Rua de Lisboa poderá ter nome de quatro jovens mortos pela PIDE no dia 25 de Abril

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

15 Junho, 2018

O 25 de Abril ainda perdura na memória dos portugueses como a “revolução sem sangue”, quando os cravos vermelhos substituíram as balas. Mas, no dia em que se celebrou a liberdade, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) matou pelo menos quatro homens: João Arruda, 20 anos, Fernando Gesteiro, 18, Fernando dos Reis, 24 e José Barnetto, 37. Para resgatar esta memória apagada, ou “mesmo desconhecida”, Pedro Vieira, escritor e apresentador de programas de televisão, lançou uma petição para que os nomes destas pessoas sejam atribuídos a uma rua ou a um lugar da cidade.

“É um assunto que já está há muito tempo por resolver e foi esquecido muito rapidamente em benefício de uma ideia de revolução imaculada, mas que não corresponde totalmente à verdade”, explica Pedro Vieira a O Corvo. “São eles os heróis improváveis da revolução. Não permitamos que se lhes junte o adjectivo ‘esquecidos’”, diz a petição enviada à Assembleia Municipal de Lisboa (AML).


 

Em 1980, foi colocada uma placa evocativa dos quatro jovens, junto às antigas instalações da PIDE, agora um condomínio de luxo, na Rua António Maria Cardoso, onde foram mortos. Com o passar dos anos, esta sinalização foi degradando-se, já tendo sido reposta e recuperada mais do que uma vez. Durante as obras de recuperação do edifício, em 2009, a placa foi retirada e só viria a ser recolocada depois de uma queixa feita pelo movimento de cidadãos Não Apaguem a Memória. Pedro Vieira considera, contudo, que a referida placa é insuficiente para prestar esta homenagem, porque, além de não se visualizar bem, tem erros factuais nos nomes.

Além disso, critica ainda, “a natureza do próprio espaço mudou radicalmente”, deixando de ser um dos sítios mais sinistros da repressão da ditadura fascista. “Agora, é um condomínio de luxo, sem muito respeito por aquilo que aconteceu ali. Até pode existir um desconhecimento involuntário dos factos, mas é também por isso que considerei que não podia perder mais tempo e lançar a petição”, explica. O promotor do abaixo-assinado confessa, contudo, que ainda não sabe se vai ser possível proceder ao baptismo das ruas da forma que idealizou.

Em conversações com a autarquia, o jornalista já percebeu que poderá não ser possível colocar o nome dos quatro homenageados num só arruamento. “A rua vai ser o mais difícil de definir porque aquela zona, onde os factos aconteceram, é muito concorrida.  Já se pôs a hipótese de haver um marco num jardim da cidade, porque, se não, terá de ser numa rua numa zona periférica e já não faz tanto sentido”, considera.

 

A subscrição, que conta com 447 assinaturas, entre jornalistas e professores, reformados e historiadores, designers e tradutores, arquitectos e desempregados, de diversas idades e cores políticas, já seguiu para apreciação na Assembleia Municipal de Lisboa (AML). Os peticionários esperam agora que a mesma seja apreciada e discutida em sessão plenária da assembleia. Na petição, lê-se que estes quatro homens “deveriam fazer parte do nosso dédalo de ruas, travessas e praças, resgatando-os ao silêncio e à indiferença por onde a cidade os leva há demasiados anos”. “Naquele dia, sacrificaram as vidas à liberdade que então começava, abatidos por gente acossada e sem futuro”, escreve-se ainda, para, logo depois, se destacar o aparente paradoxo: “Uma revolução de cravos no lugar das balas, e no entanto”.

 

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COMENTÁRIOS

  • Armando Graça
    Responder

    Acho muito bem que se faça esta reposição da verdade e da memória colectiva.
    Melhor que uma rua, tanto pelo inédito dos três nomes, como pelo facto de alguma rua ir perder o seu nome tradicional, seria construir um memorial digno e tão perto do local dos factos quanto possível.

  • Henrique Salles da Fonseca
    Responder

    Quanto mais nela se mexe, mais ela fede.

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