Sem-abrigo de Lisboa: uma noite à boleia dos voluntários da Legião da Boa Vontade

REPORTAGEM
Pedro Arede

Texto & Fotografias

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

18 Julho, 2016




As ruas de Lisboa são a casa de muitas pessoas que, todas as noites, procuram um pouco de conforto junto das equipas de voluntários que prestam apoio aos mais carenciados. À boleia da carrinha da Legião da Boa Vontade, O Corvo foi descobrir as motivações de quem trabalha na sombra, sem qualquer gratificação financeira, mas também o que vai na alma daqueles para quem um pequeno gesto faz toda a diferença.

“Será que hoje temos pratos?”, atira Ana para o ar com um sorriso, enquanto vai confirmando os últimos preparativos da ronda da noite. Afinal de contas, há muita gente lá fora à espera de dar alguma paz ao estômago, com uma refeição quente. É sexta-feira e o sol já começa a dar sinais de se querer ir deitar.

Estendida no cimo da rampa, que sai da garagem do número 33 da Avenida do Brasil, em Alvalade, está uma carrinha com as portas de trás escancaradas. Espera receber, entre outras coisas, duas enormes, mas transportáveis, “cisternas” de sopa, uma “pipa” de chá quente, sacos de plástico recheados com pão e bolachas maria, guardanapos e, ainda, três caixas largas com bolos bem doces.

Lá em baixo, no fundo da rampa, a luz é fraca. Uma silhueta escura aplica a força necessária para empurrar o carrinho metálico que contém a pesada, mas preciosa, mercadoria que é preciso levar ao longo do desnível, até ao veículo. Só mais um esforço e já está!

“Onde é que anda a Isabel?”, pergunta a silhueta masculina que, entretanto, perdeu o efeito de contraluz e adquiriu um rosto. O seu nome é António e será o condutor da ronda desta noite. “Está um bocadinho atrasada, mas quase a chegar”, responde Ana Almeida, voluntária há cerca de 15 anos na Legião da Boa Vontade.

Por coincidência, ou não, de estar sediada na Avenida do Brasil, a instituição nasceu do outro lado do Atlântico, em 1950. Desde então, tem prestado auxílio aos mais necessitados, através de vários programas de apoio, não só à população sem-abrigo (Ronda da Caridade), mas também, por exemplo, a idosos que vivem sozinhos (Viva Mais) e a um amplo projecto de informação, prevenção e tratamento da saúde oral, dispondo de técnicos credenciados para esse efeito (Sorriso Feliz).

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Atualmente, além de Portugal e do Brasil, a Legião da Boa Vontade (LBV) encontra-se também na Argentina, Bolívia, Estados Unidos da América, Paraguai e Uruguai. Em Portugal, além da capital, a instituição está igualmente em Coimbra e no Porto.

As rondas da LBV são sempre efectuadas durante a noite, às segundas, sextas e sábados, mas também às terças e quintas-feiras. Nesta área das populações sem-abrigo e carenciadas, conta ao Corvo Rui Charneira, psicólogo clínico ligado há quase uma década à instituição, as rondas têm como objectivos fundamentais “dar apoio social e humano, detectar casos de extrema carência ou sinalizar utentes que necessitem de algum tipo específico de ajuda”.

“Vistam a carapuça e vamos embora”, diz Isabel Ribeiro, coordenadora da equipa designada para a ronda, referindo-se aos coletes amarelos que todos os voluntários da devem trajar quando participam nas rondas nocturnas.

Está tudo a postos. Fecham-se as portas e ouve-se o som das chaves na ignição. A primeira paragem é no Marquês de Pombal. Ao volante da carrinha encontramos António Brito, nada mais, nada menos do que o escritor conhecido por romances como “Olhos de Caçador” e “O Céu não pode Esperar”.

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Questionado sobre o que o levou a fazer voluntariado na Legião da Boa Vontade, responde que aquilo que o move, essencialmente, é a vontade de ajudar os outros: “esta é uma forma de ajudar as pessoas para quem a vida foi madrasta”. Se cada um der um bocadinho de si, o mundo fica muito melhor”, conta ao Corvo.

Ainda em marcha, os voluntários colocam luvas de silicone em cada uma das mãos e distribuem tarefas. Mal a carrinha abranda, um grupo de pessoas aproxima-se. Alguns dão indicações de estacionamento, outros ficam simplesmente a assistir. Quase todos têm sacos vazios nas mãos e muitos somente a roupa que trazem vestida no corpo. Há homens com o rosto marcado pelo tempo, na casa dos 40 ou 50 anos e outros, bem mais novos, com praticamente a vida toda pela frente.

As rotinas são de quem já está acostumado a estas andanças: primeiro, a sopa e o chá, depois o saco do pão e, por fim, um bolo. “Posso levar mais um saco para dar lá em casa?”, ouve-se com frequência. Nenhum pedido é recusado e a sopa é para repetir todas as vezes que forem precisas. No final, geralmente, uma palavra de gratidão e dois dedos de conversa. “Eu moro aqui perto e venho sempre buscar sopa. É muito encorpada, quente e boa”, conta ao Corvo um utente, que optou por não se identificar.

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Há também quem prefira não dizer nada ou proteste, simplesmente, por não ter recebido tudo aquilo a que tinha direito, em tempo útil. Mas, se é verdade que a maior parte destas pessoas faz da rua a sua casa, é também notório que são também, cada vez mais, aqueles que, mesmo tendo um tecto, procuram este tipo de ajuda na rua. São as marcas da crise que ainda se fazem sentir.

Os candeeiros de rua iluminam-se, apesar da luz natural estar ainda suficientemente viva para se poder prescindir dela. A viagem até à Praça do Saldanha é curta, mas serve para pôr a conversa em dia. Fala-se de tudo. Das preocupações do quotidiano e das obras que têm atrapalhado a circulação na capital, pergunta-se pela família e revivem-se histórias de outras noites. “Uma vez, apareceu-nos uma senhora a dizer que era filha do embaixador de Israel. Uma coisa incrível, até parecia que a história era verdadeira”, conta António Brito.

Uma outra vez, conta Isabel, “quase nos quiseram agredir”. “Neste contexto, é comum surgirem situações complicadas e, em alturas como essa, por muito que nos custe, a solução é entrar na carrinha e arrancar”, explica a coordenadora de equipa.

Com mais de 20 anos de experiência na área do voluntariado, Isabel Ribeiro é das figuras mais antigas da “versão portuguesa” da Legião da Boa Vontade, tendo, inclusivamente, ajudado inúmeras pessoas a partir da garagem de sua casa, quando a instituição ainda não existia no nosso país.

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No ponto de encontro do Saldanha, a mancha de gente é consideravelmente maior. Homens, mulheres e também crianças esperam a sua vez para receber comida. Alguns, chegam mesmo a ir para a fila duas e três vezes, procurando repetir a dose ou levar consigo mais sacos com pão e bolachas, tal é a fome.

Dona Lídia é disso exemplo e, apesar da sua reduzida mobilidade, não prescinde de marcar encontro com a carrinha da LBV todas as sextas-feiras. “É uma ajuda preciosa. A maior parte é para do meu bisneto que está lá em casa”, explica ao Corvo.

O perfil de quem procura ajuda junto da Legião da Boa Vontade está perfeitamente delineado. Na maior parte dos casos, explica Rui Charneira, “resume-se apenas à falta ou inexistência de meios de subsistência e de suporte social”, como a família ou os amigos. “Quando existem problemas do foro psicológico, e aqui amplio para adições como o alcoolismo e toxicodependências (…), já não é apenas um problema da conjuntura económica, mas também um problema de saúde mental e de bem estar com a vida”, conclui.

Celebrar as pequenas coisas da vida com os pés no chão

Pelo caminho, a reboque de uma conversa acerca da utilidade das rondas de apoio aos sem-abrigo, um desabafo: “Por vezes, há dias em que sinto que este é um trabalho um pouco frustrante. Vê-se muita gente aqui que não sabe dar valor ao que é oferecido”, afirma António Brito. “Não sabemos qual o contexto das pessoas, mas, se for preciso, são capazes de deitar um prato de sopa para o chão, só porque chegou uma carrinha de outra associação, ao mesmo local, e preferem a comida deles”, acrescenta.

Há ainda muitas bocas para alimentar, quando a noite cai, por fim. Afinal de contas, em média, são assistidas entre 160 e 200 pessoas a cada ronda efetuada pela Legião da Boa Vontade, ou até mais, se estivermos a contar com aquelas que levam alimentos para os filhos, vizinhos, companheiros ou pais idosos. A próxima paragem é nas imediações da Estação de Santa Apolónia.

Mas, depois, há momentos que fazem tudo valer a pena. “Há pessoas muito necessitadas, que precisam mesmo desta ajuda e isso faz-nos querer continuar”, complementa Ana Almeida.

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O psicólogo Rui Charneira, também ele com uma grande experiência no terreno, partilha da mesma opinião, vincando que ajudar não implica obrigatoriamente que uma pessoa seja capaz de aceitar esse auxílio: “Ser voluntário, ajudar o próximo, não é um concurso para ganhar medalhas. É verdade que, se conseguíssemos tirar todos os desfavorecidos das ruas, seria magnífico, mas se só conseguirmos tirar um, então já vale a pena”, conta ao Corvo.

Depois de uma breve paragem junto ao Mercado da Ribeira, a ronda dirige-se para a última etapa: o Rossio. Estacionada bem perto da fachada do Teatro Nacional Dona Maria II, a carrinha atrai vários utentes que já não terão a sorte de levar consigo um pouco de sopa, pois chegou ao fim. No entanto, há ainda sandes e bolos.

Descalço, um homem cumprimenta toda a gente com um sonoro, mas educado, “boa noite”. Nos tornozelos, o que resta de dois destroços de uma rede de pesca. “Porque é que está descalço? Não tem frio nos pés, homem?”, pergunta António. “Eu ando descalço porque é simplesmente brutal. Devia experimentar. É que eu assim consigo passar as energias negativas para a terra”, responde o homem, dirigindo-se depois à carrinha para apanhar um saco.

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Enquanto uns canalizam as dificuldades para o solo, outros, como o Luís, têm também os pés bem assentes na terra, mas, desta feita, recorrendo a sapatos e a muita vontade para começar a dar os primeiros passos na mudança de vida. “O que há de mais importante na vida é o respeito”, confidencia ao Corvo.

Enquanto vai devorando a sua sandes, sorri e diz: “Estou contente, sabes porquê? Estou a fazer um curso de jardinagem e, depois, vou poder arranjar um trabalho. Mas, mais importante é que encontrei lá a melhor surpresa de todas. Sabes o que é? Uma namorada”, remata.

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De volta ao fundo da rampa onde começou a ronda desta noite, a equipa arruma e lava todos os recipientes. Três pessoas que, uma vez mais, tiveram a coragem de iluminar a vida de tanta gente são agora, novamente, sombras. Assim como todos os voluntários que, sem esperar qualquer tipo de reconhecimento, ajudam a fazer um mundo melhor, todos os dias, com sorrisos, sopa e boa vontade.

Já é de madrugada quando a carrinha da LBV inicia o caminho de volta à sua base, na Avenida do Brasil. Para trás, fica mais uma noite de luta, onde, na maior parte das vezes, se recebeu muito mais do que aquilo que se deu. “Quando não venho, sinto mesmo falta disto”, revela Isabel. “O convívio e os sorrisos que recebemos na rua são tudo”, acrescenta.

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