“Em cone ou em copo?” é provavelmente uma das perguntas que mais se ouve nas ruas de Lisboa com a chegada dos dias quentes. Pela cidade não falta onde comprar um gelado, mas há alguns sítios que se destacam: são negócios familiares, vendem produtos artesanais e, embora façam sucesso, não pretendem expandir-se.

 

Texto: Rita da Nova     Fotografias: 1 – Luísa Ferreira 2 – Rita da Nova

 

Só há dois estabelecimentos na Avenida da Igreja, situados frente a frente, cada um do seu lado da artéria, em que é comum ver filas intermináveis à porta: a Churrasqueira de Alvalade e a Geladaria Conchanata. Os dias de sol e de calor inauguram a época dos gelados, mas mesmo este ano – em que a Primavera se disfarçou de Inverno e o tempo quente parecia uma miragem – a esplanada da geladaria continua a ter poucos lugares vagos.

 

“Isto, agora, está um bocado mais confuso, porque os miúdos ali da escola ganharam dinheiro com uma venda de hortaliças e foi aqui que o quiseram vir gastar”, justifica Celina Tarlattini. Divide a atenção entre atender clientes, supervisionar o funcionamento da geladaria e dar uma palavra àqueles que entram apenas para a cumprimentar. “Vai lá fora dar o gelado à professora, se faz favor, que os miúdos entram agora às três e meia!”, pede ao filho Lorenzo, pela segunda vez.

 

O gelado que o jovem tem de levar à esplanada não é um gelado qualquer: é uma Conchanata, especialidade que baptizou a casa, e que é composta por quatro bolas de gelado cobertas por uma calda especial de morango. Os Tarlattini fazem por introduzir novos sabores e variar o cardápio. Há opções constantes, como a nata, a baunilha ou a amêndoa.

 

Lá dentro, os Gelados Itália Conchanata – é este o nome oficial – parecem ter parado em 1947, ano da abertura. Nas paredes estão pregados os mesmos cartazes de sempre, típicos dos anos 50, e fazem publicidade a produtos que já nem sequer vendem. “Deixámos de fazer a Conchanata em formato familiar e não imagina as discussões que houve. Chegou-me aqui um senhor que, coitado, até começou a tremer quando lhe dissemos que já não tínhamos”, relata Celina.

 

Foi pelo casamento que ganhou o apelido italiano e um lugar à frente dos Gelados Conchanata, onde trabalham apenas três pessoas: ela, o marido Michele e o filho Lorenzo. “O negócio vem desde o avô do Michele e é completamente familiar. É o meu marido quem fabrica, ali na parte de trás da loja, normalmente de manhã, mas há dias como hoje em que a produção se prolonga até meio da tarde.”

 

No interior, não há mesas onde sentar, mas nem por isso o espaço deixa de estar cheio. Os clientes que chegam fazem fila perto do balcão e aproveitam o tempo de espera para escolher que sabores vão pedir. “Até podia dizer que estes gelados já não são o que eram, mas eu até acho que estão cada vez melhores”, diz Maria da Piedade, de 64 anos, nascida e criada ali no Bairro de Alvalade. “Com a crise é que já não dá para ser tão gulosa, por isso é só uma bola e muito de vez em quando”, acrescenta, enquanto espeta a pequena colher de plástico no gelado de pistachio que acaba de pedir.

 

“As pessoas não deixam de vir”, confirma Celina, “o que fazem é pedir menos ou pedir uma Conchanata para dividir por quatro”. Contudo, os Tarlattini não gostam de falar em crise, dizem que desde que abriram não têm por que se queixar. Até recebem, frequentemente, propostas para ter carrinhos em eventos ou abrir outras casas fora de Portugal. “Já tivemos propostas para ir para Angola, Moçambique, para o Qatar, mas nós estamos muito bem aqui, não queremos cá franchisings. Mais vale fazer pouco, mas bem.”

 

Conchanata1

(fotografia: Rita da Nova)

 

Esta política é partilhada pela Geladaria Pindô, aberta há quase 38 anos na Avenida das Forças Armadas, quase ali a chegar a Entrecampos. A servir gelados há 24 anos, Maria Júlia Matos garante que “quanto mais expansão, menos qualidade”, até porque ter uma geladaria de fabrico próprio “pode parecer muito fácil, mas é coisa para dar muito trabalho”.

 

Passa da hora de almoço e Maria Júlia aproveita a falta de clientes para dar um jeito ao balcão. Enquanto isso, apresenta os gelados típicos da Pindô. “Vamos variando, para conseguirmos surpreender as pessoas, ao fim de tantos anos. Produzimos consoante a fruta da época e só usamos fruta fresca, por isso é que, agora, temos melão”. Os sabores de gengibre e Porto – dois dos ex-libris do estabelecimento – não se encontram com muita frequência e Maria Júlia diz que são um dos motivos pelos quais há quem venha de longe só para comer um gelado.

 

“Não estamos num sítio onde passe muita gente ou muitos turistas e aqui nada está aberto ao fim-de-semana, mas temos clientes que vêm de propósito”, explica. A maioria dos clientes habituais são alunos e ex-alunos do ISCTE, que fica do outro lado da estrada. “Estamos aqui há tanto tempo que acabamos por conhecer três gerações de estudantes. Os filhos de alguns clientes seguiram as pisadas dos pais e também andam aqui nas universidades, por isso ao sábado e ao domingo vem a família toda, é muito engraçado.”

 

Se há, contudo, geladaria artesanal lisboeta que goza de localização privilegiada é A Veneziana, situada em plena Praça dos Restauradores. Foi inaugurada em 1936 pelo italiano Giovanni de Luca e ainda hoje conserva a decoração sóbria em madeira, com tons de dourado e vermelho escuro. “Mesmo assim, conseguimos passar despercebidos porque estamos aqui num cantinho. Muita gente passa e nem sequer nota”, adianta Maria Odete, funcionária da geladaria há 41 anos.

 

O vento, o frio e a chuva que se fizerem sentir até há alguns dias conseguem afastar a vontade de comer gelados, mas ainda há alguns resistentes. Francisca Carvalho, de 19 anos, é a única pessoa sentada na esplanada desta geladaria. Trouxe um livro para acompanhar o gelado, mas está fechado em cima da mesa. “Está um bocado de vento, por isso nem sequer consigo ler. Faço questão de vir aqui porque, para mim, são os melhores gelados da cidade e nunca está tão cheio de turistas como as outras geladarias aqui da Baixa. São muito cremosos e nota-se que não é gelado aromatizado, que usam mesmo os ingredientes. Sem calor, até nem derretem tão depressa e posso saborear melhor.”

 

Francisca escolheu um copo de maracujá e baunilha, porque aqui o consumo mínimo são duas bolas, mas a Veneziana tem uma gama larga de escolha. “Entre gelados de creme e de fruta temos 18 sabores. Assim, à primeira vista, pode parecer pouco, mas chega e sobra”, explica Maria Odete.

 

Há inclusive um sabor que só se pode provar aqui: o marrasquino, feito com um licor italiano de cerejas selvagens. A Cassata (um bolo de queijo ricota recheado com gelado de nata, morango, chocolate e frutas cristalizadas típico da Sicília) e o Spaghetti (gelado de nata com molho de morango que parece mesmo esparguete com molho de tomate) são outras especialidades difíceis de encontrar noutras geladarias da cidade.

 

ICE CREAM VENEZIANA

 

 

No início, ainda antes da abertura da primeira loja, os Gelados A Veneziana vendiam-se em carrinhos típicos que cirandavam por Lisboa. Chegaram até a ter mais dois estabelecimentos, mas só este, o original, se manteve até hoje. “Os gelados continuam a ser feitos na mesma fábrica, ali na Quinta do Lambert, no Lumiar. E as pessoas gostam deles porque são feitos mesmo com fruta, com frutos secos ou com nata”, remata Maria Odete.

 

Usar “produtos que não sejam veneno para os clientes” é uma das máximas de Filippo Licitra, dono da geladaria Nannarella, que fica na Rua Nova da Piedade, em São Bento. “Claro que é mais difícil e dá mais trabalho. Passo aqui dias inteiros a descascar fruta”, acrescenta. A geladaria só abre ao meio-dia, mas Filippo está desde as 8h30 no seu “laboratório de gelados”, como gosta de lhe chamar.

 

Com apenas 18 metros quadrados, a dimensão do espaço é uma das coisas que mais gosta no negócio. “A nossa ideia é mesmo sermos uma coisa pequena, familiar, onde as pessoas podem entrar e ver os gelados a ser feitos. Às vezes, acontece alguém entrar e perguntar se há de morango e eu tenho o gelado de morango a acabar de ser feito”, explica Filippo num português que ainda se faz acompanhar da melodia típica da língua italiana. Afinal, a Nannarella abriu apenas em Março do ano passado, mas desde logo assumiu o desafio de trazer para Lisboa os verdadeiros “gelati alla romana”.

 

De porta aberta e rádio ligado – uma vez que não gosta de trabalhar de ar condicionado ligado e em silêncio –, passa as manhãs a combinar os ingredientes certos para os gelados do dia. Enquanto espreme limões, conta a história de como um casal de italianos acabou a produzir e vender gelados em Lisboa. “Eu a Constanza, a minha mulher, queríamos educar os nossos filhos numa cultura diferente, mas somos de Roma e queríamos ir na mesma para uma capital, para que eles pudessem ter acesso a tudo”. Já conheciam Lisboa, uma cidade que consideram “incrível ao nível de tudo aquilo que tem para oferecer” e há cinco anos tomaram a decisão de mudar de país.

 

Ainda assim, sentiam falta dos verdadeiros gelados italianos, confeccionados de acordo com a receita romana. Filippo partiu então para Bolonha, onde frequentou cursos de geladaria e comprou a maquinaria indicada ao fabrico artesanal. “Foi uma aposta, não sabíamos se ia dar, mesmo o sítio que escolhemos é tão escondido… mas é o bairro onde moramos e onde gostamos de estar. Temos também aqui a Assembleia, onde trabalham centenas de pessoas. Até agora tem dado resultado.”

 

Quando estudaram o mercado, Filippo e Constanza perceberam o óbvio: que os portugueses são fãs do típico gelado de morango e chocolate. Ao contrário do que esperavam, os sabores alternativos são aqueles que fazem mais sucesso: manjericão, bolacha Oreo, zabaione – uma combinação de ovos, açúcar e vinho do Porto –, tiramisu, cheesecake e crumble de cereja. “Usamos mesmo os ingredientes, nada de aromas. Para o de Oreo partimos mesmo as bolachas, para o tiramisu misturamos a bolacha e o queijo mascarpone e o nosso sabor de cheesecake leva mesmo queijo Philadelphia.”

 

Às 11h11, ao verem a porta aberta, algumas pessoas entram e começam a discutir entre si que sabores pedir. Filippo desculpa-se, dizendo que a Nannarella só abre ao meio-dia. É estranho que queiram um gelado, porque lá de fora vem uma brisa fria e várias pessoas passam de guarda-chuva aberto. “A primeira regra da geladaria diz ‘não é o frio que atrapalha, é a chuva’. Ainda por cima, aqui não temos sítio para sentar, as pessoas não querem ficar a fazer fila e muito menos ir a comer à chuva. Acontece-me muito estar aqui no laboratório e ter de explicar que ainda estamos fechados, que não tenho mãos para tirar uma bola de gelado”, explica.

 

Nannarella

(fotografia: Rita da Nova)

 

Só recentemente contrataram duas empregadas para ajudar a servir, mas mudar para um sítio maior ou abrir outra loja ainda está fora de questão. A licença de distribuição, que lhes permite ter um carrinho em eventos ou andar pelas ruas, chegou há poucos dias. “A minha ideia era fazer um ano disto, apresentar os lucros à contabilista e ver se tínhamos possibilidade de arranjar alguém para fazer gelados, mas entretanto a época voltou a abrir e não tive tempo para nada”. Filippo explica que querem ir com calma e que é preciso tempo para dar a formação adequada a alguém, de maneira a manter a qualidade e o registo de gelado artesanal. E finaliza: “se há uma coisa que aprendi aqui em Lisboa e com os lisboetas é que a pressa é mesmo inimiga da perfeição”.

  • Maria Papoila
    Responder

    Gelateria Nannarella <3

  • Lambretta ML.
    Responder

    E abriu há pouco tempo (a semana passada) a Fábrica de Gelados, sita na Rua Forno do Tijolo – Anjos, e que também pratica a feitura do gelado artesanal.. Ah, apesar de se chamar Fábrica é também um catita estabelecimento de venda ao público.

  • Lambretta ML.
    Responder

    Errata: afinal a dita sorveteria dos Anjos chama-se Fábrica DO Gelado.

  • JoãoPedroPincha
    Responder

    Finalmente! @ritadanova é para ir experimentar tudo | São geladarias artesanais de Lisboa e assim se querem manter http://t.co/HcCvGJpBSX

  • Pedro N. Rodrigues 
    Responder

    Acabei de fazer planos para o fim-de-semana: São geladarias artesanais de Lisboa e assim se querem manter http://t.co/P0xlEK9NOr

  • Pedro Paiva Sousa
    Responder

    Apetitoso … “São geladarias artesanais de Lisboa e assim se querem manter” – http://t.co/S2W2zZk43e por @RitaDaNova via @ocorvo_noticias

  • Reserva Recomendada
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: São geladarias artesanais de Lisboa e assim se querem manter – http://t.co/RhBxS75azE

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: São geladarias artesanais de Lisboa e assim se querem manter – http://t.co/RhBxS75azE

  • Samuel Freire
    Responder

    Não percebi qual foi o critério de seleção das gelatarias. Artesanais há muitas mais: surf, fragoleto, artisani, atelier del gelatto, gelados italianos do chef nino, oficina do gelado, mu, rés-vés, fib. É uma lista maior do que a reportagem apresenta, de espaços abertos há poucos meses e há dezenas de anos, centrais e periféricos, em bairros residenciais e bairros de serviços…

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