Crónica

 

O homem – um reformado de Benfica – esqueceu-se que os museus fecham à segunda-feira ou esqueceu-se que era segunda-feira. Fosse o que fosse, naquele dia não poderia ver a exposição sobre a Lusitânia Romana, no Museu Nacional de Arqueologia.

Aproveitando a deslocação a Belém, decidiu entrar no centenário Jardim Colonial, uma das antigas atrações da zona dos Jerónimos, denominado hoje Jardim Botânico Tropical. Não ia lá há mais de dez anos, o que não deve ser caso único entre os lisboetas: mesmo numa tarde de sol, o número de visitantes contava-se pelos dedos da mão e ainda sobravam dedos.

Duas horas depois, quando voltou a passar frente ao Museu Nacional de Arqueologia, o homem reparou que a porta estava aberta e, a seguir, viu sair duas pessoas, conversando animadamente. Eram arqueólogos, jovens, e tinham acabado de participar num seminário da sua especialidade.

– Sim, hoje o museu está fechado, confirmaram.

– Já agora, digam-me uma coisa: quem é que trouxe o cristianismo para Portugal? Foram os romanos?

– Foi ainda no período romano, mas não foram eles: foram os suevos.

Suevos?! No liceu, há mais de 50 anos, o homem ouviu falar em celtas, visigodos, iberos, celtiberos e alanos, mas já não se lembrava dos suevos.

– E os árabes? – insistiu.

– Antes de eles chegaram, nós já cá estávamos – respondeu um dos arqueólogos.

– Nós, quem?!

– Os cristãos!

Os arqueólogos estavam com pressa, a conversa ficou por aqui.

Quanto aos lusitanos propriamente ditos, quem visitar a exposição ficará a saber que eles foram “o povo que mais longamente se opôs a Roma”. Habitavam um território que se estende do Douro ao Algarve e engloba parte da Estremadura espanhola e da Andaluzia, que na altura era “o extremo do mundo conhecido”. No ano 25 antes de Cristo, após “quase 200 anos de conquista e ocupação”, a Lusitânia foi finalmente integrada no Império Romano. Os descendentes dos lusitanos continuaram, contudo, a adorar os seus deuses, incluindo Mitra, uma divindade oriental.

 

Texto: António Caeiro

 

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