São cada vez mais os cidadãos de Lisboa a juntarem-se no Facebook para resolverem problemas do seu bairro

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

22 Novembro, 2018

Os habitantes da capital portuguesa são bastante activos no Facebook. Um grupo de moradores do Parque das Nações acredita mesmo ter sido o primeiro a convocar uma Assembleia de Freguesia Extraordinária através da plataforma. Apercebendo-se da mobilização, a rede social pediu-lhes que criassem um novo guia turístico de Lisboa, lançado esta semana. Vinte e cinco comunidades dão sugestões aos visitantes, mas também aos moradores, para conhecerem uma cidade em mudança, que por vezes escapa ao olhar dos mais desatentos. Ao longo das 53 páginas da brochura, encontramos uma Lisboa mais tradicional e uma outra apelidada de “trendy” pelos autores. Além de restaurantes e casas de fado, o guia reúne os melhores trajectos para correr ou andar de bicicleta, as ruas onde podemos ver arte urbana e curiosidades dos bairros típicos. A urbe está a transformar-se e o guia também serve para “mudarmos um bocadinho a perspectiva de quem cá vive”, diz o Turismo de Lisboa, que se associa a esta edição.

Numa breve pesquisa pela rede social Facebook, é possível encontrar dezenas de grupos de moradores de Lisboa que, todos os dias, partilham as fragilidades dos seus bairros e os problemas que só eles conseguem ver. Na altura de redigir uma petição, por exemplo, a plataforma é uma boa aliada para se chegar a um maior número de pessoas. Atenta à forma como as comunidades utilizam a rede social, Lona Banos, directora de comunicação do Facebook para a Península Ibérica, propôs a criação de um guia inédito feito pelos olhos de quem cá vive. “Os lisboetas são apaixonados pela cidade e são das comunidades mais activas na rede social, por isso é que escolhemos a capital portuguesa”, explica Lona Banos, a propósito do guia lançado pela multinacional e apresentado na manhã desta quarta-feira (21 de Novembro). A edição é justificada ainda com o facto de a maior cidade portuguesa ser um dos pontos turísticos mais procurados na Europa, a “segunda preferida” para visitar, de acordo com o estudo Global Destination Cities Index, elaborado pela Mastercard.

O primeiro guia turístico deste género foi lançado em Junho passado, em Sevilha, uma cidade que a responsável diz ter semelhanças com Lisboa no que diz respeito à participação dos habitantes nas plataformas sociais. A ideia é que os turistas descubram Lisboa através de recomendações feitas por moradores de 25 grupos do Facebook, utilizadores da plataforma por diferentes motivos, mas com um objectivo em comum: ter uma participação activa na resolução dos problemas dos seus bairros. Qualquer pessoa já pode aceder à brochura em formato PDF, em português e inglês – neste endereço https://fbnewsroomes.files.wordpress.com/2018/11/guia-lisboa-pt-web.pdf -, ou no posto de turismo de Lisboa, no Terreiro do Paço. Até 25 de Novembro, neste espaço, há também uma exposição de fotografias de Manuel Gomes da Costa, com as histórias dos grupos que contribuíram para a criação do guia.

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São diversificadas as razões para a formação de grupos comunitários de Facebook na capital

Inicialmente, foi feita uma selecção das cem comunidades mais activas na rede social, na capital. As 25 escolhidas para participarem na construção do guia turístico são as mais procuradas pelos utilizadores da plataforma e conceberam um projecto que se encontra dividido entre “duas Lisboas”: a tradicional e a chamada trendy. Recomendam os melhores trajectos para correr e andar de bicicleta na cidade, informações sobre gastronomia local, cultura, arte e história tradicional, mas também sobre bairros modernos e emergentes e áreas onde uma Lisboa “mais contemporânea” está a crescer.


 

O grupo de moradores “Sentir o Parque das Nações”, que também colaborou, acredita ter sido o primeiro a convocar uma Assembleia de Freguesia Extraordinária através da rede social Facebook. Noutras partes da cidade, as potencialidades da rede social também têm transformado a vida dos moradores. João Guerreiro, administrador de outra página local, admite também que, sem esta plataforma, não conseguiria ter reunido um conjunto de habitantes na luta por um desejo antigo: pôr o eléctrico 24 a circular depois de 23 anos parado.

 

 

O morador do centro histórico, que criou o grupo na rede social responsável por reactivar a circulação deste veículo, esteve, na manhã desta quarta-feira (21 de Novembro), na apresentação do guia turístico, no Terreiro do Paço, juntamente com mais três líderes de grupos do Facebook sobre a capital, o “Startup Portugal”, o “Conta-me Histórias, Lisboa” e o “Mais Fado”. “Chateava-me o percurso que tinha de fazer a pé e, através da rede social, consegui mobilizar várias pessoas que também queriam o eléctrico de volta. O Facebook foi muito importante para o agendamento das iniciativas. O resultado foi um pequeno passo, mas muito importante, para o futuro da cidade”, conta.

 

Helena Aguiar, 60 anos, sempre gostou de perceber a história por de trás das casas, das igrejas e das ruas e, há quatro anos, começou a investigar dados desconhecidos da cidade e a partilhar as descobertas numa página de Facebook, o “Conta-me Histórias, Lisboa”.  “Inicialmente, a página até era mais para mim, como um auxiliar de memória das histórias, mas foi crescendo, as pessoas começaram a partilhar”, conta. Observadora das excursões turísticas que rumam diariamente ao seu bairro, a Mouraria, Helena começou a aperceber-se que os visitantes voltavam para casa sem conhecerem verdadeiramente o destino de férias. “Lisboa não é só os pastéis de Belém. O Castelo de São Jorge tem tantas coisas que as pessoas não conhecem, até moradores. Tento partilhar aquilo que ninguém repara”, diz.

 

 

A brochura, agora disponível em qualquer parte do mundo, não foi só feita por moradores da cidade. Jean Bernard dos Santos, luso-descendente a viver em Paris, também deu o seu contributo, depois de perceber que havia um grande desconhecimento da realidade do Fado lá fora. “As pessoas conheciam a Amália Rodrigues, a Mariza e a Ana Moura, mas não conheciam novas vozes do fado e lançámos a página para partilhar com eles os novos artistas”, conta. O grupo foi crescendo e Jean já conseguiu organizar o primeiro festival deste género musical em Paris.

 

O guia feito pelas comunidades do Facebook não é só destinado aos turistas, mas também aos moradores. “A cidade está a transformar-se e o guia também serve para mudarmos um bocadinho a perspectiva de quem cá vive”, explica Maria Tavares, directora de comunicação da Associação Turismo de Lisboa. Todas as ferramentas de promoção da cidade, diz ainda, são “bem-vindas” e são necessárias mais contribuições de quem cá vive. “Esta brochura tem uma visão menos institucional, mas não há melhor comunicação do que aquela que é transmitida pela experiência de quem mora em Lisboa. As pessoas falam com o coração e isso faz toda a diferença”, considera.

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