em rendas especulativas. Na Baixa, estamos a observar rendas mensais, para lojas de 40 a 50 metros quadrados, de 5 a 6 mil euros. Se fizermos a avaliação, estamos a assumir que aquela loja valerá no mercado 800 ou 900 mil euros. É completamente absurdo. Não há nenhuma loja hoje que valha isso.

 

Mas isso não é estar a querer interferir no mercado?

Poderá ser entendido como isso…agora….acho é que o Estado tem de perceber que não é possível continuar assim, mesmo que se protejam estas lojas. Imagine que tenho uma loja salvaguardada por este programa das Lojas com História, mas, independentemente disso, nada impede que daqui a cinco, seis ou sete anos, dependendo dos contratos de arrendamento que se vão fazer, o senhorio me peça pela mesma uma renda 30 mil euros. E faz isso porque não quer ter aquele inquilino. Sabe que tem de preservar a loja, mas pode lá meter outro inquilino a pagar sete ou oito mil euros.

Provavelmente, rendas até aos mil euros terão de ter uma taxa de inflacção bem maior, porque nenhum proprietário pode ter uma loja com rendas de 400 ou 500 euros. A partir daí, há que fazer as coisas com alguns limites. Posso dar-lhe o exemplo de uma pastelaria a quem lhe foi pedida uma renda mensal de 35 mil euros…

 

Na Baixa?

Não, na Avenida da Liberdade.

 

O problema não se põe só na Baixa, não é?

É em toda a cidade de Lisboa. A Avenida Almirante Reis, por exemplo, se olhar para ela, percebe que não é nenhum sítio nobre da cidade. Nós temos lojas em que estão a serem pedidos seis e sete mil euros de renda. É impensável qualquer comércio normal, que não seja as grandes cadeias, conseguir sustentar-se.

 

 

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A que é que atribui este movimento especulativo?

Acho que teve a ver muito, e indiscutivelmente, com a entrada das lojas chinesas, que quiseram entrar por toda a Europa. Em Portugal, de facto, foram as primeiras a criar este movimento especulativo. Depois, sem dúvida, os próprios fundos imobiliários começaram a valorizar demasiado as áreas. E hoje está-se a pedir na Baixa 100 ou 110 euros por metro quadrados. Isto torna inviáveis mesmo as lojas que são emblemáticas e de referência. Se não houver aqui um cuidado… Claro que o proprietário tem direito a ser ressarcido pelo seu património, mas uma renda de 5 mil euros já não é uma renda pequena.

Uma coisa que aconteceu quando entrou em vigor a lei do arrendamento, e que denunciei na altura, foi o que se passou na Avenida Guerra Junqueiro, em que as grandes cadeias internacionais fecharam ali e mudaram-se para os grandes centros comerciais. Uma delas estava a pagar 5 mil e foi-lhe pedido 16 mil. Nem um mês ficaram, fecharam as portas.

 

Mesmo para essas grandes cadeias é difícil…

Até para eles é insuportável! Por exemplo, na Avenida da Liberdade, há-de chegar um momento em que tem de existir algum equilíbrio. Mesmo lá, qualquer dia, começa a ser insuportável, porque a média de rendas mensais começa nos 11 mil euros.

 

 

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Há quem entenda que, se os comércios não são sustentáveis e não conseguem pagar as suas rendas…é a vida. O que tem a dizer a isso?

Compreendo isso, se for pela parte dos proprietários. Mas a melhor forma de responder a tal é fazer as contas. Alguém que tenha, por exemplo, uma loja com 20 metros quadrados, de cinco mil euros de renda, se multiplicarmos esse valor pelos 12 meses e lhe juntarmos os ordenados de três empregados e somarmos todos os custos – não nos podemos esquecer que, mesmo com a porta fechada, as empresas têm um custo diário -, percebe-se que há valores de renda em que qualquer negócio se torna inviável.

 

Por isso, nota-se a mudança, em que a média normal de subsistência de uma loja ou de uma empresa de comércio e serviços era de 25 anos, enquanto hoje está nos quatro ou cinco anos. Claro que muito disso tem que ver com as alterações dos padrões de consumo e de ser tudo muito mais volátil, mas também porque as empresas começam a não conseguem suportar. Há centenas e centenas de start-ups que queriam ir para lojas nas ruas, mas não vão porque não conseguem suportar as rendas.

 

Acha que se está criar em Lisboa uma monocultura do turismo?

Sem dúvida. Mas queria aqui salientar uma coisa: já houve quem dissesse que o comércio da cidade é anti-turismo, o que não é verdade. É completamente ao contrário. Sei que o turismo é uma grande oportunidade para a cidade, que está a permitir a sua revitalização, sem dúvida. Há muitos edifícios na Baixa que estavam decadentes e completamente ao abandono e que, depois de vendidos, se tornaram em unidades hoteleiras e trazem turistas. Para além disso, no momento dificílimo que atravessa o país, o turismo ajudou muito o comércio. Nós só beneficiamos com o turismo, ele é bem-vindo. Mas temos vindo a apelar que seja concedidos às câmaras municipais os meios necessários em termos da lei do arrendamento, como desejamos que da parte das autarquias haja sensibilidade para esta matéria.

Nisto, temos vindo a apelar consecutivamente à CML, porque a câmara tem hipótese de fazer algo, através do Plano de Salvaguarda da Baixa, por exemplo. Se temos uma loja emblemática num edifício que vai ser transformado num hotel, o mesmo deve ser aprovado, mas a loja tem que lá ficar. Até porque algumas dessas lojas são uma mais-valia. É o caso da loja da Fábrica de Sant’ana, que é uma loja única, de referência, e tem uma fábrica por trás. E, estando previsto um hotel que pertence ao Grupo Vista Alegre, faria todo o sentido ter uma loja de cerâmica integrada no edifício do hotel. Seria uma mais-valia para o hotel.

Se não houver algo que trave este movimento, esta descaracterização, corremos o risco de, em breve, os próprios turistas não quererem ficar na cidade de Lisboa – ou seu centro, pelo menos -, porque a única coisa que terão para ver são os hotéis e os restaurantes. Mesmo os restaurantes podem ir correndo o risco de desaparecer.

 

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Como é que se pode distinguir entre as lojas históricas e o restante comércio tradicional, que será mais indiferenciado? Haverá uma zona de fronteira…

Sim, há um conjunto de critério definidos pela câmara, aprovados em reunião da autarquia, por unanimidade das forças políticas. Para ser considerada uma loja histórica, há que preencher três núcleos de critérios. Primeiro, é a actividade, que terá de ser única, como a da Luvaria Ulisses. Existe um segundo critério, que é o património material da loja. O terceiro critério é o da relevância que essas lojas têm para a cidade de Lisboa e do acervo que elas criaram para a cidade. É o caso do Martinho da Arcada ou a pastelaria Suíça. Aquilo que se tem de proteger é aquelas lojas que fazem a diferenciação.

 

Quem anda na Rua da Prata continua a ver muitos espaços devolutos, apesar da imensa procura de lojas e das rendas elevadíssimas…

Porque a maior desses espaços já foram comprados pelos tais fundos imobiliários, que já os venderam a hotéis ou têm projectos aprovados. Entretanto, também há problemas relacionados com lojas que estavam lá e desapareceram. Mas, em muitos desses casos, vão também surgir aí hotéis.

 

Não teme que já se tenha chegado a um ponto de não retorno nesta questão da excessiva aposta no turismo?

Isso é o que temos vindo a dizer, consecutivamente, ao senhor presidente da câmara. Acho que, neste momento, a própria CML já começa a ter outra sensibilidade e percebeu que temos que chegar todos aqui a um equilíbrio, uma protecção – algo para que se apela também no Porto. Se não, como referi, daqui a dois ou três anos, os turistas já não querem ficar na Baixa, porque são só hotéis.

 

 

  • Vasco
    Responder

    Foi precisamente o congelamento das rendas que levou a estas disparidades. Se o mercado de arrendamento fosse livre como no estrangeiro existiriam muitos mais espaços disponíveis e os valores das rendas tenderiam a baixar. O que acontece actualmente é que um paga 50 euros de renda, e o outro na loja ao lado paga 5000. Não há meio termo.

  • Paula Sousa
    Responder

    Salvar o comércio tradicional?????????Como é que querem salvar o comércio tradicional se as únicas lojas que estão salvaguardas são as lojas históricas.Eu tenho uma loja na Rua da Prata,considerada apenas tradicional pela CML,que já vai na 3ªgeração,que apoia jovens designers portugueses,que apoia o fabrico português,que apoia pequenos fabricantes…e mesmo assim(desta loja depende 4 famílias e dezenas de pequenos fabricantes)estou em risco de ir para a rua…eventualmente para mais um hotel….é uma luta inglória.A Baixa vai se resumir a hotéis,restauração e lojas de paquistaneses (que teriam que ser investigadas,porque não entendo como conseguem pagar rendas de 3.000 e mais a vender galos de barcelos).Neste momento,tenho vergonha e tristeza desta Baixa.

  • Academia Cidadã
    Responder

    “Tem de haver um limite ao aumento das rendas para salvar comércio tradicional” | O Corvo |… https://t.co/lenFvtTvcw

  • José
    Responder

    Este senhor,Carla Salsinha, se fosse o dono de alguma destas lojas,espaços na baixa, DE CERTEZA QUE NÃO PENSAVA ASSIM.
    Agora é dos outros.

  • Paula Gomes
    Responder

    Concordo plenamente, mas nada se investiga porque assim não iriam ter muitos votos!!!

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