São lançadas cada vez mais apps de transportes públicos em Lisboa, mas poucas funcionam em pleno

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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MOBILIDADE

Cidade de Lisboa

10 Outubro, 2018

A entrada em funcionamento das aplicações móveis, para pagar e validar os títulos de transportes da capital sem recurso a bilhete físico, tem sido lenta. A causa poderá estar na dificuldade em adaptar os antigos sistemas de bilhética das operadoras de transportes. No início de 2017, a Via Verde lançou uma app para permitir o pagamento dos títulos de transporte de quatro operadoras apenas com recurso a telemóvel, mas ainda só está disponível para os utentes da Fertagus. A nova aplicação da Carris, lançada em Março, já foi instalada por 30 mil pessoas, mas a operadora reconhece que ainda são necessárias melhorias. Em Maio, foi lançada a app Lisboa Viagem. Os utilizadores queixam-se, contudo, que a aplicação é “bastante confusa” e “incompleta”. A Câmara de Lisboa continua a anunciar novas soluções, mas a Comissão de Utentes dos Transportes Públicos de Lisboa diz que os utilizadores estão desmotivados com a degradação dos serviços e sem vontade de se deslocarem de transportes públicos.

Nunca foram anunciadas tantas soluções para melhorar a mobilidade dos transportes públicos na cidade de Lisboa, mas a sua efectiva implementação tem sido morosa. Por diversas vezes, já se falou em acabar com os bilhetes físicos e, no final do mês de Setembro, numa conferência sobre a mobilidade urbana, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) voltava a anunciar novidades nesta matéria. Fernando Medina revelava a intenção de congregar várias operadoras de transportes sob uma marca única. O vereador da mobilidade, Miguel Gaspar, manifestava também, no início de Outubro, durante o encontro “Conversas de Inovação”, a vontade de lançar um cartão pós-pago, o Viva Go, e garantia que o dispositivo entraria em funcionamento nos próximos dois meses. Quase todos os meses, é anunciada uma nova aplicação móvel, com promessas de melhorar a forma como os utentes dos transportes públicos viajam, mas muitas ficam pelo caminho.

A Via Verde comunicou, em Fevereiro de 2017, o lançamento da app Via Verde Transportes. A plataforma prometia facilitar a forma de pagamento dos títulos de transportes aos utilizadores de quatro operadoras de transportes: Fertagus, Metro, Carris e Transtejo. A ideia da app é validar e pagar a viagem apenas com recurso ao telemóvel, reduzindo-se a utilização de bilhetes físicos. Na altura do anúncio, previa-se que a aplicação começasse a funcionar em pleno durante o final do ano de 2017, mas ainda só está disponível para os utentes da Fertagus. O CEO da Via Verde, Pedro Mourisca, em depoimento escrito a O Corvo, explica alguns dos motivos para o atraso deste género de alternativas. “O factor determinante para a implementação de uma solução de bilhética desmaterializada, em Lisboa, é a necessária adaptação dos sistemas dos vários operadores de transporte. A Via Verde Transportes está a fazer o seu percurso e será gradualmente implementada operador a operador, à medida que estes vão adaptando os seus sistemas”, afirma.

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Perdidos na rede: utentes dos transportes de Lisboa tardam em ter um sistema bilhético e informativo único

A fase de testes e validação do sistema Via Verde Transportes começou com a Fertagus, em Setembro de 2016, tendo ficado disponível em Maio de 2017. Desde o lançamento ao público, explica o departamento de Marketing da Fertagus, foram realizadas apenas 20 mil viagens com recurso a esta app – valor residual, se se considerar que a operadora transporta 70 mil passageiros por dia. Segundo a Via Verde, a Transtejo acaba agora de finalizar a actualização dos seus validadores, estando prevista a disponibilização daquela solução tecnológica na transportadora fluvial no primeiro trimestre de 2019. A Carris só começou agora a fazer a actualização de alguns dos seus validadores, esperando-se que a fase piloto avance no próximo ano. “A comercialização do serviço na Carris dependerá da renovação total de validadores da frota, em não menos de um ano. O Metro também terá que adaptar os seus sistemas para poder acolher uma solução como a da Via Verde”, diz Pedro Mourisca.

 

Até ao momento, o sistema VVTransportes na Fertagus esteve apenas disponível para os actuais clientes da Via Verde, dos quais mais de 15 mil aderiram ao serviço, números considerados satisfatórios por Pedro Mourisca. “Acreditamos que o VV Transportes tem todas as condições para cumprir o objectivo de melhorar a experiência de utilização do transporte público, simplificando o processo de viajar, e captando mais clientes para esta opção de mobilidade, dando um importante contributo para a sustentabilidade”, acrescenta.


 

De entre as várias ideias e soluções apresentadas para a melhoria do funcionamento dos transportes públicos, aquelas que parecem estar a ter mais sucesso são as que permitem aos clientes saber onde estão os veículos, em tempo real. Actualmente, já existem várias aplicações móveis que permitem planear os percursos nos transportes de Lisboa, sendo possível identificar o ponto de origem e destino, assim como os respectivos horários. A Carris lançou, a 20 de Março, uma aplicação própria para os sistemas operativos iOs e Android, que diz aos utentes quanto tempo falta para o próximo autocarro ou eléctrico. Havia muitas expectativas quanto à nova app da Carris, – a intenção de criar esta plataforma foi anunciada por Fernando Medina, assim que a Carris passou para a Câmara de Lisboa, em 2016, – mas os resultados, para já, não são animadores.

 

 

Segundo a porta-voz da Carris, Inês Andrade, em depoimento escrito a O Corvo, desde o lançamento da app foram realizadas 30 mil instalações. Os números são explicados pelas actualizações regulares que a app tem vindo a sofrer. “No âmbito das melhorias que têm vindo a ser introduzidas em todos os serviços de informação em tempo real, nomeadamente na disponibilização do tempo de espera, está a decorrer um upgrade significativo no sistema, que permitirá melhorar a robustez, fiabilidade e precisão. Durante esta curta fase, o desempenho poderá, por vezes, sofrer uma ou outra perturbação, tendo em conta os novos inputs que estão a ser introduzidos”, explica Inês Andrade. A Carris avança, ainda, que se trata de uma aplicação que está em contínuo desenvolvimento e onde vão sendo introduzidas novas funcionalidades ao longo do tempo. “Foi solicitado aos clientes a sua participação através de sugestões sobre melhorias e indicação de funcionalidades que gostariam de ver contempladas, assim como reportes de funcionamento e falhas, o que tem sido extremamente útil para conseguir afinar de forma minuciosa as valências da app”, acrescenta.

 

Dois meses depois, em Maio deste ano, a Carris, a Fertagus, o Metro, a Câmara de Lisboa, a Rodoviária de Lisboa, entre outras, lançavam a app Lisboa Viagem, apenas para dispositivos Android. Além das paragens e horários, é possível conhecer o menor trajecto, os tarifários, e eventos próximos. Numa breve pesquisa na Google Play Store, percebe-se, porém, o descontentamento generalizado dos utentes. Queixam-se da aplicação ser “bastante confusa”, “incompleta”, “sem qualquer utilidade” e dizem haver “muito a melhorar”. Os utilizadores criticam ainda as constantes promessas de “aplicações que nunca chegaram a funcionar”. “Seria mais benéfico criar-se uma app para validação de títulos de transporte.

 

 

Existem duas para esse efeito, mas uma apenas está disponível, para já, na Fertagus. A outra está a ser lançada há não sei quantos anos”, critica um utilizador, sem mencionar qual o nome da outra aplicação. A única app para transportes públicos, com informação em tempo real, merecedora de elogios na internet parece ser a Moovit. A funcionar desde 2016 em Lisboa, mas também no Porto, em Coimbra e no Funchal, já conta com mais de 100 mil utilizadores em Portugal e 200 milhões no mundo.

 

A cidade de Lisboa debate-se há muito tempo com o problema do tráfego rodoviário. Recentemente, segundo o jornal Público, existiam apenas 200 mil lugares para os 745 mil veículos que entram diariamente em Lisboa. Segundo dados do Eurostat, divulgados no passado mês de Agosto, os portugueses são dos europeus que menos usam transportes públicos. Só a Lituânia aparece atrás de Portugal, onde a utilização de transportes colectivos ronda os 10,1%. Os maiores utilizadores de transportes públicos estão na Hungria (31%), República Checa (26%) e Eslováquia (25,2%).

 

A fraca adesão aos transportes públicos, em Lisboa, segundo Cecília Sales, representante da Comissão de Utentes dos Transportes Públicos de Lisboa, também poderá ser explicada pela degradação do serviço. “Há uma política de desinvestimento há muitos anos e os utentes estão desmotivados e mais preocupados com o funcionamento dos transportes. Se os serviços fossem bons e não houvessem tempos de espera longos, nem consequentes perturbações de linha, talvez nem fosse necessário criar aplicações móveis para resolver estes problemas”, diz. E mostra-se mesmo descrente com a criação de apps simplificadores da utilização dos transportes. “Não acreditamos que a app da Via Verde venha melhorar a utilização dos transportes públicos. Os serviços de atendimento continuam a ser insuficientes e há uma grande dispersão geográfica dos postos de atendimento. Continuamos, também, a ser dos países da Europa com preços mais elevados nos transportes, comparativamente aos nossos salários”, diz.

 

 

O CEO da Via Verde, Pedro Mourisca, por sua vez, acredita que os resultados estão a inverter-se e, mais tarde ou mais cedo, as pessoas vão acabar por aderir. “Só na última semana, foram divulgados em Portugal dois estudos (IDC/Samsung e Bareme Internet) que indicam que 57% dos portugueses já acedem à Internet em mobilidade e que 78% dos utilizadores nacionais de smartphones concordam que as apps são um contributo decisivo para a melhoria da gestão do seu tempo pessoal. O que, para a população em idade activa e estudantes (os utilizadores massivos de smartphones e principais clientes de transportes públicos), significa uma oportunidade para reduzir o seu tempo em deslocações frequentes”, acredita.

 

O Corvo questionou o vereador da mobilidade, Miguel Gaspar, sobre os motivos dos atrasos na implementação das aplicações móveis para transportes públicos, se é possível assegurar a entrada em funcionamento do cartão pós-pago Viva Go já este ano e que mais soluções a autarquia está a desenvolver. Até ao momento da publicação deste artigo não obteve, contudo, resposta.

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • Afirma Pereira
    Responder

    E se em vez de apps e outras tretas se empenhassem em aumentar a oferta de transportes públicos? Porque nunca a Carris esteve tão mal. Nem o Metropolitano.
    Menos apps e mais autocarros se faz favor.
    Menos fantochadas mediáticas e mais oferta de transportes colectivos.
    Quando o utente estiver realmente bem servido, então, e só então, se deviam ocupar destas “decorações” que tão bem ficam para os inúteis mostrarem serviço…

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