Sem-abrigo de Lisboa vão ter mais 125 casas para saírem das ruas e 75 delas serão em habitação municipal

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

5 Dezembro, 2018

Há menos 350 pessoas a dormirem nas ruas de Lisboa, comparativamente a 2015. O programa Housing First, responsável por retirar sem-abrigo desta condição, atribuindo-lhes uma habitação, já disponibilizou 80 casas e espera atribuir mais 125: meia centena em arrendamento livre, em 2019, e 75 de habitação municipal, num prazo a definir. “O aumento especulativo das rendas não permitiu que o Housing First avançasse. Deixámos de ter recursos, quando o preço das habitações subiu para valores incomportáveis”, explica o vereador dos Direitos Sociais Manuel Grilo, que esteve na tarde desta terça-feira (4 de Dezembro) a acompanhar a terceira campanha de vacinação de sem-abrigo da capital. A iniciativa, coordenada há três anos pela Câmara de Lisboa e a Ministério da Saúde, prevê vacinar este ano 745 pessoas em condições de vulnerabilidade.

A Câmara de Lisboa vai reforçar financeiramente o projecto Housing First, através do qual já foram garantidas 80 casas a sem-abrigo. Haverá mais 125 casas no âmbito deste programa: 50 em arrendamento livre, em 2019, e, num período mais alargado, 75 casas de habitação municipal: 25 na área da Saúde Mental, 25 na área das Dependências e mais 25 sem problemática específica. “O aumento especulativo das rendas das casas, em Lisboa, não permitiu que o Housing First avançasse. Deixámos de ter recursos, quando o preço das habitações subiu para valores incomportáveis e, por isso, vamos deitar mão ao património disperso para reforçar o programa. Estamos a mobilizar recursos para termos respostas habitacionais de qualidade para todos”, avança o vereador dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Manuel Grilo (BE). O autarca falava aos jornalistas, na tarde desta terça-feira (4 de Dezembro), no Centro de Apoio Social dos Anjos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde alguns sem-abrigo foram vacinados contra a gripe.

O número de pessoas em situação de sem-abrigo diminuiu de 700 para 350, entre 2015 e 2018, mas, no último ano, há mais dez pessoas a viver nas ruas de Lisboa, explica o autarca. “Em relação ao ano passado, há uma ligeira alteração, creio que haverá mais dez situações. Em termos de grandes números, não há grandes mudanças”, garante ainda o vereador. Comparativamente a 2015, há ainda mais 500 pessoas em centros de acolhimento, albergues e noutras situações habitacionais. “Há várias respostas, neste momento, e estamos a garantir – com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) – que qualquer pessoa que deseje sair da rua o possa fazer no máximo de 24 horas”, assegura.

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A Câmara de Lisboa garante conseguir dar reposta em menos de 24 horas a quem queira sair da rua

No terceiro ano consecutivo da campanha de vacinação, coordenada pelo NPISA – entidade dependente da Câmara de Lisboa – e pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), foram disponibilizadas mil vacinas. “Em 2017, foram vacinadas 745 pessoas, este ano foi fornecido um número considerável de vacinas, para garantirmos que não falta nenhuma. Acho que vai ser um sucesso”, diz Luís Pisco, presidente da administração regional. Até ao próximo dia 7 de Dezembro, os sem-abrigo podem vacinar-se em várias instituições, entre as quais o Núcleo de Apoio Local (NAL) de Arroios, o NAL de São Vicente, unidades móveis, o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA), entre outros. “Os locais de administração das vacinas estão a ser diversificados, relativamente ao ano passado. Vamos ao encontro das pessoas que estão na rua e em praticamente todos os centros de acolhimento. Se não abrangermos a totalidade destas pessoas, queremos chegar pelo menos à maioria”, promete o vereador dos Direitos Sociais.


 

Quando confrontado por O Corvo com a alegada falta de cumprimento do Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo 2016-2018 (PMSA), o que resultaria no facto de quase uma dezena de projectos de apoio estarem atrasados, – uma notícia avançada pelo jornal Público a 15 de Novembro -, o autarca garantiu que “não há projectos no papel”. “Já reunimos com todas as associações que tinham situações de financiamento pendente e, neste momento, as verbas já estão desbloqueadas. Nem sempre o dinheiro disponível é o necessário para estas situações”, admite o vereador.

 

Os Centros Ocupacionais de Inserção Diurna (COID), anunciados, há um ano, pelo então vereador dos Direitos Sociais da CML, João Afonso, já foram abertos em Marvila e nas Olaias, e, neste momento, darão resposta a 300 pessoas. Duas semanas depois do vereador Manuel Grilo ter anunciado que o Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo 2019-2021 contará com mais cinco milhões de euros, o autarca voltou a reforçar que as respostas a estas situações de vulnerabilidade não estão estagnadas. “São soluções de grande qualidade, que faltam em muitas outras cidades do país. Garantirmos uma solução em 24 horas diz muito do que temos feito nesta matéria”, afirma.

 

Ouvido no local por O Corvo, Nelson Nunes, 47 anos e em situação de sem-abrigo há um mês, queixa-se, porém, de não encontrar tais respostas. “Já ajudaram pessoas em situações menos difíceis do que a minha, há instituições que só apoiam quem se quer manter nos centros de acolhimento. Perdi a minha família, não tenho ninguém. Só quero encontrar emprego, alguma coisa a que me agarrar”, lamenta, depois de tomar a vacina contra a gripe.

 

Nelson está pela segunda vez a viver na rua. Antes, esteve durante um ano como sem-abrigo e acreditava que não voltaria àquela condição. “A prova de que as soluções não são suficientes é que continuo na rua, ao final de um mês. A primeira vez também foi muito complicado”, conta. Uma hora antes, Roberto Carlos, 48 anos, a dormir temporariamente num hostel, e João Ferreira, 38 anos, a viver na rua, imunizavam-se pela primeira vez contra a gripe. “Só vim levar a vacina por uma questão de prevenção, até aguento melhor o frio que o calor”, comenta João, desaparecendo, logo de seguida, daquela zona da cidade para uma outra, onde enfrentará mais uma noite fria de Inverno.

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