A bicicleta assumiu-se como protagonista das ruas lisboetas. De coisa de freaks a meio de transporte em crescente implantação, ela está por todo o lado. A moda veio para ficar. Tornam-se assim mais visíveis as infracções: ciclistas que não páram nos vermelhos, andam em contramão ou fazem razias a peões. As críticas aos condutores das bicicletas crescem. Mas eles apontam a outros alvos.

 

Texto: Samuel Alemão

 

De repente, todos deram por eles. Os ciclistas de cidade passaram, rapidamente, entre nós, do sector das novidades para o das coisas normais – apesar de estarmos ainda bem atrás de outras sociedades europeias no que se refere ao uso da bicicleta. Mas, agora, aos utilizadores deste meio de transporte muitos parecem notar-lhes, sobretudo, a alegada falta de civismo e o atropelo das mais elementares regras do código da estrada e de urbanidade na via pública. Parece, pois, ter terminado o breve estado de enamoramento e, com isso, também a tolerância para quem anda de bicicleta em Lisboa. As críticas sobem de tom. Os activistas das duas rodas a pedal, todavia, contestam-nas. E lembram a enorme tolerância com o bem mais nocivo automóvel.

Os ciclistas urbanos são em número cada vez maior. A sua presença alastra por toda a capital e também pela generalidade dos estratos sociais e etários. Mas, ao mesmo tempo, aumenta em idêntica proporção a censura ao seu comportamento. O mais ou menos frequente desrespeito pelo código da estrada – cujas recentes alterações lhes concedem novos direitos e responsabilidades – por parte de alguns tem servido para alimentar as vozes críticas. Uma contestação feita tanto pelos peões, como – e talvez com maior veemência ainda – pelos automobilistas. A verdade é que o aparente alheamento das mais básicas regras de conduta, se bem que imputável apenas a alguns, é visível e assume diversas formas. Passar com sinal vermelho, andar em contramão, em cima dos passeios e das passadeiras, fazer tangentes a carros e pessoas, ter uma condução errática e sem aparente critério, há de tudo.

Pode contrapôr-se que o mesmo sucede, há décadas, com os automóveis – com as, por demais conhecidas, consequências para a sinistralidade que lhe está associada. Convirá relembrar que os portugueses não são propriamente conhecidos como os melhores condutores do mundo. Além disso, não consta que os ciclistas, por muitas tropelias que possam cometer, causem tanto perigo para a comunidade quanto os automobilistas – com quem passaram agora a estar equiparados. Isto apesar da recente revelação de que tem aumentado o número de acidentes protagonizados por utilizadores de bicicletas. Ainda assim, em número reduzido e, obviamente, sem as consequências dos outros acidentes de viação.

Porquê, então, a crescente animosidade – atestável nas conversas e nas caixas de comentários de sítios noticiosos, blogues e nas redes sociais – para com os ciclistas urbanos? “De repente, fala-se mais sobre isso e dessa alegada falta de civismo, apenas porque somos mais e mais visíveis. Há muitos novos ciclistas e ainda outros que já o eram, mas passaram a andar na cidade. E destes, muitos habituados a andar de BTT pelos bosques, alguns trazem os comportamentos que aí tinham para a cidade – o que não é aceitável”, considera Ricardo Ferreira, da MUBI – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, lembrando, todavia, que esses estão longe de ser a maioria.

 

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Também Laura Alves, jornalista, ciclista e co-autora do livro “A Gloriosa Bicicleta – Compêndio de costumes, emoções e desvarios em duas rodas”, aponta à evidência. “É natural que haja mais acidentes e situações de infracção, pois há mais ciclistas. É matemática simples”, diz. O mesmo constata Miguel Barroso, activista das pedaladas e criador do blogue Lisbon Cycle Chic, através do qual tenta promover a ideia de “normalidade” no uso da bicicleta em meio urbano. “A bicicleta é o new kid in town – ou seja, a novidade -, pelo que se percebe que todos os olhos estejam para ela virados”, afirma, confessando que até compreede a razão de uma certa animosidade por parte dos condutores de automóveis. “A energia negativa de certas pessoas advém de verem o seu reino ser disputado”.

Parece razoavelmente incontestável que uma cidade com menos carros, melhores transportes públicos e mais bicicletas será sempre mais aceitável, pelas óbvias razões ecológicas, económicas e de planeamento urbano – embora haja quem o possa contestar, especialmente numa sociedade como a portuguesa, ainda a viver em profunda paixão com o automóvel. Isso mesmo faz notar Laura Alves, para quem “é muito mais aceitável uma cidade com menos automóveis”. Laura vê ressentimento de muitos dos condutores de carros face aos ciclistas pelo facto de, ao contrário destes, terem de pagar impostos elevados pelo uso da sua viatura.

Mas, pelos vistos, não residirão apenas aí as raízes da crescente inimizade face aos ciclistas. “Ela não deveria existir. E penso que parte do que está a acontecer também tem muito que ver com a forma como as mudanças ao código da estrada foram apresentadas, dando a ideia de que os automobilistas estavam a perder direitos relativamente aos ciclistas, como se nós fôssemos super-protegidos”, queixa-se Laura, referindo-se, por exemplo, à obrigação do automobilista dar prioridade aos ciclistas ou à manutenção de uma distância de metro e meio nas ultrapassagens em relação a quem circula de bicicleta. “Faz-me confusão como não se percebe que isto é para salvar vidas”, diz, antes de afirmar que “seria bom que se investisse mais em vias partilhadas, com sinalização como deve ser”.

 

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Mas, então, os ciclistas são uns anjinhos? Não, nada disso, diz Laura. “É claro que não posso dizer que que não haja incumprimentos. Fico indignadíssima, por exemplo, quando vejo aquelas pessoas que, sobretudo ao fim-de-semana, andam em cima dos passeios”. Uma irritação partilhada por Ricardo Ferreira (MUBI), que critica aqueles tipos com BTT e vestidos com fatos de lycra que serpenteiam a alta velocidade em passeios repletos de transeuntes, quando o poderiam perfeitamente fazer nas faixas de rodagem. “É verdade que há mais gente a andar nos passeios, porque há pessoas com medo de circular pelo meio dos carros”, observa.

Miguel Barroso (Lisbon Cycle Chic) sintetiza uma constatação comum aos seus colegas ciclistas: “Existe falta de civismo dos ciclistas, tal como também a há por parte dos automobilistas e dos peões”. Mas critica este recente foco de críticas apontadas a quem se move em velocípede, até porque os carros continuam a gozar de uma certa impunidade, apesar dos danos bem superiores que causam à comunidade – seja ao nível da segurança ou em termos ambientais. “Basta ver os milhares de automóveis diariamente em excesso de velocidade na Avenida da República. Duvido, aliás, que haja alguém que faça um qualquer percursso sem cometer uma infracção a esse nível. Julgo, por isso, que é importante relativizar”, afirma.

A verdade é que, há seis meses, quando entrou em vigor o novo código da estrada, a crescente comunidade de utilizadores da bicicleta nas vias de circulação convencionais foi alvo de uma chamada de atenção por parte do presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR). “O comportamento dos ciclistas na utilização da via tem que ser mais disciplinado”, disse Jorge Jacob em entrevista à Agência Lusa, fazendo notar que estava em aberto a possibilidade de tornar obrigatório um seguro de responsabilidade civil contra terceiros. “À medida que eles começarem a usar destes direitos e a usufruir da sua nova situação, nos próximos tempos vai haver uma discussão sobre isso e vai chegar-se à conclusão que é bom ou aconselhável que eles tenham seguro”, disse o responsável, na altura.

 

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As situações de risco para os próprios, essas, são bem reais. Não apenas pela óbvia maior fragilidade de quem pedala face aos carros, mas também pela sua exponenciação através do incumprimento das regras de circulação. E muitas dessas violações até são assumidas com uma certa naturalidade. Ricardo Ferreira (MUBI) admite que passa sinais vermelhos, sempre que pode, tal como muitos dos ciclistas. “Há razões para tal. Primeiro, porque é quando estamos parados que somos mais vulneráveis ao embate de um automóvel. Mas também tem que ver com o facto de parar ser um desperdício de energia. E como, de cada vez que tal acontece, temos que fazer um maior esforço físico e, ainda assim, arrancar mais devagar que os automóveis, estaríamos, novamente, a colocar-nos numa situação perigo”, afirma. A opção é, portanto, evitar paragens.

Ricardo defende também, ou pelo menos vê como uma atitude compreensível, a circulação ciclista em contramão em alguns arruamentos. “As ruas das cidades portuguesas estão pensadas para os carros, pelo que, muitas vezes, desenham-se esquemas de circulação em sentido único. E isso vai obrigar a que uma pessoa que ande de bicicleta, se seguir à risca a sinalização, tenha que fazer uma deslocação enorme para chegar a um certo ponto”, explica. Laura Alves e Miguel Barroso também admitem que tais práticas são frequentes, mas enquadram-nas e atribuem-lhes um valor bem menos pejorativo do que as violações cometidas por quem dirige um automóvel. Afinal, esta é uma máquina bem mais perigosa. Tanto que Miguel Barroso sublinha a necessidade de se tomarem medidas de acalmia da sua velocidade, como as denominadas “zonas 30”.

A defesa da aplicação de restrições à quase rédea solta a que os automobilistas têm, em grande medida, gozado entre nós, poderá, todavia, não ser muito popular. E Miguel admite que, para piorar a situação, está longe de ajudar o facto de quem anda de bicicleta “ter um discurso que, muitas vezes, pode ser confundido com um certo proselitismo, com uma atitude de superioridade moral”. “Percebo que muitos automobilistas fiquem irritados, até porque na defesa do uso da bicicleta está implícita, de alguma forma, uma crítica ao uso do carro. E, convenhamos, atacar o estilo de vida dos outros é sempre complicado. As pessoas não gostam de ser censuradas”, analisa, com bom-humor.

E não se pense que tais dificuldades de convivência são coisa só nossa. Também com graça, mas fazendo uso de uma acidez bem britânica, o articulista Rod Liddle assanhava-se, num artigo publicado em Novembro passado na revista The Spectator, contra aquela que vê como uma apaparicada tribo urbana que converteu numa experiência ainda mais penosa a circulação automóvel em Londres. “Os ciclistas – ou alguns deles, muitos deles – tornaram-se, nos últimos anos, cheios de si mesmos, insuflados com uma raiva justiceira”, escrevia, antes de os acusar de, ao invés de pensarem que estão apenas a fazer trajectos citadinos em duas rodas, “julgarem que estão a salvar o raio do planeta”. Redigido em contramão ao que pode ser visto como politicamente correcto, o texto de Liddle motivou a esperada – e talvez desejada – revolta entre os ciclistas.

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Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

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