Sem electricidade, lojistas abandonam o moribundo Centro Comercial Imaviz

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

3 Fevereiro, 2015

Lojas às escuras e de portas fechadas, casas de banho indisponíveis, lixo por recolher, seguranças a patrulhar os desolados corredores do espaço comercial e impedindo o acesso dos lojistas ao contador da eletricidade e, por fim, a PSP chamada ao local para tentar dirimir um conflito de contornos confusos. Apenas duas lojas tinham electricidade, mas evidenciava-se um clima de tensão generalizada. Era este o cenário com que se depararia, a meio da tarde desta segunda-feira (2 de Fevereiro), quem entrasse no Imaviz Underground, em Picoas. É o aparente fim de linha para um espaço que havia ressuscitado no Verão de 2013.

Por isso, a grande maioria dos lojistas ainda presentes no que resta do antigo Centro Comercial Imaviz, em Picoas, estão a abandoná-lo por sentirem não ter condições para continuarem de porta aberta. Na sequência de diversos episódios semelhantes, quando ontem chegaram ao centro, quase todos os comerciantes tinham a electricidade cortada. Além disso, no local estavam dois elementos de uma empresa de segurança, alegadamente a mando de um dos empresários ali instalados – que será senhorio de alguns estabelecimentos e sócio da discoteca Metrópolis, que funciona na cave -, que impediam que a electricidade voltasse a ser ligada. Isto apesar de todos os lojistas garantirem ter as contas da luz em dia.


O Corvo pôde observar momentos de algum nervosismo, durante cerca de meia-hora, após uma patrulha da PSP ter sido chamada ao local pelos lojistas. Os polícias ouviram os seus argumentos, bem como os dos seguranças, relativamente ao direito de acesso de ambas as partes aos quadros eléctricos. Chegaram a ser mostradas cópias de contratos de arrendamento, discutidas questões de legalidade e identificados os contendores. “Mas isto é uma questão cível, não é criminal. Vocês vão ter de resolver isto em tribunal”, dizia um dos agentes policiais, antes de se concluir que deveria ser a empresa fornecedora de electricidade a convocada ao local e não a PSP.

A situação no Imaviz – que, nos últimos tempos, sob o mesmo tecto, acolhia alguns comerciantes de ramos mais convencionais, como um café, um cabeleireiro ou uma loja de ouro, mas também lojas de “culturas alternativas” e tribos urbanas ou ainda uma sex-shop – tinha vindo a degradar-se gradualmente, nos últimos meses. Os cortes de electricidade e de água começaram a ocorrer após o último Verão. Associados a um incidente recente relacionado com o acesso a fechaduras, eram a face mais visível de um clima de conflitualidade e aparente vazio de poder na administração do que restou de um dos mais emblemáticos centros comerciais da Lisboa durante as décadas de 1970 e 1980.

O antigo Centro Comercial Imaviz estava em agonia lenta, praticamente desde finais da década de 1990 e durante os primeiros anos deste século. Mas, em Agosto de 2013, o espaço, sobretudo ao nível do piso inferior, voltou a conhecer alguma animação e novo brilho. Isto após para ali se terem mudado ou inaugurado mesmo diversas lojas especializadas em diferentes ramos das sub-culturas alternativas urbanas – das tatuagens aos piercings, da banda-desenhada, ilustração e action-fugures, passando pela roupa vintage, à streetware ou pelos discos das correntes mais marginais do rock. Apesar de não existir uma administração unificada da galeria comercial, as coisas aparentavam funcionar bem.

A partir dessa altura, e durante cerca de um ano, o velho centro comercial parecia ter sido resgatado à decadência – muitas lojas encerradas, pouca frequência e um sentimento difuso de insegurança. Durante esta nova etapa, chegaram ali a acontecer diversas feiras e mercados de criadores artísticos independentes, com a realização de concorridos concertos musicais. Ganhava-se, assim, o que alguns viam, desde a primeira hora, como a possibilidade de fazer ressurgir o espírito comunitário existente, durante os anos 90, no antigo Centro Comercial Portugália, na Avenida Almirante Reis.

Até que os problemas começaram a surgir, a partir do final do Verão passado. A suspensão indiscriminada no fornecimento de electricidade e de água passou a ser frequente. Em Novembro, o corte de luz chegou a afectar uma parte do centro, durante quase duas semanas. Isto apesar de a generalidade dos lojistas garantirem não ter pagamentos em atraso, nem com as operadoras nem para com os senhorios. “Pagámos sempre as nossas despesas, tivemos sempre a renda em dia, mas os cortes começaram a acontecer. Além disso, ligamos aos nossos senhorios, mas eles nem nos respondem”, queixa-se Pedro Pereira, que ontem à tarde, às escuras, esvaziava a sua loja El Pep, especializada em comics e ilustração.

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Uma situação idêntica à de outros comerciantes – embora nem todos tenham os mesmos senhorios. Para agravar a situação, não existe uma administração a quem recorrer. A limpeza do centro, por exemplo, já há algum tempo que era assegurada pelos donos das lojas. “Fizemos obras na loja à nossa custa, somos nós quem assegura a limpeza disto e fomos nós também quem acabámos com a droga e a prostituição que havia aqui nas casas de banho”, diz Pedro, desalentado com o desfecho de ontem. Por não ter acesso à energia eléctrica, decidiu sair – como foram fazendo outros empresários, nos últimos meses.

Para Luís Lamelas, dono da loja de discos Glam-O-Rama, especializada em rock e também ele com saída prevista dentro em breve, o problema principal reside no facto de “não haver entendimento entre os diversos proprietários das lojas”, acabando os lojistas arrendatários por sofrer as consequências. Um diagnóstico partilhado por outros, como Natália, funcionária da Fun Sexy Shop, que ali funciona há cinco anos. “Há falta de uma administração que tome conta disto”, disse ao Corvo, na primeira semana deste ano, após mais um corte de electricidade.

O Corvo tentou ontem, junto de um dos seguranças, estabelecer contacto com o empresário que, alegadamente, os teria contratado para fazerem aquele serviço. Mas o indivíduo disse que, “de certeza”, o seu cliente “não irá falar com jornalistas”. No sítio na internet da referida discoteca, não está disponível qualquer número telefónico de contacto – apenas um email genérico.

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COMENTÁRIOS

  • João Barreta
    Responder

    Quem conhece o Imaviz, questionar-se-á : Porque razão se conseguiram impor “do outro lado da rua” outros centros comerciais e o Imaviz chegou ao ponto em que está?
    Primeiro distinga-se entre atividade comercial e atividade imobiliária, depois entre interesse comercial e interesses comerciais, e finalmente, entre “andar” e “ir andando” !!!!! Problema de localização ? NÃO! Problema de estacionamento ? NÃO! Problema de horários ? NÃO! Problema de gestão ? TALVEZ! Problema de (in)competência(s) ? DEMASIADAS!

  • Safaa Dib
    Responder

    Chateadíssima com esta notícia da falta de condições no Imaviz.A cultura underground fica outra vez sem nenhum poiso! http://t.co/yCbfhDZtwu

  • Quim Zana
    Responder

    RT @SafaaDib: Chateadíssima com esta notícia da falta de condições no Imaviz.A cultura underground fica outra vez sem nenhum poiso! http://…

  • El Pep
    Responder
  • Ana Godinho
    Responder

    RT @ElPepBooks: http://t.co/0b6UZ9BXtL

  • Ana Paula Cardoso
    Responder

    Apesar de não ser frequentadora, esta é uma notícia que me deixa triste… O que vocês acham? http://t.co/8Ui7gQHdAC

  • Ricardo Serrao
    Responder

    Quem esta a “assassinar” tanto o negocio ali, como a vida e negocio dos empresarios que ali gastaram dinheiro, deviam ser punidos severamente e arcar com todos os prejuizos que estao a causar a esses empresarios.

    Se querem encerrar o centro, para montar la outra coisa, pelo menos tenham a coragem e dignidade de avisar os lojistas que ali estao.
    Alias, provavelmente ja tinham resolvido a situacao, e os lojistas tinham se mudado para outro local sem ter tantos prejuizos.

    Infelizmente, ter dinheiro ou poder nem sempre é sinonimo de inteligencia.

  • Sara Ribeiro
    Responder

    @one_solo http://t.co/4dZs1PwE6F vês?

  • Sara Ribeiro
    Responder
  • Thorgal
    Responder

    O estado a que chegou o Imaviz, outrora um dos melhores centros comerciais de Lisboa é vergonhoso. Para quem o conheceu, é desolador ver aqueles corredores vazios, e as lojas fechadas. 🙁
    Mais vergonhoso ainda, é o que se está a fazer a quem tinha as suas contas em dia, e se esforçava, e estava a conseguir, recuperar pelo menos parte do centro.
    Um abraço de solidariedade para estes, que bem mereciam melhor tratamento, e mais respeito!

  • anónimo
    Responder

    Faz-me lembrar a Galeria Comercial Solar das Escadinhas em Sintra…

  • Manuela Ventura De Sousa
    Responder

    Conheci bem o Imaviz nos gloriosos anos 80, é triste ver ao que chegou um espaço emblemático de Lisboa…

  • Rui
    Responder

    Isto faz-me lembrar o que se passou ali pertinho, no Forum Picoas, outrora um espaço CHEIO de vida e, agora, um mero pouso para um ginásio.

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