Será possível envolver mais os cidadãos nas grandes decisões da cidade de Lisboa?

ACTUALIDADE
Samuel Alemão

Texto

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

7 Julho, 2016


As obras de requalificação da Segunda Circular, iniciadas nesta semana e que deverão durar cerca de um ano, têm estado no centro da discussão política, nos últimos meses. As trocas de argumentos sobre os benefícios e malefícios da grande intervenção, bem como daquela que está em curso no Eixo Central, vêm enchendo páginas de jornais e mobilizado diversas correntes de opinião, com as eleições autárquicas de setembro de 2017 em pano de fundo. A realização da obra até se enquadra nas linhas definidas pelo Plano Director Municipal (PDM), mas, para lá das discordâncias políticas, há quem ache que se deveria ter auscultado primeiro a população da cidade sobre a sua necessidade.

“No caso da intervenção na Segunda Circular, achamos que os cidadãos deveriam ter sido ouvidos e que há outras prioridades na cidade antes de se avançar para um projecto que custará 12 milhões de euros. Antes de se resolver o problema dos carros, haveria necessidade de criar ali uma via para uso exclusivo dos transportes públicos”, diz ao Corvo Irina Gomes, responsável pelo Grupo de Ordenamento do Território e Mobilidade na associação ambiental GEOTA (Grupo de Estudos do Ordenamento do Território e Ambiente). “As pessoas têm o direito a dizerem quais as coisas que querem ver feitas, em primeiro lugar, na sua cidade, e não ser colocadas perante factos consumados”, diz.

A sua associação quer relançar a discussão sobre a democracia participativa na definição das políticas de cidade em Portugal e em Lisboa e, por isso, organiza, juntamente com a associação portuguesa Locals Approach e a islandesa Citizens Foundation, o encontro Iniciativa para o Potencial Urbano, a 9, 11 e 12 de julho, que se divide em três iniciativas. A mais importante das quais será a do primeiro dia, a conferência e workshop a decorrem na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, na Ajuda – depois, no dia 11 (segunda-feira), haverá lugar a troca de experiências entre associações, nas instalações da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, também na Ajuda, e, no dia 12, realizar-se-á um debate na Associação Rés-do-Chão, na Rua Poço dos Negros.

A conferência do dia 9 (sábado), no qual participam, entre outros, a vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa, Paula Marques, e a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, parte da premissa de que “os processos de planeamento serão tão mais bem sucedidos quanto melhor souberem auscultar a realidade a que se aplicam e quanto mais inclusivos forem no desenho das suas propostas técnicas”. Nessa discussão participará também Gunnar Grímsson, da Citizens Foundation, organização não governamental islandesa surgida após a crise financeira de 2008 e que, mobilizando um grande debate, influenciou a definição do programa municipal da capital, Reykjavik, na sequência das eleições autárquicas de 2010.

O que o Geota pretende para Lisboa, e o resto do país, é algo semelhante. “Passamos a vida a correr a denunciar o que está mal feito. Mas o que queremos é mudar esta forma de actuar e começar a fazer um trabalho de base para influenciar a forma como se faz a cidade. O objectivo é que as pessoas participem numa fase anterior à tomada de decisão política”, defende Irina Lopes, que, embora elogie os princípios subjacentes ao Orçamento Participativo (OP) de Lisboa – o qual, desde 2008, distribui 1,5 milhões de euros das despesas anuais do município a projectos votados por sufrágio popular -, considera haver ainda muito por fazer para “envolver a comunidade na tomada de decisões que lhes dizem respeito”. “O OP é bom, sobretudo pela mensagem de abertura que transmite, mas é muito insuficiente, pois estamos a falar de uma verba que representa 0,1% do orçamento municipal”, diz.

MAIS ACTUALIDADE

COMENTÁRIOS

  • Vasco Leitão
    Responder

    é melhor não, senão perdem alguns negócios com obras…

  • Helder Careto
    Responder

    Acabadinho de sair! O artigo d’O Corvo sobre a Iniciativa para o Potencial Urbano, uma iniciativa conjunta do… https://t.co/Coxm5L7LyK

  • Urban Potential
    Responder

    “Será possível envolver mais os cidadãos nas grandes decisões da cidade de Lisboa?” Não só é possível como é… https://t.co/jzYDAmY1BP

  • Maria Sá
    Responder

    Absolutamente inacreditável o que se passa em Lisboa com as obras!!!! E não venha o Arq Salgado dizer que é normal porque não é!! Tudo por causa das eleições para o ano!!

  • Urban Potential
    Responder

    “Será possível envolver mais os cidadãos nas grandes decisões da cidade de Lisboa?” Não só é possível como é… https://t.co/Ei6c1ETzQz

  • Tomás
    Responder

    Isto levanta sempre a questão da democracia não representativa que abre espaço à ignorância pública e entrega-lhe poder.

  • Vasco
    Responder

    Então é que não se fazia nada em Lisboa. Já nos bastam os políticos burocratas. Os habitantes nunca estão satisfeitos com nada e iriam impedir tudo e mais alguma coisa.

  • Rui Martins
    Responder

    “Será possível envolver mais os cidadãos nas grandes decisões da cidade de Lisboa?”
    é possível, sim senhor.
    assim… https://t.co/gCEuKKW2T9

  • maria
    Responder

    Acho q nao.. A maior parte de nós nao tem capacidade para isso… Ainda acabamos a dzr q queremos um Portuguexit ou a votar num Trump versao portuguesa p comandar o país…

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Send this to a friend