Quem decide aventurar-se a pé entre a Praça da Alegria e o Príncipe Real enfrenta uma subida desafiante, sempre a direito, colina acima, até ao chafariz da Mãe d’Água, pela rua do mesmo nome. Aí, começa um grande lance de escadas, ao cimo do qual se encontra a Rua da Alegria, que vai serpenteando alegremente do lado direito destas dificuldades, obrigando a uma caminhada mais longa.

 

Há, portanto, que subir a escadaria de pedra antiga, que começa junto ao chafariz construido em 1840, e onde termina o Aqueduto das Águas Livres. Mas uma pessoa, uma vez ali chegada, estará, talvez, menos preocupada com a história de Lisboa do que com a necessidade de recuperar o fôlego e de normalizar os batimentos cardíacos.

 

Uma paragem é bem vinda, tanto mais que é preciso atravessar com segurança o cruzamento da Rua da Mãe d’Água com a Travessa do Rosário. E é então que o transeunte se arrisca a ser surpreendido pela seguinte cena: um grupo de mulheres reza padres nossos e avé marias, em voz alta e sonante, de terço na mão, junto a uma casa de esquina em cuja parede a Madre Teresa de Calcutá sorri bondosamente para o mundo, enquanto, à porta, a Virgem Maria, numa imagem em tamanho natural, segura o Menino Jesus ao colo, e, de uma janela, Nossa Senhora de Fátima abençoa quem passa.

 

À porta da casa, um cartaz com uma interpelação: “Mãe, estás grávida?”. Uma espreitadela ao interior revela uma espécie de capela, com bancos corridos e um altar com símbolos religiosos, em frente do qual, geralmente, há pessoas ajoelhadas a rezar.

 

Um olhar mais atento ao grupo – ao qual, por vezes, se mistura um ou outro homem – permite perceber que este tem a atenção focada na esquina em frente, no edifício onde funciona a Clínica dos Arcos, a única clínica privada que faz abortos em Portugal. À porta desta, há sempre movimento, pessoas a entrar e a sair, e outras aguardam cá fora, em automóveis estacionados em segunda fila ou sentadas nos degraus na rua.

 

Não é preciso ser-se bruxo para adivinhar que estas mulheres e homens fazem parte de um movimento anti-aborto – este chama-se Associação Mãos Erguidas. Basta ficar um pouco na rua para ver que os seus membros não se limitam a rezar em voz alta, atravessam a rua e interpelam ou entregam panfletos a quem está à espera de ser atendido na Clínica dos Arcos – onde, por vezes, chegam a entrar. Fazem-o com modos amáveis e persuasivos, tentando convencer as pessoas de que estão a cometer um crime, e, com um sorriso, oferecem ajuda, amparo, falando, falando, falando sempre.

 

Quem, por força das suas circunstâncias, tem que subir muitas vezes a encosta entre a Praça da Alegria e o Príncipe Real sabe que se arrisca a deparar com a cena. As “missionárias” da Mãos Erguidas, e terço em punho, chegaram há cinco ou seis anos e vieram para ficar. O que varia são as reacções dos interpelados, homens e mulheres de cara fechada.

 

Há quem reaja mal e mande as senhoras dar uma volta. Há quem fique a ouvir o que têm a dizer. E há mesmo quem as siga, para dentro da sua “capela”, desistindo do que ia fazer. Também há quem tenha medo delas, como foi o caso de uma jovem negra, que à aproximação do grupo Mãos Erguidas, fingiu estar absorvida com o telemóvel e, sem levantar os olhos deste, avisou em tom receoso a mulher que a acompanhava:

“Não olhes para elas, estão a fazer feitiçaria, estão a fazer macumba!”.

 

 

Texto: Isabel Braga        Ilustração: Joana Martins de Carvalho

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