Será mesmo necessário as ambulâncias em emergência fazerem assim tanto ruído?

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

6 Setembro, 2016


Sem pensarmos muito sobre o assunto, todos as reconhecemos como indícios da moderna vida urbana. Mas as sirenes das ambulâncias e veículos de emergência médica, tal como dos bombeiros e da polícia, quando em excesso, perturbam. Embora em reduzido número, há gente a queixar-se. Certas zonas de Lisboa transformaram-se em trilhos de urgência estridente, como a Avenida Almirante Reis. O INEM diz que cumpre a legislação e que os condutores recebem formação para o uso consciencioso deste dispositivo sonoro. Desde janeiro de 2015, o instituto recebeu oito queixas devido ao ruído das suas ambulâncias.

Aquela noite de abril de 2012 ainda está bem presente na memória de Inês Noivo, 34 anos. Não é coisa que se esqueça, pois era a primeira vez que dormia no apartamento para onde se mudara, no cruzamento das avenidas de Roma e João XXI. E o choque foi grande. O ruído das sirenes das ambulâncias fazia-se ouvir de forma bem evidente dentro da sua casa, a cada vez que um dos veículos passava em marcha de emergência, apesar das janelas fechadas. O que ali, tal como noutras artérias centrais de Lisboa, é sinónimo de algo que acontece com uma cadência bastante regular. Ou seja, a intervalos de alguns minutos, e às vezes de apenas umas dezenas de segundos. Tanto que, em algumas zonas da cidade, se cria diariamente uma espécie de tapeçaria sonora de sirenes.

“Lembro-me de pensar ‘meu deus, o que estará a acontecer?’”, recorda Inês, explicando que, após o choque inicial, se resignou a um quotidiano de estridência irrompendo pelo sítio onde vive com a família. Isto apesar de, baseada na sua subjectiva percepção, afirmar que o número de ambulâncias a passar por ali até aumentou nos últimos dois anos. “Percebi logo que ia ter muito barulho. Mas acabei por me habituar”, admite. Uma situação que muita gente que vive na capital portuguesa, e noutras cidades do país, verá como familiar. Afinal, todos nos acostumámos, uns mais que outros, a conviver com, e a tolerar, as avalanches de histrionismo sobre rodas. A indiscutível utilidade social das ambulâncias, como de todos os veículos que utilizam sirenes de emergência, tende a diminuir qualquer ensaio de censura.

O que não significa que estejam longe de causar incómodo. Se é verdade que uma sirene visa chamar à atenção, permitindo assim facilitar a marcha dos veículos que circulam em situação de emergência, isso significa que recorre a níveis de ruído acima do considerado normal para o conseguir. Tanto que, ouvida de rompante, uma sirene assusta. Quando esse estado de excepção do nível de decibéis assume um regime de rotina, fácil é adivinhar as consequências físicas e psicológicas daí resultantes. O stress provocado pela exposição regular ao ruído das sirenes poderá ser o suficiente para deixar muita gente irritada com a vida na cidade – embora a sua presença até possa ser vista como uma das marca identitárias da vida urbana moderna, tal a sua omnipresença. O que levanta a questão: Será mesmo necessário as ambulâncias em emergência fazerem tanto ruído?

Apesar do tradicional alheamento dos portugueses em relação a alguns aspectos relacionados com a qualidade de vida na cidade – basta atentar à tolerância para com os automóveis em cima do passeio ou em segunda fila -, há cada vez mais gente a sentir-se incomodada. Certas zonas de Lisboa, como a Avenida Almirante Reis, tornaram-se um calvário para muitos dos que lá vivem, tal a constância do barulho das ambulâncias. É o caso de Mário Ferreira, 36 anos, que mora num rés-do-chão de um prédio situado naquela artéria, entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Praça do Chile. “Nos últimos anos, a avenida transformou-se num corredor hospitalar. Há sempre ambulâncias a passar, para além dos bombeiros”, queixa-se.

Mário não consegue precisar a frequência da passagem de ambulâncias em marcha de emergência, mas aponta para uma regularidade com intervalos nunca inferiores a dez minutos. É que a avenida fica a caminho dos hospitais de São José, Capuchos e Dona Estefânia. E o pior, diz, “são as dos INEM”. O morador refere que o toque dos veículos do Instituto Nacional de Emergência Médica é muito mais agressivo que os das outras ambulâncias. “Trespassa”, descreve. “Como está quase sempre muito trânsito, a ambulância ou carro com o médico chega ao cruzamento e, de repente, começa a tocar. Isto acontece durante todo o dia e, às vezes, de noite”, nota, confessando que este regime sonoro lhe está a causar um significativo decréscimo na qualidade de vida e da sua companheira.

O residente naquela extremidade da freguesia de Arroios vai ser pai, e está preocupado com as implicações da exposição permanente da sua família a tais níveis de ruído. Por mais que o tempo passe, Mário não se acostuma à chinfrineira junto à cabeceira. “Chego a casa e nunca descanso. Quando vou passear ao campo, é que percebo o barulho a que estou sempre exposto”, diz este urbanita convicto. “Sempre gostei de cidade”, reforça, lembrando que, há alguns anos, até se mudou da cidade de Setúbal para Lisboa, para estar mais próximo do coração da vida urbana. Mas o confronto com a frequência e, sobretudo, o volume das sirenes está a causar mossa. Mário trabalha no sector do turismo, na zona do Castelo de São Jorge, onde, mesmo lá em cima, chega o estridor das ambulâncias. “Há turistas que, admirados, me perguntam ‘mas, passa-se alguma coisa na cidade?”.

Um grande aglomerado urbano contemporâneo, queira-se ou não, tem as sirenes como parte da sua banda sonora – tanto que tal sonoridade se encontra perfeitamente assimilada pela cultura audiovisual, há décadas que filmes e séries norte-americanas e europeias nos devolvem esse eco da cidade. Mas é legítimo perguntar se os níveis de volume sonoro de tais dispositivos estarão ajustados à realidade da vida comunitária. O INEM, questionado pelo Corvo, diz que sim, lembrando que as características da sinalização sonora e luminosa das ambulâncias está definida pelo Regulamento de Transporte de Doentes.

“As ambulâncias do INEM são do tipo B e estão equipadas com uma sirene de 100W, com três tons, dando cumprimento ao estipulado”, explica, por escrito, um responsável pela comunicação do instituto, acrescentando: “Também os fornecedores das ambulâncias têm certificado/declaração referente às sirenes, que obedecem Normas internacionais, o que permite constatar a conformidade das mesmas”. As ambulâncias de tipo B são as únicas que podem ser utilizadas no transporte de doentes “urgentes e emergentes”. As outras, de tipo A e C, destinam-se ao transporte de doentes noutras situações. O mesmo responsável assinala que “para que se considere que uma ambulância circula em marcha de emergência é necessário o uso de sinais luminosos e sonoros em simultâneo”. Ou seja, é mesmo necessário fazer barulho.

O porta-voz informa que, em 2015, num total de 325 reclamações recebidas pelo INEM, “cinco diziam respeito ao ruído causado pelas sirenes”. “Já no ano corrente, e até ao presente, o INEM contabiliza três reclamações relativas ao uso excessivo de sirenes. Se se tiver em conta a ubiquidade das ambulâncias amarelas, podemos considerar que até há poucas reclamações em relação ao volume sonoro. “Circulam em Lisboa centenas de ambulâncias – do INEM, de Corporações de Bombeiros, da Cruz Vermelha Portuguesa e de entidades privadas de transporte de doentes. O INEM conta atualmente 15 ambulâncias de emergência médica operadas diretamente pelo Instituto, com base na capital”, esclarece.

Questionado sobre o que pode ser feito para reduzir o nível de ruído produzido pelos veículos em marcha de emergência, a mesma fonte explica que “os colaboradores do INEM têm formação específica em condução de emergência, sendo uma das temáticas abordadas a da utilização consciente e responsável das sirenes, sem nunca descurar o Código da Estrada”. “Esta formação é revalidada por um período de 5 em 5 anos, ou sempre que o Instituto entender necessário”, refere.

Em diversos países, como Espanha, há cidades onde os veículos em marcha de emergência têm dispositivos de modulação do volume. Em Barcelona, por exemplo, os carros da polícia municipal apenas elevam o som da sirene ao aproximarem-se de um cruzamento ou de um ponto de congestionamento viário. No resto do percurso da marcha de emergência, o efeito sonoro é utilizado num nível moderado, a fim de não causar incómodo aos residentes dos locais por onde o referido veículo passa.

Também interrogado pelo Corvo sobre esta matéria, o responsável pelo grupo de ruído do grupo ambientalista Quercus admite não conhecer estudos feitos sobre o assunto no nosso país. Mas Paulo Carmo admite que “nem todos os veículos de emergência utilizam os sinais sonoros em situações de emergência”. “Será uma questão de educação e formação dos próprios condutores das ambulâncias”, diz. O ambientalista salienta que, na recente elaboração do Plano de Ruído de Lisboa, “a regulamentação foi desenhada de forma a que se criassem excepções para o aeroporto e para os veículos de emergência”. Existe, por isso, nesse campo, um regime liberal.

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