Em poucos anos, a capital transformou-se numa “cidade amiga do graffiti”, com referências elogiosas na imprensa internacional. O debate sobre se esta é uma forma de arte ou uma mera expressão de vandalismo parece ter arrefecido, muito por culpa da sua crescente aceitação. Para isso muito contribuiu a Galeria de Arte Urbana, que agora lança o primeiro álbum fotográfico, reunindo as melhores intervenções de 2012 e 2013.

 

 

Texto: Samuel Alemão                        Fotografias: Marina Aguiar

 

 

A cara e as mãos vão ganhando contornos mais definidos, a cada premir do dedo de Smile no doseador da lata de spray. A textura da pele e as suas pregas são desenhadas com minúcia, cautela mesmo, sujeitas a verificação constante. São gestos sincopados e rápidos, na tentativa de ser o mais bem-sucedido possível na execução da obra. O calor forte do início de tarde desta segunda-feira de verão está longe de conferir o conforto desejado. Na mão esquerda do artista – que ouve música nos headphones, enquanto trabalha – está uma das latas de aerossol que acabará por conferir existência a uma figura a tentar ser o mais fiel possível ao modelo contido na folha A4 segura pela mão direita. O original foi desenhado no computador.

 

O “muro azul” das traseiras do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos) está repleto de graffiti e Ivo Santos, verdadeiro nome do artista de 28 anos, cabelo rapado e pele queimada pelo sol desnudada pela camisola de manga cava, vai avançando a passos largos nos contornos cada vez mais definidos do seu contributo para esta obra colectiva – iniciada em 2012, sob a tutela da Galeria de Arte Urbana (GAU) da Câmara Municipal de Lisboa. “O que faço pode ser encarado como fotorrealismo”, concorda, de forma didática, ao explicar a técnica por si praticada. Iniciou-a quando passou a tirar fotografias, trabalhá-las digitalmente e a tentar ser-lhes o mais fidedigno possível. Conta isto, numa pausa para conversar com o Corvo, à sombra desta parede-tela, junto a um estreito passeio, ao lado do qual os carros desenham rápidas tangentes.

 

Os trabalhos feitos nos últimos dois anos no “muro azul” serão apenas um dos pontos de referência a constar do livro Street Art Lisbon – volume I, a lançar esta quinta-feira, ao final da tarde (18h30), na livraria Ler Devagar, na LX Factory, em Alcântara – na ocasião, decorrerá uma acção de “live painting” da artista Vanessa Teodoro. O volume, uma edição conjunta da GAU e da Zest Books, reúne as imagens “do que de mais relevante se realizou, com trabalhos patentes nas ruas, durante 2012 e 2013”. Trata-se do primeiro de uma série de álbuns sobre este tema, anunciada como “a primeira colecção de livros dedicada a este universo plástico a nível nacional”. O livro terá um mapa com a localização de todas as peças referidas e as suas coordenadas GPS, permitindo que cada um estabeleça o seu roteiro temático.

 

A institucionalização do graffiti pode bem assumir-se como uma realidade mais ou menos incontestada. Isto apesar de, sendo forma de expressão relativamente recente, ainda estar longe da classificação de consensual. Smile sabe-o bem, até porque não renega as raízes da sua relação com os sprays aspergidos nos mais diversos pontos do espaço público. Para as encontrar é preciso recuar até quando tinha 14 anos. A ilegalidade era, até há bem pouco tempo, um dos sinónimos desta prática. E o facto de, desde 2010, ele poder viver deste modo de vida – deixando para trás o trabalho numa grande superfície de venda de electrodomésticos – não o faz esquecer a génese. Esta é uma arte de rua, nascida na ilegalidade. E assim continua a ser para muitos. “Todas as noites, há comboios a serem pintados”, diz Smile.

 

SMILE 9

 

O algo estafado debate sobre o graffiti e a street art, realizado sob o mote “arte ou vandalismo”, parece ter feito o seu caminho na comunicação social. Até praticamente se extinguir ante os – sempre adorados pelos portugueses – elogios da imprensa internacional à qualidade da arte pública praticada em Lisboa. Ainda recentemente, o jornal Huffington Post considerou a capital portuguesa como uma das urbes com melhor arte pública a nível global. Para isso, parece ter contribuído de forma clara a decisão da autarquia liderada por António Costa de criar, em Outubro de 2008, uma forma de enquadrar o que, até então, era visto como mero acto de vandalismo, de destruição do espaço público e da propriedade privada. Surgia o GAU, com a colocação, no primeiro semestre de 2009, no troço superior da Calçada da Glória, de painéis onde os graffiteiros se podiam expressar sem receios.

 

A medida foi tomada como complemento à então anunciada operação de limpeza do Bairro Alto, iniciada após as queixas de moradores e comerciantes relativas à aparente impunidade de quem utilizava as suas ruas para dar azo aos mais primários desejos de expressão gráfica. “O município não quis que esta operação fosse vista como um acto de censura. Apostou-se, por isso, na desconstrução do preconceito, explicando-se as diferenças entre intervenções artísticas e os actos vandálicos”, explica Inês Machado, uma das responsáveis pela GAU, sem deixar de reconhecer que “vai haver sempre o lado da intervenção ilegal, pois essa é uma das marcas identitárias desta sub-cultura”. E isso é bem visível por toda a cidade. Olhe-se o estado em que, com frequência, ficam largas parcelas de paredes de propriedades públicas e privadas. Veja-se o que acontece aos ascensores da Bica, do Lavra e da Glória.

 

“Não temos o papel de polícia. Tentamos que haja espaço à criatividade, mas que se respeite o património”, diz Inês Machado. A GAU, que inicialmente terá sido visto com um misto de desconfiança e condescendência – mesmo entre a comunidade a quem se destinava -, rapidamente se afirmou como o catalisador da crescente tendência de aceitação do graffiti e da street art por parte do grande público. Para além da disponibilização de um cada vez maior número de paredes, onde os artistas ou pretendentes a tal podiam libertar os seus impulsos criativos, a GAU passou a também a oferecer a possibilidade de muitos jovens criadores terem uma maior visibilidade através da intervenção em equipamentos públicos municipais, como vidrões e camiões de recolha de resíduos sólidos urbanos.

 

“Lisboa é uma cidade amiga do graffiti e da street art, isso é claro. E nota-se que há uma aceitação cada vez maior das pessoas em relação a estas formas de expressão. Isso é a prova de que a estratégia municipal neste campo tem resultado”, diz Inês Machado, que faz questão de sublinhar a atitude vigilante e de monitorização face aos abusos, ou seja, o pintar fora do sítio. Missão que, muitas vezes, fica aquém do desejado. Basta abrir os olhos e notar as muitas paredes onde as tais “acções vandálicas” se evidenciam. Por isso, a GAU tem uma acção associada a outros serviços da CML, como os das áreas da educação, de apoio social e da Geablis – empresa que gere o património habitacional do município.

 

DSC_4924

 

A vigilância maior, garante a responsável pelo gabinete camarário, está virada para as áreas do centro histórico, onde a necessidade de preservar património classificado é naturalmente maior e menor o espaço disponível para a realização de intervenções plásticas deste género. “Não existem tantas empenas disponíveis”, reconhece Inês Machado, depois de frisar que qualquer acção de um artista, feita dentro da legalidade e validada pela GAU, terá sempre de ser sujeita a autorização junto de cada uma das Unidades de Intervenção Territorial (UIT’s) em que se dividem os serviços de administração urbanística pela cidade. São elas, em última análise, quem pode vetar determinado lugar para se realizar um graffiti.

 

É assim que se percebe melhor a razão de certos edifícios não poderem ser intervencionados, enquanto outros podem. Bem, para além disso, a montante das UIT ainda está, como é óbvio, a vontade dos proprietários dos imóveis alvo da potencial intervenção – a qual, garante a GAU, é quase sempre positiva, em face dos muitos pedidos de artistas recebidos quase todos os dias. A disponibilidade dos donos dos edifícios e a mediação da autarquia permitiram que se criasse um clima de receptividade a este género de intervenções. Isso ficou patente a partir do momento em que, em 2010, um quarteirão devoluto a meio da Avenida Fontes Pereira de Melo foi sujeito à visão da dupla brasileira Os Gémeos, originária de São Paulo.

 

Essa obra, já um clássico, tornou-se numa referência incontornável da nova marca identitária lisboeta. É frequente verem-se turistas a fotografá-la. Vêm, muitas vezes, já com roteiros preparados, com a ajuda dos cada vez mais frequentes artigos da imprensa internacional. “Tendo em conta as obras já existentes, quando comparadas com o que se vai fazendo nas principais cidades que conheço, como Barcelona, Rio de Janeiro, Paris ou Nova Iorque, parece-me que há aqui uma combinação única, que faz de Lisboa um lugar com um nível elevado”, comenta Lígia Ferro, socióloga e antropóloga que se tem dedicado ao tema e que, em 2011, no âmbito do seu doutoramento, defendeu a tese “Da Rua para o Mundo: Configurações do Graffiti e do Parkour e Campos de Possibilidades Urbanas”, no Instituto Superior das Ciências Sociais e da Empresa.

 

Lígia Ferro concorda com a ideia de o surgimento da GAU se ter assumido como determinante na institucionalização do graffiti em Lisboa. Mas faz notar que para isso também foi incontornável o papel dos principais protagonistas, os artistas. Foram eles que, com a qualidade das suas intervenções, fizeram uma espécie de distinção natural, separando o vandalismo do gesto portador de mais-valia estética. “Esta é uma cidade com uma considerável concentração de grandes artistas, os quais têm cada vez melhores ligações internacionais. Existe o Vihls, de quem agora se fala bastante – por causa da exposição da sua obra no Museu da Electricidade -, mas existem muitos outros de qualidade”, sustenta a investigadora, lamentando que a cidade onde agora vive, o Porto, tenha tido, durante os anos em que Rui Rio foi presidente da câmara, uma atitude “muito repressiva e conservadora”.

 

SMILE 5

 

Isso poderá vir a mudar com o executivo liderado por Rui Moreira, que aparenta ter uma diferente sensibilidade, diz Inês, referindo-se a uma recente iniciativa de arte urbana realizada no edifício da seguradora AXA, na Avenida dos Aliados. Foi um sucesso. E isso faz lembrar à socióloga um outro aspecto importante na consolidação do trabalho dos artistas de rua e na sua crescente visibilidade na capital. “As próprias marcas também já vêem aí um meio de projecção comercial”, sustenta, fazendo notar que elas garantem o sustento a alguns dos criadores. No fundo, e sinal inequívoco de maturidade, trata-se de uma actividade económica, como sucede com outras formas de expressão artística.

 

Que o diga Smile, para quem o viver do graffiti foi um objectivo conquistado a pulso, com trabalho árduo e muita dedicação à sua arte. Horas incontáveis ao sol e, pior, a estar sujeito aos mais que certos efeitos nocivos dos gases aspergidos das latas de aerossol. Isto apesar de usar máscara protectora. Ele diz, com um sorriso largo, que vai continuar a fazê-lo “até os pulmões aguentarem”. Além disso, reconhece, “este é um vício muito caro”, pois cada lata custa cerca de 3,8€ – em França, onde esta arte é imensamente popular e os vencimentos muito superiores, os preços oscilam entre 2,8€ e 3,4€. Por isso, só aqueles que são muito bons conseguem viver disto.

 

Há que tentar, então, saber vender-se. E aí, mais uma vez, a GAU acaba por assumir protagonismo, pelo menos numa fase inicial. “O que nós fazemos é dar condições. Existimos para apoiar e legitimar os artistas deste universo. Se isso permitir abrir portas e que os artistas façam dinheiro com a sua arte, ficamos muito contentes”, afirma Inês Machado, a responsável da GAU, que refere o facto de os seus serviços serem, com frequência crescente, contactados por empresas e particulares para os ajudarem a requisitar os préstimos dos artistas. “Até jardins de infância nos chamaram”, diz.

 

Com o aparente consenso criado em torno da arte urbana, é legítimo questionar sobre a pertinência de se começar a pensar na preservação do muito que tem sido criado. Ou seja, atribuir-lhe o estatuo de património público e classificado. “Não faz muito sentido. Isto é uma coisa que está sempre a ser alvo de intervenções umas em cima das outras. Quando fazemos isto, sabemos que tal pode acontecer. No fundo, isto é como um museu aberto, no qual as pessoas não têm que pagar”, considera Smile, habituado que está ao carácter precário, e por isso temporário, da suas intervenções. No fundo, pensar de outra forma seria como uma contradição de termos.

 

DSC_5011

 

O mesmo acha Inês Machado. “A nossa abordagem, a condição com a qual à priori temos que lidar, é a de que isto, a arte urbana, é algo sempre efémero”, afirma a responsável, que, não querendo alimentar ilusões sobre a possibilidade de se pensar num estatuto diferente, não deixa de reconhecer a pertinência de maior reflexão sobre o assunto. Algo com que Lígia Ferro concorda, sem deixar de enfatizar que “a vertente vandálica do grafitti nunca deixará de existir”. “Acho que tal se pode colocar em alguns casos. Poderá fazer sentido, mas será sempre difícil”, afirma. Em todo o caso, aponta o caso do debate entre a comunidade da cidade inglesa de Bristol sobre a necessidade de preservar as obras da agora super-estrela Banksy.

 

Lígia faz notar que, em alguns países, essa é uma preocupação crescente, tendo-se mesmo assistido a diversos casos de acções de recuperação de intervenções artísticas que estavam a perder o seu aspecto original. E dá o exemplo de um estudo levado a cabo na Nova Zelândia, em que se concluiu que um mural pintado por graffiti, com autorização das autoridades, tem um significativo efeito dissuasor das acções feitas à margem da lei. O que faz todo o sentido, se pensarmos na génese desta arte, tal como verbalizada por Smile: “Esta é uma forma de expressão muito egocêntrica. A gente faz isto para os outros verem e admirarem o nosso trabalho. Se não, ficávamos em casa”.

  • Paulo Ribeiro
    Responder

    #streetart e #graffiti são já parte inalienável da imagem de #Lisboa http://t.co/YKNNVm8XXw (Via @ocorvo_noticias)

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Street art e graffiti são já parte inalianável da imagem de Lisboa – http://t.co/7C8a2GZUpl

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com