A Baixa está deserta, ouve-se dizer com frequência, mas os números do Censos de 2011 traduzem outra realidade: cinco freguesias do centro histórico aumentaram de população. O Corvo  entrevistou novos moradores da Baixa e há um prazer que quase todos partilham. Estar perto de tudo, numa zona bonita e com história. “Aqui há sempre coisas a acontecer”, dizem.

 

Texto: Fernanda Ribeiro       Fotografias: Carla Rosado

 

 

Acordar, sair à rua de manhã e ter o movimento das lojas, não precisar de pegar no carro, porque na Baixa há transportes para qualquer lado e muitos percursos fazem-se bem a pé. Estar perto do rio e da animação do Terreiro do Paço. Um prazer, é o que dizem vários novos moradores da Rua dos Fanqueiros, que não se arrependem de ter decidido ir morar para o centro histórico de Lisboa.
Há, é certo, o trânsito e o ruído dos eléctricos e problemas de segurança e falta de supermercados, mas nada disso os faz querer mudar para outras zonas da cidade.
São Nicolau, a freguesia conhecida como “o coração da Baixa”, foi uma das autarquias que aumentou de população, entre os censos de 2001 e 2011 – as restantes foram Mártires, Madalena, Socorro e Santa Justa. Não foram assim tantos os que chegaram de novo, mas segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, São Nicolau ganhou nesse período 56 novos residentes. Em 2001, eram 1175, em 2011, passaram a 1231.
Estes dados são, porém, flutuantes, sublinha António Manuel, o autarca que desde 2005 está à frente da freguesia. “Há sempre pessoas que morrem e outras que vêm de novo e os recenseados rondam actualmente os 1200”. E muita gente que ali habita não está lá recenseada. Segundo as estimativas da junta, o número de residentes é bem superior, andará à volta dos 3000.
Nuno Catarino, 39 anos, licenciado em Física, doutorou-se em Matemática em Inglaterra, onde esteve até 2006, e quando regressou a Lisboa decidiu ir morar para a Baixa, por ali ter encontrado casa a um preço menos elevado do que noutras zonas da cidade.  Até hoje, não se arrepende. Trabalha numa empresa aeroespacial na zona da Expo, mas não leva o carro.
“Não há zona melhor servida de transportes que esta. Tenho o metro, tenho autocarro directo. Quase nunca é preciso mexer no carro. Só para ir buscar a minha filha à escola é que eu, ou a minha mulher, pegamos nele”, diz com satisfação.
Vive num prédio da Rua dos Fanqueiros, num andar com bastante luz, um pé direito de fazer inveja e lambris de azulejos antigos, que desde logo o conquistaram. A zona agrada-lhe e, com a animação da beira-rio, ainda mais.  “A minha filha,  que tem três anos e meio, aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas, na Praça do Comércio”, diz, com orgulho.
Há falta de zonas verdes, lamenta, “mas agora, com a Ribeira das Naus, há maior contacto com o rio, o que também é bom”. Supermercados de jeito também faltam, há um na Rua dos Douradores que se vai tornar mais acessível quando começar a funcionar o novo elevador do Castelo. “Os eléctricos, de dia até os acho engraçados, mas à noite fazem muito barulho, o que já me levou a protestar junto da Carris e da Câmara. Além disso, deitam uma espécie de ferrugem que mancha os carros”.
Nuno Catarino gostaria de ver um sistema de videovigilância a funcionar na Baixa, porque “isso travaria o vandalismo que atinge muitas lojas”. E acha que a Câmara Municipal de Lisboa poderia fazer mais por esta zona da cidade, nomeadamente “reduzindo o trânsito,  e desviando-o, porque 90 por cento é de passagem”.

 

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Artista, professor e comerciante, Valter mora na Baixa há 17 anos.
Valter Augusto Pires, escultor e professor de Educação Visual na Escola Josefa de Óbidos, foi “um dos primeiros aventureiros” a instalar-se na Baixa, onde mora já há 17 anos. Assistiu à transição, a partir da Rua dos Fanqueiros, onde vive.
“Na altura em que vim para cá, pessoas novas éramos só nós, eu e a minha mulher e mais 2 ou 3 casais. Agora há muita gente nova a viver aqui”, afirma o artista plástico, que tem também formação em psicologia e há um ano arriscou abrir um café no prédio onde vive, o “100 Artes”.
“Sempre gostei de sítios que cheirassem a história e a Baixa é muito bonita”. Essa foi uma das razões que levaram  Valter a escolher a zona, a par dos preços que vigoravam há 17 anos, quando comprou a casa. “Na época, as casas eram muito baratas e as lojas muito caras. Depois, a situação inverteu-se”.
Nessa altura, sentia mais medo de viver na Baixa, porque não havia quase ninguém. Ao longo de 17 anos, houve grandes mudanças, mas, sublinha o escultor, “foram sempre muito lentas”, um ritmo que acha que a câmara poderia acelerar.
Pedro Oliveira, 32 anos, é outro dos novos moradores. Vivia na Estefânia e, há dois anos, decidiu instalar-se na Rua dos Fanqueiros, onde vive com um irmão. Está satisfeitíssimo com a mudança.

 

“Adoro esta experiência de morar na Baixa”, diz este antigo estudante de comunicação social que abandonou o jornalismo, acabou por tirar um curso em gestão de empresas e exerce agora a profissão nas lojas de roupada família, algumas delas próximas da sua nova casa.
O que tem de melhor a Baixa? “Para mim, é não precisar do carro para me deslocar, ter 20 cafés e restaurantes onde ir, poder dar uma volta a pé junto ao rio, ir beber um copo ao Bairro Alto ou ao Cais do Sodré… tudo isso sem carro. Acho mesmo que é o melhor sítio onde se pode estar”, contou ao Corvo.
Sentado numa esplanada na rua de São Julião, por diversas vezes cumprimenta quem passa. “É o dono do restaurante de sushi aqui ao pé, onde vou com frequência”, diz, para logo a seguir acenar  a outro passante. “É o meu irmão, aquele com quem partilho a casa”, explica. Inicialmente, chegou a pensar que viver e trabalhar no mesmo sítio seria demais. “Afinal, estou a gostar muito”, afirma.
Problemas ou inconvenientes de morar na Baixa? Tem ouvido falar, mas até ao momento não tem razões de queixa. “Eu nunca tive problemas, mas sei de histórias de assaltos. Sei que o problema existe, no entanto, não sinto insegurança”.

 

Rua dos Fanqueiros. Lisboa. 1 de Maio 2013

 

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