Um novo festival internacional de criação artística, inspirado numa experiência italiana, promete aceitar (quase) todos os trabalhos que forem entregues. Por isso, reclama-se como democrático, comunitário e inclusivo. Mas também porque se propõe funcionar como espaço de diálogo com os membros da comunidade que o acolhe e ajudar na reflexão sobre as profundas alterações nela provocadas pela onda turística que tomou Lisboa. Para que a capital portuguesa não fique presa a uma imagem redutora. A entrega de propostas pode ser feita até 30 de Abril.

 

Texto: Samuel Alemão

 

Se razões faltassem para observar com toda a atenção as grandes mutações por que estão a passar os bairros do centro histórico da capital, uma outra surgirá entre 20 e 24 de Julho. O festival Paratissima Lisboa propõe-se converter as ruas dos bairros da Mouraria, do Castelo e de Alfama numa enorme galeria de arte preenchida, ao longo de um percurso de 2,5 quilómetros, pelos trabalhos de todos aqueles que queiram participar e cuja criação seja passível de ser colocada na ruas. O modelo é importado da cidade italiana de Turim e apresenta-se como um “projeto expositivo público, colaborativo, inclusivo e democrático de arte contemporânea no espaço urbano, destinado à promoção dos artistas emergentes”.

 

Fotografia, vídeo, artes plásticas, ilustração, design e moda serão as áreas privilegiadas. O objectivo principal é suscitar a reflexão sobre o espaço urbano – neste caso, os três bairros abrangidos – e promover o diálogo com os residentes, através da criação artística contemporânea. Mas sem as barreiras impostas pelo elitista mercado das artes. Não existirão, por isso, restrições ou critérios selectivos que impeçam artistas desconhecidos de participarem – para além dos óbvios cuidados com a não promoção de ideias que possam ir contra o próprio espírito do festival. A entrega de propostas acontece até 30 de Abril.

 

Ao mesmo tempo, deseja-se que as criações artísticas comuniquem com as pessoas que dão vida aquelas ruas e praças. Independentemente de elas estarem ou não familiarizadas com as diversas formas de expressão utilizadas. Um diálogo, portanto. “Acreditamos num envolvimento mais alargado dos artistas com as pessoas que constituem a comunidade, através da arte pública. A ideia é que os criadores se sintam aliciados, motivados a trabalhar e a dialogar com o território onde vão ter os trabalhos expostos”, diz ao Corvo Vítor Barros, membro da direcção do Ebano Collective, entidade organizadora do festival – promovido pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior – e que já tinha levado a cabo o Mouraria Light Walk, em 2013.

 

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São bem conhecidas as transformações vividas, nos últimos anos, no eixo Intendente-Martim Moniz-Mouraria, devido à grande operação de reconversão urbanística encetada pela Câmara Municipal de Lisboa a partir de 2011, mas também em bairros como o Castelo, Alfama e a Baixa, devido ao grande crescimento do turismo. Se os aspectos positivos da reabilitação de um território degradado são evidentes, o preço a pagar por essa mudança tem também vindo a ser gradualmente denunciado por muita gente: especulação imobiliária, um custo de vida mais alto para os residentes e, em certos casos, descaracterização do comércio.

 

“As coisas nunca são lineares. E as mudanças aqui verificadas são disso exemplo. Queremos, por isso, que essa transformação possa ser acompanhada por uma reflexão constante”, diz Vítor Barros, que não deixa escapar a oportunidade para criticar o que considera ser uma artificialização da imagem da cidade e dos seus bairros provocada pela avalanche turística. “Muitas vezes, quando se faz a promoção turística de Lisboa, parece que se querem exaltar determinadas características da cidade, esquecendo certas comunidades migrantes que aqui vivem há 30 ou mais anos”, afirma.

 

Pretende-se, por isso, que a discussão em torno dessas transformações – algumas delas radicais – que estão a acontecer nos bairros históricos de Lisboa seja intensa. “Pelo menos, está na nossa mão tentar influenciar o debate, com a participação das pessoas no mesmo. Esperemos que Lisboa possa aprender com muitos dos erros que foram cometidos noutras cidades”, diz Vítor Barros, responsável pela organização de um festival inspirado naquele de igual nome que acontece, todos os anos, desde 2004, na cidade italiana de Turim.

 

Mais informações: www.paratissima.pt

 

 

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