É necessário perder os medos e assumir que, se calhar, não será assim tão mau edificar habitação na zona ribeirinha. A tese foi defendida, esta quinta-feira (16 de Outubro), por João Pedro Costa, professor da faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, um dos participantes no ciclo de Conversas com as Maresias, que se prolongará até Dezembro no Torreão Poente do Terreiro do Paço, onde está patente a exposição “Maresias- Lisboa e o Tejo 1859-2014”.

O arquitecto falou das perspectivas futuras e de fantasmas antigos, como o POZOR, o polémico Plano de Ordenamento da Zona Ribeirinha, elaborado nos anos 90 pela Administração do Porto de Lisboa e muito contestado pelos lisboetas que não queriam a área junto ao rio repleta de construção.

“Lisboa ainda não conseguiu ultrapassar o trauma do POZOR, mas a questão de se fazer habitação próxima do rio devia ser colocada com seriedade”, considerou João Pedro Costa, para quem, “mais cedo ou mais tarde, haverá alguma”.

“E porque não haver residências para estudantes junto ao rio?”, questionou o arquitecto, que defende “alguma habitação na zona ribeirinha”. Para João Pedro Costa, o que a frente ribeirinha de Lisboa está a viver é o advento do terceiro ciclo industrial, com a emergência das energias limpas e de uma nova indústria.

Mas “Lisboa chegou muito tarde, com algumas décadas de atraso,” a este novo ciclo, comparativamente com outras cidades, como Helsínquia, “que está desde 1992 a adaptar a cidade, retirou o porto do centro, levou-o para uma zona a 20 quilómetros de distância e apostou numa requalificação com habitação densa, como forma de pagar as infraestruturas”

Em Lisboa, ainda “será preciso tentar perceber o que é que vem aí, e como é que a cidade se está a preparar para a nova economia”, preconiza.

Ao longo desta primeira Conversa das Maresias, falou-se também das recentes enxurradas que afectaram a capital. “Lisboa vai ter de se preparar para viver com as inundações. E não nos devemos colocar em excesso de dependência de infraestruturas. Temos de reaprender a viver com a natureza e a lutar menos com ela”, defende o arquiteto.

O que há a fazer, sustentou, “é preparar a cidade para ser bem inundada”. Para isso, é preciso actuar. Não só da forma como já o fazem muitos comerciantes da Rua de São José e das zonas do vale da Avenida da Liberdade, colocando placas na entrada dos estabelecimentos, mas, sobretudo, “desimpedindo o espaço público, para que não haja carros nem barreiras” a cortar o caminho à água.

“Se a cidade estiver preparada para ser bem inundada, o impacto das cheias será menor”. Em Hamburgo, na zona reabilitada do antigo porto, os prédios já têm portas vedantes”, exemplificou.

Para João Pedro Costa, o conhecimento disponível em matéria de alterações climáticas, com a previsível subida do nível do mar, a par da tendência para um aumento de frequência do fenómeno das “flashfloods”, cheias repentinas, que se conjugam com momentos de marés altas, criando “uma combinação explosiva”, obrigam a cidade a preparar-se para situações como as que se verificaram dia 13 de Outubro e também dia 22 de Setembro.

“Temos de ser capazes de ver ao longe. Não sabemos se a combinação explosiva de todos estes factores se verificará daqui a 10, 20 ou 30 anos, mas isso é irrelevante. Porque sabemos é que caminhamos para lá”, disse o arquitecto, citando exemplos de outras cidades e países que já tiveram de “aprender a viver com a água”.

“A Holanda viveu 200 anos a lutar contra a água, mas, em 2008, mudou de paradigma e passou do “fighting against water” para o “living with water”, ou seja, aprender a viver com a água”, afirmou.

Neste caminho, “há que evitar a lógica da dependência excessiva das infraestruturas e mudar de paradigma”, defendeu ainda o arquitecto, dando como exemplo casos como o da “janela que não abre, porque é suposto no interior funcionar o ar condicionado”.

O ciclo de Conversas das Maresias prossegue dia 24 de Outubro no torreão poente do Terreiro do Paço, numa sessão em que se falará das Metamorfoses Arquitectónicas e Urbanísticas da Frente Ribeirinha. Nela vão participar os arquitectos Ana Costa, Bruno Soares, João Gomes da Silva e João Carrilho da Graça e o investigador Nuno Soares, da e-Geo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

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