Isto cá por cima anda mau, mas será caso para descer tão baixo? É a pergunta que me vem a cabeça cada vez que entro na estação do Metropolitano do Marquês de Pombal. De cada vez a visão repete-se. Há bem uns quatro anos que é assim. Chego a perder transporte só para os ver melhor.

São pombos. Pombos completamente adaptados aos céus baixos e aos sóis frios da galeria subterrânea. O ruído brutal da chegada das composições deixa-os indiferentes, à passagem das multidões distraídas pouco mais fazem do que afastar-se para as margens.

Infringem a regra, sempre debitada pelo sistema de som, de não ir para além do traço amarelo à beira da linha. E os voos são curtos. Pouco mais do que saltos de uma plataforma para outra, para debicar o que houver esquecido debaixo dos bancos.

O trabalho a que se terão dado para chegar ali! Estão dois níveis abaixo do solo. Entraram sabe-se lá por onde e vieram descendo, primeiro para a zona das bilheteiras e dos torniquetes, depois continuaram para o piso abaixo, abafado e ciclicamente agitado por cordões de gente que sempre deixa um rasto apetecível.

“É caricato, mas tem a sua razão de ser. O pombo é uma ave oportunista que se fixa onde há pessoas e alimento. E no Metro acontece isso”, diz o biólogo Hugo Sampaio, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. O especialista não conhecia a existência destas aves subterrâneas mas não se espanta:“Ali há sempre migalhas e o Marquês é das estações onde passa mais gente, e mais gente é mais comida. O pombo adapta-se bem à convivência com o homem – que não lhe faz mal pois hoje praticamente já não se come pombo. Passam-se casos semelhantes com pardais em gares de aeroportos. É o caso do de Ponta Delgada, onde estas aves fizeram os ninhos”.

Olhando melhor, sobretudo nos momentos mais calmos da estação, vê-se que nem só os pombos se adaptaram. Os humanos também: pelo menos ao hábito pobre de almoçar sandes debaixo de terra e à companhia indiferente do pássaro. Talvez ali ocorra um entendimento subtil: entre pássaros que deixaram de ser selvagens e gente que deixou de ter posses.

 

Texto e fotografia: Francisco Neves

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