Santa Clara: esta é uma freguesia à parte que (também) pertence a Lisboa

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

Hugo David

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Clara

14 Fevereiro, 2018

Aquela zona continua a ser uma realidade distinta do resto da capital. A união das antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca em nada terá mudado a qualidade de vida de quem lá vive, queixam-se alguns moradores, que se dizem esquecidos. Há promessas de décadas por cumprir, como a construção de um centro de saúde e de uma esquadra de polícia. Um dos lamentos mais recentes dos moradores é a chegada da EMEL à freguesia, até agora fora da alçada da empresa municipal. Existirão necessidades mais urgentes que ordenar o estacionamento, ouve-se. Há muitos anos conotada com a falta de segurança, a freguesia parece só ganhar pontos na área da higiene urbana. Para todos, uma coisa é certa: Santa Clara é uma freguesia que carece, há muitos anos, de infraestruturas essenciais. Mas há coisas boas, claro. “Lisboa não é só Belém e a Baixa. Esta zona é muito calma e pode-se fazer aqui muita coisa”, diz um morador. “Estamos fartos de estar associados ao crime e à insegurança, não é justo. Só queremos ter um tratamento igual ao resto dos habitantes de Lisboa”, diz outro. A Sociedade Gestora da Alta de Lisboa garante que não esqueceu os habitantes, mas diz estar preocupada com quem procura a zona para viver. “Não prescindimos dos clientes futuros. Sabemos que Lisboa está na moda e a corrida à compra dos imóveis é mais que uma realidade”, afirma. “Em breve a Alta de Lisboa será um local de eleição para quem procura viver”, antevê, ainda.

“Isto é uma ‘mini-ilha’ dentro de Santa Clara”, diz Manuel Tiago, 39 anos, enquanto aponta para a área do jardim da Quinta de Santa Clara e para os lotes de prédios novos, contíguos ao espaço verde. “Fora deste quadrado, estão os bairros sociais, construídos para realojar moradores no âmbito do Programa Especial de Realojamento (PER). Põem lá as pessoas todas, de diferentes estratos sociais e etnias, e a sensação de exclusão aumenta”, explica o residente, que está desempregado.

Em frente ao jardim, vestígio de uma antiga quinta do século XVIII, erguem-se torres de prédios com quase vinte andares e há condomínios privados acabados de construir. É ali que vive a classe alta e média-alta de Santa Clara. Nas ruas transversais, a realidade vai mudando e, à medida que nos afastamos, o cenário torna-se bem diferente. Durante o dia, é difícil ver alguém na rua e, à noite, ainda menos. Os poucos cafés em funcionamento encerram a partir das 19h. Os proprietários dos estabelecimentos de restauração têm receio em abrir no período nocturno devido aos conflitos entre os moradores, que continuam a caracterizar a freguesia.

Em 2013, quando foi concluída a requalificação do jardim de Santa Clara, previa-se que o mesmo acolhesse espectáculos, concertos e exposições. Mas, segundo os moradores, só recebe dois eventos por ano. “É a única freguesia de Lisboa que não vem no mapa dos arraiais da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Acho que é revelador de muita coisa. Realizam uma feira e uma festa religiosa”, afirma Jorge Caetano, 48 anos, concessionário do quiosque do jardim. Paulo Branquinho, 36 anos, morador na área, confirma-o. “Faz-se uma festa medieval e, em maio, realizam-se as festas de Santa de Clara. Devia-se fazer mais actividades culturais, algo relacionado com a identidade da freguesia, como eventos de pequenos grupos de música daqui”, sugere o morador. Paulo Branquinho, que diz ter como actividades principais a viagem e a escrita, queixa-se, ainda, à semelhança de outros habitantes, da presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara, Maria da Graça Ferreira (PS), não ouvir os habitantes.

“Aqui, nada é feito com uma consulta genuína da população. É definido um orçamento e são impostas obras. Não foi bem pensado requalificar-se um jardim que embeleza a freguesia, mas que é menos útil numa zona com muitos problemas sociais e de habitação. O dinheiro podia ser gasto na habitação da zona B do bairro do PER, precisa muito mais”, considera o mesmo residente.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

Um sentimento que é partilhado por João Ferreira, vereador do PCP que viveu durante muitos anos na Ameixoeira. “Mais uma vez, a zona mais bem servida da freguesia tem um parque. É um jardim notável, mas foi completamente descaraterizado pela intervenção que foi feita, que arrasou a sua configuração original. Havia uma alameda de tílias, muito bonitas, e várias foram cortadas. Tiraram a estrutura de canteiro e colocaram uns bancos modernos que em nada tinham a ver com a traça original da antiga quinta. Entretanto, voltaram a colocar os antigos. O que ali foi feito é um absurdo total”, critica, em declarações a O Corvo, o vereador comunista na câmara da capital.

Uma das intervenções mais recentes realizadas em Santa Clara foi a requalificação da praça em frente ao jardim, no âmbito do programa da Câmara Municipal de Lisboa “Uma Praça em Cada Bairro”. No verão de 2017, foi concluída a primeira fase das obras desenhadas para aquele largo. Um investimento na melhoria do espaço público que, todavia, estará longe de agradar a todos. 

Segundo Jorge Caetano, que vive na Ameixoeira há 20 anos, a localização escolhida não foi a mais feliz. “Estiveram a compor a praça para nada, não passa ali ninguém. Com os milhões de euros que gastaram ali, podiam ter feito outras coisas para nós. Está bonito, mas não ajuda a população”, diz, enquanto direcciona o olhar para o largo.

A praça escolhida pela autarquia para ser requalificada é, precisamente, o lugar onde se concentra o segmento da população com rendimentos mais elevados. Uma opção de investimento da Câmara que, tal como outras, é condenada por João Ferreira, uma que vez que, alega, acentua as desigualdades sociais prevalecentes. “Qualquer pessoa que conheça minimamente a zona percebe que há um conjunto de áreas com maior necessidade e, até, urgência de investimento. A praça podia ter sido feita na Ameixoeira Velha, no Largo das Galinheiras, em muitos sítios que justificavam esta intervenção. Podiam aproveitar requalificações deste tipo para avançarem com processos de intervenção mais profundos. Esta era a zona que menos necessitava”, salienta. 

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

Há cinco anos, no âmbito da reorganização administrativa de Lisboa, as antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca uniram-se para dar a origem à freguesia de Santa Clara, uma decisão que, segundo os habitantes, veio adensar os problemas ali existentes. O crescimento residencial que se tem vindo a verificar, segundo os Censos 2011, continua a não ser acompanhado da instalação de equipamentos e serviços de apoio a jovens e idosos. À exceção da faixa etária entre os 15 e os 24 anos, que perdeu 21% dos indivíduos, todas as restantes aumentaram. Santa Clara é a freguesia de Lisboa com uma maior taxa de abandono escolar e a maior taxa de população residente entre os 20 e os 30 anos que não trabalha nem estuda.

Martim, como prefere ser identificado um jovem de 20 anos ouvido por O Corvo, e que frequenta uma licenciatura em Psicologia, diz-se esquecido. Tal como outros moradores da sua idade, reclama mais equipamentos desportivos e culturais e um maior acompanhamento das faixas etárias mais novas. “Falta uma biblioteca”, começa por apontar, enquanto faz uma pausa para reflectir. Aos poucos, vai enumerando outras lacunas da sua zona onde vive com a mãe. “Falta muito acompanhamento social, há muita gente a precisar de ser integrada. Não há associações culturais e espaços a pensar nos jovens. Faltam cafés abertos à noite, para convivermos. Os muros e os prédios estão todos riscados. Podia-se fazer arte urbana, como se fez no Bairro Padre Cruz”, propõe. Martim critica a escassez de pólos desportivos. “Fizeram balizas num campo de futebol desnivelado e não se consegue jogar assim. Também não há um espaço coberto para fazer desporto”, lamenta.

Martim partilha com Manuel Tiago a opinião de que o Parque Urbano do Vale da Ameixoeira – que tem vindo a ser alvo de intervenções pela Câmara de Lisboa – não satisfaz as necessidades dos habitantes. “Aquilo de verde não tem nada, há áreas completamente abandonadas. Gostávamos de ir para lá, mas, naquelas condições, temos de ficar por aqui. Só há um lixo lá”, queixa-se Martim. “É um parque gigante que nunca foi acabado. Nunca vi um parque tão mal aproveitado. Foi gasto dinheiro à toa, nunca se vê lá ninguém”, diz, ainda, Manuel Tiago.

Uns metros à frente do jardim, onde alguns jovens convivem ao final da tarde, funcionou durante muitos anos o Instituto Superior de Gestão (ISG). Desde 2016, é a União Geral de Trabalhadores (UGT) que está lá sediada. Durante o dia, a freguesia de Santa Clara não é muito mais do que isto: aglomerados de moradias e instituições onde vai surgindo um morador ou outro, normalmente com pressa. Muitos dizem não ser dali e estarem só de passagem. Há algum receio, inicial, em falar.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

Em 1984, a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) ficou responsável de pôr fim às construções precárias que caracterizaram a zona norte de Lisboa durante muitos anos, e de urbanizar a Alta de Lisboa. A última barraca foi abaixo em 2001, mas a revitalização da zona habitacional da freguesia ainda está aquém das expectativas dos moradores.

“Durante algum tempo, houve a ideia de que se ia reintegrar as pessoas, mas ainda há muito a fazer. As pessoas acabam por se fechar num gueto criado pela sociedade e, depois, por elas próprias. Se existe algo que não está bem não deve ser concentrado só num ponto, como sempre se fez aqui”, denuncia Paulo Branquinho, enquanto bebe uma cerveja, no quiosque de Jorge Caetano. O amigo, Manuel Tiago, é da mesma opinião. “Cada vez mais, pessoas realojadas são enviadas para aqui e não há nenhuma perspectiva de reintegração. Esta atitude aumenta a revolta. Tive amigos de infância que vieram para aqui, através do PER, e não aguentaram. Estamos fartos de estar associados ao crime e à insegurança, não é justo. Só queremos ter um tratamento igual ao resto dos habitantes de Lisboa”, diz o morador. 

Gil, 31 anos, e que também só quis ser identificado pelo primeiro nome, acredita que os problemas sociais da freguesia são fruto de um projecto mal arquitectado. “Fomos vítimas de um projecto mal pensado. Trouxeram muitas pessoas que não eram daqui e a zona sofreu. E, o mais curioso, é que ainda falta habitação”, afirma.

As obras da SGAL foram retomadas o ano passado, após um interregno. Os apartamentos do primeiro lote do Condomínio do Lago, concluído o ano passado, foram comprados em duas semanas. A edificação do segundo lote está prevista para o próximo ano e já há muitos compradores interessados. A construção de habitação social, criada para realojar famílias, ficou estagnada com o fim das últimas barracas.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

“Mudaram o nome para Santa Clara para quê? São dois estratos sociais que não se juntam, os da Charneca e os da Ameixoeira. Não vale a pena tentarem mascarar uma realidade que é óbvia. Aqui há três estratos sociais, as etnias ciganas e africanas, a classe média alta e os idosos, com reformas baixíssimas”, critica Jorge Caetano, que mora na extinta freguesia da Ameixoeira há vinte anos. E acrescenta: “Está a acontecer uma valorização imobiliária, é muito caro viver aqui. Há quem não consiga pagar a renda e tenha dificuldade em encontrar casa. Não faz sentido”.

A sensação predominante é a de que as famílias foram instaladas em Santa Clara e ficaram ali esquecidas, enquanto as gerações se renovavam. E, com o passar dos anos, o panorama repete-se. “As pessoas continuam a ser encaixotadas. Houve um realojamento na perspectiva de despejá-las para dentro de uns blocos de cimento, esquecendo todo um conjunto de apoios e acompanhamento que é necessário”, observa o vereador João Ferreira. 

A maioria dos agregados familiares realocados da antiga Musgueira, nos bairros sociais de Santa Clara, vieram de outros concelhos limítrofes e não tinham raízes na freguesia. E, se nos primeiros anos do seu realojamento houve alguma preocupação em criar uma inserção saudável daquelas comunidades na vida do bairro, parece que, na visão dos moradores, esse trabalho acabou cedo. “Existe uma concentração significativa de bairros municipais que têm os seus problemas específicos, muitos deles na sequência dos sucessivos PER. A abertura dos telejornais com tiroteios, na Ameixoeira, tem um bocadinho a ver com este trabalho de reinserção que ficou por fazer”, acusa o vereador.

A Gebalis, empresa municipal responsável pela gestão de bairros sociais “vem imbuída de visões e estigmas e não detecta o que se passa na Alta de Lisboa”, considera José Almeida, da Associação de Residentes da Alta de Lisboa (ARAL). “Há pessoas realojadas e pessoas encaixotadas, que é diferente. As pessoas que lá vivem não podem sentir que são postas em último plano. Os moradores do Bairro da Cruz Vermelha, que precisavam de uma intervenção de fundo, também vão para Santa Clara. Para o nosso território vai tudo o que a autarquia não quer”, refere, ainda.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

João Ferreira diz que há, “claramente, um número extremamente reduzido” de assistentes sociais da Gebalis face às necessidades da freguesia. Era possível fazer ali um bom trabalho de acompanhamento. A situação social que hoje ali se vive é um bocado reflexo disso também, das pessoas terem sido encaixotadas, não é só atirá-las para dentro de uma casa e está feito. A partir de 2001 houve um corte neste tipo de programas que não foi inflectido. A incúria e o desleixo da câmara tem reflexos a vários níveis e este é só um deles”, acusa.

Enquanto os moradores continuam a discutir intenções inacabadas e promessas por cumprir, a freguesia vai sofrendo transformações de outro cariz. No final do ano passado, a Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) chegou a Santa Clara. Foram criados mais 30 mil lugares de estacionamento pagos por toda a cidade e foram incluídas novas freguesias. “Não concordo nada com a instalação da EMEL. Não faz sentido ter de estar a comprar um dístico de residência”, refere a moradora Ana Fonseca, 44 anos. Paulo Branquinho faz reparos semelhantes. “Não é compreensível, numa zona maioritariamente habitacional, colocarem mais uma taxinha. Se as pessoas já não vinham aqui, agora passam a vir menos”, diz.


“Não percebo porque temos parquímetros aqui e no Lumiar não existem”, comenta Henrique Mendonça, outro habitante. E critica, também, a construção do parque de estacionamento de 500 lugares, junto à Escola Básica nº 108, uma queixa que se estende aos restantes moradores. “Gastaram imenso dinheiro no parque de estacionamento não sei para quê. Não tem cabimento nenhum. Não ajuda em nada a nossa vida”, alerta.

Ana Fonseca, que vive há 40 anos na Ameixoeira, apesar de considerar a criação de mais lugares concessionados uma das “grandes falhas” da antiga freguesia, neste momento, olha para o futuro com optimismo. “Tem havido uma boa evolução. Houve uma estagnação durante muito tempo, mas, de há sete anos para cá, criaram novos acessos e infraestruturas, que não podemos desvalorizar. O metro facilitou muito a ligação ao centro de Lisboa e o jardim está mais bonito. Se nada tivesse mudado também era muito mau sinal”, observa.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

Ana conta, ainda, que há uma faixa etária mais nova que está a regressar ao local onde viveu a infância, porque vê ali uma boa zona para viver. “Muitos jovens estão a voltar para cá. A população é muito envelhecida, mas tenho muitos amigos de infância a regressarem para estarem mais perto dos pais. É um sítio pacífico para viver”, garante.

Ana Fonseca fala com O Corvo, enquanto vai contando as novidades a Alcides Marques, o proprietário de uma mercearia, um dos poucos comércios locais que foi sobrevivendo à mudança dos tempos. Alcides, 71 anos, olha com tristeza para o futuro do seu bairro onde já perdeu a conta das pessoas que conheceu. “Antigamente, não havia aqui nada, era um descampado. Depois, foi sendo povoado. Hoje, não se vê ninguém, outra vez. Os idosos, a maioria da população, morrem ou vão para lares. Fechou o Instituto Superior de Gestão, que ainda atraia muitos jovens”, comenta. O que menos gosta, diz ainda, é da freguesia ser apenas “um bairro de dormitório” e da EMEL estar a matar o pequeno comércio. “A culpa é da junta de freguesia, que autorizou que a empresa viesse para cá”, queixa-se.

Manuel Soares, 58 anos, é da mesma opinião. “Não há nada aqui para ver, isto é muito fechado. Não há nenhum chamariz que atraia as pessoas e os moradores não se sentem parte de Lisboa”, desabafa. Trabalha num café nas Galerias de Santa Clara, onde ainda existe uma placa a anunciar o nome do antigo centro comercial. Chegaram a funcionar ali 15 lojas. Hoje, só está aberto o café de Manuel Soares, que está sozinho há doze anos. “O café não tem ninguém, só um ou outro cliente habitual. Não quero sair, mas, mais tarde ou mais cedo, fecha. O senhorio também não tem vontade que continue”, lamenta.

A sensação de abandono que predomina nestes comerciantes, contudo, não é só sentida a nível da carência de infraestruturas e equipamentos. Há serviços públicos básicos que continuam a falhar. Em 2004, a Câmara de Lisboa prometeu a instalação de uma esquadra de polícia, que ainda não chegou. A mais próxima é a do Bairro Padre Cruz.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

“Como é que não há aqui uma esquadra?”, questiona Gil, que mora ao lado de um bairro social. “Deixou de se ver patrulhamento. Há pouco tempo, precisámos de chamar a polícia e não tinham carro nem mota. Vieram a pé. A partir das nove da noite, não se vê ninguém e os cafés fecham”, explica.

José Almeida, presidente da Associação de Moradores do Alto do Lumiar (ARAL), freguesia vizinha de Santa Clara, nasceu na Alta de Lisboa e diz conhecer bem a realidade que ali se vive. “A esquadra do Bairro Padre Cruz tem sete efectivos em cada turno. A filosofia deles é de reacção e não de prevenção. Estes territórios obrigam a que haja policiamento a tempo inteiro. Só posso concluir que não há interesse”, afirma. 

Desde há muitos anos, o sentimento vivido nos bairros do PER é de “uma enorme intranquilidade”, garante João Ferreira, que diz frequentar com regularidade os bairros criados no âmbito deste programa. “Isto resolvia-se com a presença de proximidade de forças de segurança. Quando a câmara fechou esquadras com o argumento de que ia abrir noutros sítios, onde eram mais necessárias, se há sítio onde eram precisas era aqui. Também disseram que iam fechar a esquadra para aumentar o policiamento de proximidade e não aconteceu”, comenta.

Na Rua do Desvio, ausente de vida, há uma mercearia, dois cafés encerrados e uma papelaria. Vê-se, também, uma lavandaria self-service, mas parece ser utilizada por poucos. Não tem movimento. Rui Santos, 27 anos, vende jornais, revistas e raspadinhas, o artigo mais requisitado na papelaria. Acredita que Santa Clara tem muitos recursos subaproveitados. 

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

“Isto estagnou um bocadinho. A população é cada vez mais idosa e não tem sido feito nada para atrair jovens no sentido de emprego e habitação. Podia ser criada uma casa de Alojamento Local que desse trabalho aos mais novos, que têm a vantagem de falarem bem outras línguas. Lisboa não é só Belém e a Baixa. Esta zona é muito calma e pode-se fazer aqui muita coisa”, lamenta. 

O pai de Rui Santos chegou a ter um café naquela rua, mas não durou muito tempo, devido à insegurança. “Antes, esta rua estava cheia de pessoas de etnia cigana que entravam nos cafés só para criarem desacatos. Agora, está muito mais calma a esse nível”, explica. E, há outros moradores a dizerem sentir-se mais seguros, como Rafael, que só quis ser identificado pelo primeiro nome, de 16 anos. “Não há tantas confusões, só pequenos atritos. O que é mais chato são as obras que demoram sempre muitos anos a serem concluídas”, afirma.

Apesar das fragilidades da freguesia, todos concordam que a limpeza tem vindo a melhorar consideravelmente. “A melhoria da limpeza nota-se muito, mas penso que também se deve à transmissão de competências da câmara para a junta. Os funcionários de limpeza quadruplicaram”, diz Jorge Caetano.

Na antiga freguesia da Charneca, em tempos uma zona rural há espera de ser povoada, ganhou população aquando da construção do aeroporto e do realojamento dos habitantes das antigas barracas. Muitos dos habitantes dos bairros municipais provisórios da Musgueira Norte e Musgueira Sul mudaram-se para ali, como é o caso de Fátima Lopes, de 58 anos. Vive na Charneca há 18 anos e elogia o crescente cuidado com a higiene urbana. A moradora reinvindica apenas um posto médico.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

“Gosto muito de viver aqui, é calmo. Na Musgeira estávamos mais próximos e quando as pessoas destruíam tudo era pior”, afirma, referindo-se às construções abarracadas onde viveu antes de ser realojada na Charneca. “Têm limpo mais as ruas e isso sente-se. Só falta mesmo um posto médico. Em caso de urgência temos de ir a correr para o Hospital Santa Maria e há situações que podiam ser resolvidas só com um posto médico”, observa, ainda.

Sérgio Pereira, de 21 anos, vive na Charneca desde 2003 e diz não sentir falta de nada. “Gosto de viver aqui, é muito tranquilo. Nota-se que tem havido um investimento, têm sido feitas muitas obras e já temos um posto de correio”, comenta o motorista da Uber, enquanto compra batatas para o almoço na única mercearia aberta aquela hora no bairro.

Há um centro de saúde anunciado há mais de duas décadas, outra das antigas reivindicações antigas da freguesia. João Ferreira critica a demora na chegada do centro de saúde. “O centro de saúde da Ameixoeira já foi, várias vezes, prometido e anunciado, já mudou de sítio, mas continua a não existir. Em 1997, foi anunciado pela primeira vez. Estamos a falar de uma freguesia de Lisboa em que uma parte da população para ir ao seu médico de família tem de ir a Camarate, não faz sentido”, explica. “O centro de saúde vai abrir antes das eleições autárquicas”, ironiza José Almeida, presidente da ARAL, referindo-se às próximas autárquicas, daqui a quatro anos.

Situada no topo norte da cidade, a freguesia de Santa Clara tem sofrido grandes transformações ao longo dos últimos anos. Segundo os censos de 2011, a população tem registado um crescimento e, o clima de insegurança ali vivido parece estar, segundo os moradores, a diminuir. No entanto, estes números parecem ainda não ser suficientes para colocar uma das 24 freguesias de Lisboa nas prioridades dos autarcas.

José Almeida, da ARAL, acredita que a freguesia de Santa Clara tem sido posta de lado por parte dos sucessivos executivos camarários e que a decisão de sediar a junta de freguesia de Santa Clara na antiga freguesia da Ameixoeira foi “uma escolha infeliz”. “Se a Charneca já era vista como o parente pobre da Alta de Lisboa, com a sede da Junta de Santa Clara instalada na Ameixoeira, passou a ser ainda mais. É uma zona à parte. A Câmara de Lisboa acha que são uns arrabaldes que estão para ali, não há uma visão de conjunto. Os autarcas têm uma postura muito principesca. Os problemas são muito demorados em termos de resolução”, considera.

Ameixoeira; Bairro; Lisboa; O Corvo; Paisagem Urbana; © HUGO DAVID 2018

Segundo o presidente da ARAL, 50% da população da Charneca está dependente do contrato com a SGAL, encontrando-se, por isso, condicionada ao plano da entidade responsável por urbanizar a Alta de Lisboa. “Quem preside acha que as pessoas não têm interesse, o que se nota na forma como são tratadas, mas os habitantes sofrem com isso”, diz. “Há um raciocínio muito estigmatizante e, por causa dessa forma de pensar, perde-se muito a nível humano. É preciso trazer os jovens de outra forma e não perdê-los. Há muitas formas de o fazer começando-se nas escolas. A câmara pode simplesmente reforçar a equipa de acompanhamento”, acrescenta.

Santa Clara é uma freguesia que, diz João Ferreira, carece, há muitos anos, de um conjunto de infraestruturas essenciais. “Nos últimos anos, e, em particular, desde a reforma administrativa, não existiu nenhum tipo de inflecção das políticas vigentes da freguesia. Até pelo contrário”, acusa.

A Sociedade Gestora da Alta de Lisboa garante a O Corvo que não esqueceu os habitantes da freguesia na elaboração do planeamento da urbanização da Alta de Lisboa, que tem a seu cargo. “A Alta de Lisboa preocupa-se com o bem-estar de todos os seus moradores actuais. A concretização do Plano de Urbanização do Alto do Lumiar (PUAL), que se encontra estabelecido e actualizado, é a forma segura de garantir esta parte da cidade com vários segmentos”, assegura em depoimento escrito a O Corvo Miguel Lobo, director comercial da SGAL.

No entanto, ressalva, está preocupada com potenciais novos moradores. “Não prescindimos dos clientes futuros. Sabemos que Lisboa está na moda e a corrida à compra dos imóveis é mais que uma realidade.  A nossa construção tem por objectivo satisfazer tanto uma classe média/alta de forma ecléctica, como o segmento de entrada com preços competitivos, como foi o caso do Condomínio do Lago, com uma visão clara da importância de todos se poderem sentir satisfeitos”, explica.

Desde que entrou em funções, a SGAL diz que a Alta de Lisboa tem conhecido um desenvolvimento notável e que foram ali realizados vários investimentos estruturais, nomeadamente a conclusão das obras do Eixo Central da Alta de Lisboa e da Avenida Santos e Castro, a inauguração da pista de atletismo Prof. Martins Moniz, do Complexo Desportivo da Alta de Lisboa e do Centro de Apoio e Desenvolvimento Comunitário, a construção de raiz do Parque Oeste, assim como, a edificação de mais de quatro mil apartamentos em dez condomínios diferentes, que trouxeram mais de dez mil novos habitantes para a Alta de Lisboa.

A entidade responsável por urbanizar a Alta de Lisboa diz, ainda, que tem em vista alguns projectos a médio e longo prazo, mas que, para já, não pode revelar detalhes sobre os mesmos. “Alguns dos novos empreendimentos estão nas mãos de investidores que apostaram na Alta de Lisboa como sendo um local promissor a um futuro que garante um desenvolvimento rápido e vasto desta área. Em breve a Alta de Lisboa será um local de eleição para quem procura viver, trabalhar ou divertir-se, perto de tudo”, salienta.

 

O Corvo tentou contactar, por várias vezes, a Junta de Freguesia de Santa Clara, não conseguindo, no entanto, chegar à fala com a presidente da Junta, Maria da Graça Ferreira (PS).

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • Fernando Lobo Almeida
    Responder

    Até nesta reportagem se vê a diferença dentro da própria freguesia, alguem foi fazer reportagem nas Galinheiras? tambem ela parte da freguesia, e se com a junção se criou uma zona mais de elite, onde mora a presidente e se deixou ainda mais ao abandono a pior zona, que desde arruamentos a casas degradadas e vandalizadas tem de tudo. Se na Ameixoeira se queixam de insegurança nas Galinheiras assim que escurece tudo fecha e as pessoas só em grupo saem à rua. Policiamento?? Tambem eles devem ter o seu receio ou então de atrapalhar o negócio que se passa à vista de todos no largo. As pequenas obras ou iniciativas só de 4 em 4 anos e junto ás eleições, depois é esperar mais 4 anos por ver alguem da junta por ali.

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