O amarelo vivo e a forma ovalada nas extremidades dão-lhe uma aparência alegre, em claro contraste com o cinzentismo ao redor. Num canto do jardim situado junto à igreja de Arroios, mesmo em frente à esquadra da PSP, onde antes se concentravam caixotes do lixo e ecopontos, existe desde a passada quinta-feira (17 de Outubro) um conjunto de 12 cacifos para os sem-abrigo da zona poderem guardar os seus pertences. O projecto inédito, que a Associação Conversa Amiga (ACA) leva a cabo com a colaboração da Câmara Municipal de Lisboa e a empresa Cabena, que os fabricou, pretende melhorar as condições de vida desta população, oferecendo uma maior dignidade a uma existência necessariamente precária. Trata-se de uma experiência-piloto de um ano, mas os responsáveis da ACA querem vê-la alargada, em breve, ao resto da cidade.

 

Os cacifos permitem que os sem-abrigo acondicionem de forma segura os seus haveres e ainda lhes garantem uma caixa postal, onde poderão receber toda a correspodência. Não é um tecto, mas já é qualquer coisa. “Achamos que as pessoas devem ter o mínimo de dignidade. Não as vai tirar de uma situação já de si má, mas vai ajudá-las bastante”, explica Duarte Paiva, 32 anos, coordenador do projecto e presidente da direcção da ACA, que idealizou os cacifos após ter constatado que quem vive na rua não tinha qualquer local onde guardar os seus bens – deixando-os à mercê da meteorologia, do risco de roubo ou de uma qualquer acção mais abrangente dos serviços municipais de limpeza. Tal condição impossibilita também que muitos deles se possam deslocar com maior liberdade, dada a preocupação em manter os seus parcos objectos.

 

Muitos sem-abrigo explicaram a Duarte Paiva, que é arquitecto de formação, como encontravam uma maneira de lidar com o problema recorrendo aos cacifos de alguns supermercados. Mas as limitações colocadas pela necessidade de ter moedas para os usar e pelos próprios horários dos espaços comerciais tornam-na numa solução precária. Daí que a Duarte lhe tenha ocorrido conceber cacifos para uso exclusivo destes cidadãos sem habitação – e que ele e os membros da ACA acompanham, desde a sua fundação, em 2006. Não podiam ser uns cacifos quaisquer, teriam que poder responder a certas necessidades. Fazendo uso das suas capacidades profissionais, o responsável associativo desenhou os cacifos matálicos, apresentou o projecto à CML e procurou empresas que os fabricassem.

 

Além de serem resistentes e amplos, possibilitando aos sem-abrigo lá guardarem os pertences sem preocupações, até porque existe uma esquadra de polícia em frente, servem também como caixas de correio individuais dos usuários. O que, além de serem uma mais-valia para cada um deles, permitem à ACA ter um instrumento de ajuda no acompanhamento destas pessoas. “Assim, se quisermos falar com eles, saberemos onde os poderemos encontrar e contactá-los”, explica Duarte. A essas vantagens individuais, suficientes para um aumento da dignidade e da auto-estima dos sem-abrigo – e assim poderem iniciar o desejável caminho de abandono da vida nas ruas -, os cacifos trazem consigo a possibilidade de ajudar a autarquia a manter a via pública mais arrumada.

 

A experiência com a dúzia de arrumos individuais de Arroios deverá durar um ano, mas Duarte tem esperança que, “dentro de seis meses”, os expectáveis resultados positivos sejam tão evidentes que o sistema possa ser estendido a outras áreas da cidade. Até porque são reclamados por muita gente – “há cerca de três semanas, os sem-abrigo que estavam na Gare do Oriente ficaram sem nada, depois de uma operação de limpeza”, diz. Para terem direito a um cacifo, os indivíduos têm de cumprir quatro requisitos: serem sem-abrigo; estarem numa zona de abrangência de mil metros à volta do cacifo; serem acompanhados por equipas de rua da ACA; e aceitar os deveres de manutenção e limpeza das caixas e da envolvente.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

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