A poucos metros da Avenida da Liberdade, vive uma Lisboa quase morta, a zona do Conde Redondo, onde grandes empresas, serviços do Estado, lojas e restaurantes encerraram as suas portas. A atravessá-la, uma rua por onde é perigoso circular.

 

 

Texto: Isabel Braga        Fotografias: Paula Ferreira

 

 

No coração de Lisboa, a zona do Conde Redondo, outrora fervilhante de vida, está transformada num quase deserto, por onde os carros circulam a alta velocidade. Dois gigantescos edifícios abandonados, um deles pertencentes aos CTT, e o outro a antiga sede da Robbialac, conferem ao quarteirão central desta artéria, entre as ruas Bernardo Lima e Luciano Cordeiro, um ambiente quase fantasmagórico.

 

Um pouco adiante, as montras de vidro sujo da Frineve, a loja onde, nas décadas de 60 e 70, quase todos lisboetas se abasteciam de torradeiras, aspiradores, frigoríficos e toda a espécie de electrodomésticos, são como olhos cegos a contemplar passeios desertos.

 

Quase porta sim, porta não, na Rua do Conde Redondo e artérias perpendiculares, há letreiros a anunciar “vende-se”, “aluga-se” ou “subaluga-se”, como é o caso do edifício dos CTT, transferido há cinco anos para a zona da Expo, e do prédio nº 21 da Rua Gonçalves Crespo, que pertence à Segurança Social. O Instituto de Novas Profissões, na Rua Bernardo Lima, também voou para outras paragens, na periferia da cidade, o mesmo acontecendo com a sede da antiga Junta Autónoma das Estradas.

 

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Lojas de roupa e restaurantes encerraram as portas, entre eles o Udina, que tinha concertos ao jantar, ou o Solar do Conde Redondo, de tradições firmadas. A única mercearia que resta na rua pertence agora a um imigrante vindo do oriente, que não sabe uma palavra de português, mas tem a loja aberta até às duas horas da manhã. Das lojas convencionais, restam duas farmácia, uma drogaria, com vassouras à porta, uma loja de chaves, duas farmácias, uma loja de chaves e uma papelaria.

 

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Também já não se vêem prostitutas na Conde Redondo, uma zona onde, em tempos mais antigos, as havia em tão grande número, pelas esquinas, que, como relata a dona da papelaria Lofersil, Maria Manuela Caetano, estabelecida na rua há 43 anos, era difícil estar parada à porta da loja sem ser “incomodada” por potenciais clientes. À vista de quem passa, quando cai a noite, apenas um ou dois travestis procuram clientes.

 

O negócio do sexo não desapareceu, no entanto, desta zona da capital, apenas tudo se passa longe da vista de quem passa, em bares de alterne conhecidos, como o Elefante Branco, na Rua Luciano Cordeiro, ou Night and Day e o Gallery, na Avenida Duque de Loulé.

 

Maria Manuela Caetano adianta algumas explicações para a desertificação da Conde Redondo: “Na Rua Gomes Freire, mesmo aqui ao lado, funcionava o Arquivo de Identificação, que atraía muita gente, assim como a Escola de Medicina Veterinária (que mudou para a Ajuda). O aumento das rendas também levou muita gente a fugir”. Sem gente a cruzá-la, nem possibilidades de estacionamento, a Rua do Conde de Redondo transformou-se numa via rápida em pleno centro da cidade.

 

“Os carros passam a uma velocidade estonteante. Não podem parar, desde que mudaram o sentido do trânsito. Antes, havia três faixas descendentes e uma delas podia permitir o estacionamento, agora há duas faixas nos dois sentidos, ou seja, quem passa de carro não pode mesmo parar. Daí que o comércio se tenha ido mais abaixo ainda. Já ouvi dizer que estas mudanças de trânsito tiveram algo a ver com as alterações que envolveram a Baixa e a Avenida da Liberdade. Há duas faixas a subir, mas poucos carros passam ali, é tudo a descer. Não sei porque não se volta ao que era antes”, refere Maria Manuela Caetano.

 

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A somar à alta velocidade da circulação automóvel, existirão ainda erros crassos na sinalização de tráfego, os quais terão dado origem a acidentes graves: os piores ocorreram no cruzamento da Rua do Conde de Redondo com a Gonçalves Crespo, onde existe um semáforo colocado mesmo à frente de uma paragem de autocarro. Quando um autocarro pára, o semáforo fica invisível para os automóveis, que ultrapassam o autocarro e passam o cruzamento com o sinal vermelho, atropelando peões que pensavam que estavam a atravessar a rua em segurança.

 

“É rara a semana em que não há um atropelamento aqui, sobretudo à noite, quando os caros descem a rua a ‘abrir’. Isto é uma autêntica pista de corridas”, refere Rui (nome fictício), morador na rua. Ele chama à curva que a Rua do Conde de Redondo forma no cruzamento com a Gonçalves Crespo a “curva do Mónaco”. “Há ali uma agência bancária do Millennium por onde já entrou um carro duas ou três vezes. Duma das vezes, deixou um homem sem pernas”.

 

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Duas mulheres fumavam um cigarro melancólico à porta da Markteste, empresa onde trabalham. “Há imensos restaurantes a fechar. A única coisa que não falta aqui são cabeleireiros, não sabemos porquê. Ainda há alguns escritórios, mas não se vê gente na rua e os acidentes de carro são imensos”.

 

Não se pode afirmar, no entanto, que não existe gente nesta rua, que deve o seu nome ao Palácio dos Condes de Redondo, no início da Rua de Santa Marta, logo abaixo, onde hoje funciona a Universidade Autónoma de Lisboa. Novos habitantes têm-se mudado para ali, “jovens estrangeiros, sobretudo estudantes de Erasmus, que procuram esta rua porque os apartamentos são mais baratos do que noutras zonas centrais da cidade. Mas, aos sábados, isto torna-se um verdadeiro deserto”, acrescenta ainda Rui.

 

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Conformado com a situação parece estar Joaquim Agostinho, um homem de 79 anos, que diz vender saúde e aparenta grande alegria de viver. “Dantes havia drogarias, papelarias, lugares de fruta. Agora são os indianos. O problema é que os eléctricos que ligavam esta zona à cidade inteira deixaram de passar. Mas o pior de tudo foram os centros comerciais, que abriram por todo o lado. Estragaram tudo”.

 

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  • António Quintas
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  • bituur esztreym
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  • Paulo Ramos
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    Deve – se a uma excelente planeamento municipal continuem a dar licenças para as grandes superfícies

  • Visit Lisbon
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  • Ricardo
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    deve-se ao surgimento da PJ e da prostituição
    com pessoal corrupto como é possível existir e avançar com meios empresariais

  • Nelson Carriço
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    Atenção ao português, onde se lê tráfico devia ler-se tráfego.

    • O Corvo
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      Tem razão. Está corrigido. Obrigado.

  • Celisa Abreu
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    Enfim quem tudo quer tudo perde querem muito dinheiro nas rendas

  • José Eduardo Leitão
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    Cá está… o resultado da “guerra” aberta contra a economia e a vida de uma Cidade, outrora próspera e cheia de movimento. Não tarda as ervas e outras “vidas daninhas” se encarregarão de transformar muitas zonas desta Cidade num cenário de filme até agora só visto em ficção cientifica. Alguém deve estar orgulhoso de tamanha façanha…

  • José Lucas CARDOSO
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    TONI, então não dizes nada, pá?
    Rua Conde de Redondo, um deserto atravessado por uma via rápida http://t.co/nr5JJvUvw5

  • Nuno Rebelo
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    Rua Conde de Redondo, um deserto atravessado por uma via rápida http://t.co/TohyVmDA0d

  • Pedro S. Lourenço
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    Vota Costa… Rua Conde de Redondo, um deserto atravessado por uma via rápida http://t.co/OjgbdGDw5J

  • Alguém preocupado
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    Não consigo perceber uma coisa: é evidente o mau trabalho de Costa à frente da Câmara de Lisboa, falo com lisboetas que apesar de o criticarem continuam a votar nele, é peculiar no mínimo. E agora querem entregar o país todo a esse Senhor? Será que não é óbvio o que vai voltar a acontecer à economia portuguesa com Costa como primeiro ministro? A não ser que se descubra petróleo e diamantes em Portugal o que ele promete ao país é totalmente inexequível e utópico e irá lançar-nos num novo patamar de dívidas que sustentam um mísero crescimento económico totalmente insustentável. Vamos novamente deitar tudo a perder, inclusive fazer desvanecer todos os frutos dos enormes sacrifícios nacionais dos últimos anos.

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