Sob os céus do Metropolitano

CRÓNICA
Francisco Neves

Texto

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

25 Setembro, 2013

Isto cá por cima anda mau, mas será caso para descer tão baixo? É a pergunta que me vem a cabeça cada vez que entro na estação do Metropolitano do Marquês de Pombal. De cada vez a visão repete-se. Há bem uns quatro anos que é assim. Chego a perder transporte só para os ver melhor.

 

São pombos. Pombos completamente adaptados aos céus baixos e aos sóis frios da galeria subterrânea. O ruído brutal da chegada das composições deixa-os indiferentes, à passagem das multidões distraídas pouco mais fazem do que afastar-se para as margens.

 

Infringem a regra, sempre debitada pelo sistema de som, de não ir para além do traço amarelo à beira da linha. E os voos são curtos. Pouco mais do que saltos de uma plataforma para outra, para debicar o que houver esquecido debaixo dos bancos.


 

O trabalho a que se terão dado para chegar ali! Estão dois níveis abaixo do solo. Entraram sabe-se lá por onde e vieram descendo, primeiro para a zona das bilheteiras e dos torniquetes, depois continuaram para o piso abaixo, abafado e ciclicamente agitado por cordões de gente que sempre deixa um rasto apetecível.

 

“É caricato, mas tem a sua razão de ser. O pombo é uma ave oportunista que se fixa onde há pessoas e alimento. E no Metro acontece isso”, diz o biólogo Hugo Sampaio, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. O especialista não conhecia a existência destas aves subterrâneas mas não se espanta:“Ali há sempre migalhas e o Marquês é das estações onde passa mais gente, e mais gente é mais comida. O pombo adapta-se bem à convivência com o homem – que não lhe faz mal pois hoje praticamente já não se come pombo. Passam-se casos semelhantes com pardais em gares de aeroportos. É o caso do de Ponta Delgada, onde estas aves fizeram os ninhos”. 

 

Olhando melhor, sobretudo nos momentos mais calmos da estação, vê-se que nem só os pombos se adaptaram. Os humanos também: pelo menos ao hábito pobre de almoçar sandes debaixo de terra e à companhia indiferente do pássaro. Talvez ali ocorra um entendimento subtil: entre pássaros que deixaram de ser selvagens e gente que deixou de ter posses.

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